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EROS
























EROS













ANNE HOLT MULLER



Título original: Eros


Copyright© 2016 por Anne Holt Muller



Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.



Tradução do poema “Never Give All The Heart” de William Butler Yeats, “San Francisco”, Laurel, “Shelter”, Birdy; letras das músicas, poemas e notas de rodapé traduzidos por Anne Holt Muller. Reproduzido mediante prévia autorização do tradutor.



Imagem na capa: Melina Ripken/Model Werk



Todos os direitos reservados. A duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quais quer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocopia ou outros), sem a autorização por escrito do autor é proibida e constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.360/98).



Dados Internacionais para Catalogação na publicação (CIP):



M958 Muller, Anne Holt, 1999 —

EROS/Anne Holt Muller — Rio de Janeiro: Amazon, 2017.

424p. — 14x21 cm (Eros, vol. 1)

Tradução de: Eros

ISBN 9781542385578


I. Romance II. New adult. IV. Título. V. Série


CDD: 813

CDU: 811.134.3 (81)-32























Para Juliana e Alasca, minhas constantes inspirações.






NOTA DO AUTOR




A todos que dedicarão tempo à leitura. Principalmente, à Juliana, que sempre me escutou falar interminavelmente sobre Laurel como se fosse uma pessoa, não uma personagem. Como se saltassem para dentro de nossas vidas tediosas. Aos livros de psicologia, que serviram de base para cada surto dela. Às canecas de café que me mantiveram acordada durante meses, nas madrugadas, para escrever e as músicas da Laurel, que serviram de inspiração até para o nome da personagem. Em caso de dúvidas, ela não é a protagonista, embora seja chato e entediante que, às vezes, tudo gire em torno dela.

E eles sempre me lembram duma poesia, pois não há de existir um amor mais belo.




Olhe-me, tão belo ao virar-se,

contemplo, abraço este oceano

tal vento que agita seus cabelos loiros

tua pele clara.

Ela deslizava a língua pelos lábios, num gesto

tão amplamente sentimental tal qual seu coração.


enlouquecer-te-ei em sua pele,

provando de ti, que tão profundo se cravou em mim

que jamais esquecerei de você enquanto ainda pensar em mim


machuca te ver ir,

mas matar-me-ia vê-la machucar-se ao ficar.



Parte Um


O amor não busca agradar a si mesmo, nem destina qualquer cuidado a si próprio

Mas se dá facilmente ao outro,

e constrói um paraíso no desespero do inferno”. William Blake.




1º DE MAIO DE 2009


Primeiro ela coloca flores, os arranjos bonitos que trazem beleza ao escritório de Anthony, depois puxa sua saia um pouco para baixo, observando o trabalho bem feito. Devo dizer que está bonito apesar de nada daquilo fazer diferença.

Você está bem? Está pálida — ela sabe que não estou bem, nem sei por que exatamente estou fazendo isso e nem sequer teremos uma festa porque meu noivo não quis. Estou ficando louca neste vestido branco e apertado, não que eu esteja gorda e não que seja um vestido de noiva. É apenas um vestido branco e justo como um de verão que estou acostumada a usar.

Meu noivo está prestes a chegar e eu mal o conheço. Observo o relógio em meu pulso e sinto o pânico crescer. Ninguém sabe de nada, a não ser ele e eu e ele pagou caro por isso. Sei que é bonito, mas este não é o problema. Então entra.

Seus cabelos estão um pouco maiores que o normal, embora não estejam bagunçados e sua barba está começando a crescer. Seus olhos são azuis, mais vivos que o oceano e seu corpo meticulosamente esculpido sob seu Armani de milhares de dólares e de seu 1,87 m de altura. Levanto indecisa, pois não faço a menor ideia de como será daqui para frente, mas espero que ele não seja tão ruim como todos dizem, só que não tenho as ilusões de…


CENTO E DOZE DIAS DEPOIS — ANTHONY


Finalmente coloquei os lábios sob os dela, macios. Quando a tive não queria, nem podia mais soltá-la. Coloquei as mãos espalmadas em suas costas, puxando seu corpo, pressionando-o com força contra o meu. Em seguida, tirei uma das mãos de suas costas e enfiei nos cabelos de sua nuca tornando a pressão em seus lábios menor. Sua pele branca como um lençol de cetim se tornou vermelha e quente quando afastei seu rosto um centímetro.

O que foi? — ela parecia assustada e também me sentia receoso, meio alto por causa do uísque. Não devia acontecer daquele jeito, mas eu não conseguia tirar as mãos dela.

Eu to bêbado, eu quero, mas eu estou bêbado — não tirei as mãos dela e nem ela tirou as dela de minhas costas.

Eu também estou. Não tem problema — e voltou a me beijar

Vamos para o seu quarto — o dela era no andar de baixo e as escadas e os longos corredores pareciam distantes demais. Guiei-a, a passos cegos até meu quarto, ao lado.

Abri a porta, ainda beijando-a, feroz e faminto. Minha língua penetrava seus lábios macios até a sua, explorando-a, deixando meu corpo em chamas, assim como o dela, a ponto de explodir. Não acendi a luz, tudo que iluminava o quarto eram os abajures acesos ao lado da cama e ela estava a minha frente, dando passos cegos para trás. Laurel gemeu quando puxei seu vestido branco para baixo, ainda sem soltá-la, impaciente quando percebi que tinha dezenas de botões pequeninos até a parte baixa de suas costas e forcei o tecido para baixo até rasgar. Laurel ronronou suavemente quando meus dedos tocaram suas costas nuas e o vestido escorregou até seus pés.

Ela se livrou dele, só que eu ainda estava com muitas roupas. Beijei seu pescoço com cuidado, porém em um frenesi intenso de sensações. Eu já estava duro há muito tempo, desde que Laurel entrou na saleta e começou beber comigo, mas naquele momento, quando vi aquela mulher, a minha mulher, seminua, foi que fiquei totalmente. Foi quase doloroso; a sensação de que eu poderia explodir a qualquer momento. Ou implodir.

De repente, não conseguia mais esperar, puxei-a para cima de mim e segurei-a pela parte interna das coxas, fazendo-a cruzá-las em torno de mim e puxei-a mais para a cama, deitei Laurel nos lençóis brancos, onde sua pele pareceu ainda mais clara. Abri rapidamente os botões da minha camisa, jogando-a nos pés da cama enquanto ela abria minha calça e me livrei dela também, deitando sua cabeça no travesseiro.

Preciso… Preciso falar uma coisa — Laurel olhou fixamente para mim, aqueles olhos castanhos e escuros tentando desesperadamente dizer alguma coisa, mas ela continuou calada. Fiquei parado, pairando acima dela, esperando-a falar — Eu estou nervosa. Eu só… Tem tempo que eu não faço… Isso — ela gesticulou meio embaraçada — Você sabe, e…

O quê? — saí imediatamente de cima dela e sentei na borda da cama, repentinamente sóbrio. Laurel ficou sentada atrás de mim, dando-me tempo para respirar quando finalmente me dei conta que tudo que vestia era uma cueca boxe branca. Virei-me para ela depois de respirar por cinco segundos, profunda e sonoramente. Senti que a tinha interrompido, porém, fiquei surpreso demais.

Isso é um problema para você? — ela pareceu tímida e me senti um babaca por tê-la feito ficar daquele jeito.

Puta merda, por que não contou antes? Quando a gente casou, por exemplo — olhei-a nos olhos, tentando falar o mais gentil possível, mas aquilo me deixou fora de mim e o desejo que sentia me queimava por dentro.

A gente não tinha nada quando casou. Você mal me conhecia — ela sussurrou. Fizemos silêncio, estranho por estarmos quase nus, e pisquei algumas vezes, pensativo.

Você quer? — ela fez que sim, tímida; não havia resquícios daquela mulher confiante que eu conhecia. A luz baixa atingia seu rosto, iluminando-o de maneira suave, tornando-a mais bonita, não que eu pensasse que qualquer coisa pudesse torná-la mais bela. Toquei sua bochecha, gentilmente e sorri debilmente.

Claro que eu quero. Desde o dia… Quando nos conhecemos.

Enfiei os dedos em seus cabelos loiros e claros e beijei-a, mais calmo e mais sóbrio, voltando ao controle do que estava fazendo. Deitei novamente, meu corpo sobre o dela. Ela estava pronta e eu mais que isso. Fui mais apressado em terminar de tirar sua roupa, ansioso. Não mais ansioso do que Laurel. Ela puxou rápido o que restava de minha roupa.

Mais devagar, Laurel.

Não consigo — arquejei, segurando sua nuca e tirei seu sutiã cor de pele. Seus seios médios, redondos e perfeitos, sua pele branca e rosada. Beijei seus lábios, seu pescoço, seus seios; enfiei os dedos no cós de sua calcinha, tirando devagar. Ela estava muito molhada e eu parecia uma criancinha ansiosa com algo novo. Sabia que ela não conseguia suportar aquela espera, sentia tanto em suas palavras quanto em seu frenesi desesperado, enquanto me tocava e eu retribuía, calidamente.

Ela gemeu e apoiei a mão direita no colchão para tocá-la devagar, lento. Ela me puxou para si, mais apressada que eu, de algum modo; todo aquele tempo com ela e eu só tinha ficado mais louco em tê-la, embora não quisesse comê-la. Não como qualquer outra; queria amá-la. Estiquei o braço e peguei um preservativo, mal deu tempo e eu já estava dentro dela, num desejo profundo e doloroso. Relaxei buscando seus olhos, sua cabeça estava jogada para trás, seus cabelos espalhados pelo travesseiro, toda a doçura em seus olhos pouco antes de ela os fechar.

Havia em seu rosto, cheio de paixão e desejo, calma. Uma calma que refletia em mim. Estava queimando por dentro, mas me esforcei para ir com calma e não machucá-la. E consegui. Fui devagar e lento, buscando seu olhar. Encostei meus lábios nos dela bem lentamente e senti sua língua penetrá-los num ritmo suave até a minha. O amargo em seus lábios me lembrava do uísque que tínhamos tomado há pouco, mas que tinha sumido tão rápido quanto a tinha tomado, da minha mente e do meu sangue.

Tudo bem? — ela assentiu e quando pedi a Laurel que abrisse os olhos, ela o fez. Tão linda, abriu os lábios num gemido, gozando. Ela agarrou-me, enfiando as unhas azuis escuras na parte baixa de minhas costas, puxando-me para mais fundo dentro dela e deixei que um gemido escapasse de minha garganta.

Algo gutural e intenso; seu corpo tremulou contra o meu e beijei seu pescoço, penetrando-a mais rápido, com mais força. Ela tremeu quando seu corpo explodiu num orgasmo intenso e violento, assim como o meu.

Os braços de Laurel envolveram meus ombros e beijei sua testa, penetrando-a ainda mais algumas vezes antes de conseguir retomar ao controle de mim mesmo.


CENTO E TREZE DIAS DEPOIS — LAUREL


Eu não estava no anexo quando acordei. Longe disso, estava no andar de cima, no quarto de Tony. Na cama dele e envolta em seus lençóis. Eram seis da manhã e levantei depois de algum tempo deitada ao seu lado, observando-o de um jeito que jamais tivera a oportunidade, com cuidado para não acordá-lo e peguei do chão minha roupa, ou o que tinha sobrado dela. Meu vestido era apenas um trapo inútil. Pus de volta a lingerie e avaliei, rapidamente, minhas opções. Então, coloquei uma camisa social de Anthony apenas para descer as escadas e chegar até o anexo; a única pessoa que poderia me ver era Clarissa. Peguei o que sobrou do vestido, segurando com cuidado numa das mãos, para jogar fora, e a camisa de frio, fina demais, na saleta do lado do quarto de Tony onde tínhamos bebido na noite anterior. Fechei a porta do quarto dele, cuidadosamente e desci as escadas. Só quando cheguei à metade foi que percebi que não estávamos sozinhos.

Puta merda!

A camisa dele só ia até a metade da minha bunda e os botões de cima estavam abertos, permitindo que nosso convidado inesperado visse muito além do conveniente. Hesitei em meu trajeto curto do quarto do meu marido até o anexo da casa, onde eu estava temporariamente hospedada.

Wheaton, advogado do pai de Anthony, parou boquiaberto encarando-me, parada no meio da escada, seminua, com a cara amassada e uma completa bagunça nos cabelos jogados sobre o ombro esquerdo. Mordi o lábio, percebendo a coincidência da situação. A visita tinha sido perfeita, quase como se Wheaton tivesse adivinhado. Ele estava desconfiado da gente e me ver descer daquele jeito do quarto de Anthony, àquela hora da manhã, e, naquele dia em especial. Estava na cara que nosso casamento era mesmo de verdade, mesmo que isso tivesse que me custar ficar quase nua na frente do advogado de Anthony.

Srta. Aldaine — ele me chamou pelo nome de solteira, olhando para as minhas pernas, ao mesmo tempo em que tentava não olhar e demorou a se corrigir: — Digo… Senhora Cohen — foi quase engraçado.

Desculpe, não sabia que tínhamos convidados — disse asperamente. Tinha aprendido a usar aquele tom depois de algum tempo de convivência com Anthony. Além disso, Wheaton insistia em aparecer nos momentos menos apropriados e sem ser convidado, apenas para checar minha convivência com Anthony, e já estava me irritando.

Bem, a senhora bem sabe que apareço sem ser convidado apenas como um dos termos do testamento — maneei a cabeça e ele continuou parado. Clarissa estava atrás dele, observando a situação e tentando não rir, assim como eu.

Vou me vestir — disse como se não devesse aquela explicação a ele, mas esclareci, como se quisesse que soubesse que eu não costumava andar daquele jeito dentro de casa.

Fui para o anexo e fiquei um longo tempo deitada na cama. Coube, portanto a Clarissa a tarefa de acordar Anthony, uma tarefa sempre difícil, pois sempre ficava com um humor dos cães quando o acordavam. Mas naquele dia em especial ele não ficou; estava calmo, compassivo e feliz. Conversou na sala com Wheaton por breves minutos, conversa que pude escutar, na porta de entrada principal ao anexo, onde preguei os ouvidos.

Me perdoe por aparecer sem avisar — abri uma brecha imperceptível, de onde o advogado não podia ver que eu estava espiando, mas Tony sim, e sorriu, quase que orgulhoso — São os termos. Parece que o senhor e a sua esposa estão se dando bem.

O que quer dizer? — captei uma nuance imediata em seu tom e em sua expressão.

A senhora Cohen estava descendo as escadas pouco depois que cheguei. Não que eu tivesse alguma intenção em vê-la, mas não pude tampar os olhos para aquelas pernas — Anthony o fuzilou com um olhar raivoso.

Não acha que está abusando da sorte, Wheaton? Vem aqui à essa hora, me acorda e ainda faz comentários eróticos sobre o modo como minha mulher estava andando pela minha casa. Petulante, não? — Wheaton maneou a cabeça e Anthony o expulsou de maneira educada e só depois fui para o quarto.


Anthony nunca teria entrado sóbrio em meu quarto antes, muito menos faria uma coisa daquelas sem perguntar antes, mas ele o fez. Abriu a porta do banheiro quando eu estava na banheira, e por sorte estava cheia de espuma por conta dos óleos de banho que ele tinha deixado ali. Eles deixavam minha pele, com um cheio agradável e a água cheia de espuma.

Não sabia exatamente o que era, mas fiquei bem menos envergonhada do que se estivesse exposta. A porta era ao lado da banheira, de modo que ele chegou por trás e eu sorri, sem conseguir conter aquilo, e Anthony sentou num banco que ficava perto da pia, como de eu fosse uma criança e precisasse dele para alcançar o armário. Nunca entendi por que esteve ali, talvez esperando pelo dia que Anthony apareceria no anexo e sentaria nele, de frente para mim.

Ele puxou minha mão esquerda com cuidado e com um sorriso meigo encantador e discreto. Aqueles olhos de um azul oceânico e profundo, tão abissal quanto o próprio oceano, sorriam-me também. Seus lábios perfeitos e elegantes, dignos de um Deus olimpiano, curvaram-se no sorriso mais perfeito que eu tinha visto na vida e ele franziu o cenho delicadamente. Nunca o tinha visto tão feliz e não queria que acabasse. E pensando bem, nunca tinha visto a mim mesma feliz.

Queria levá-la para tomar café da manhã comigo, o que acha? — respirei fundo e comecei a temer. Não estaríamos indo além dos limites? Não que eu me importasse, mas ele me queimaria e já estava começando só do jeito que me olhava, então, mais sério, continuou: — Queria conversar umas coisas.

Tudo bem, eu vou me vestir — seu sorriso meio que se tornou mais largo, mas não podia ter certeza.

Vou tomar banho. Espero você na sala em vinte minutos — ele se inclinou e beijou minha testa antes de sair.


ANTHONY


Segurei a mão de Laurel quando saímos do carro e entreguei minhas chaves ao manobrista. Ela não parecia muito à vontade nem tão falante como na noite anterior, mas entrelacei meus dedos aos dela, não lhe dando chance de fuga, e caminhamos juntos pelo espaço aberto perto da praia. Passamos pela porta e minha mulher parecia maravilhada com aquela visão. Do lado direito, dezenas de mesas redondas de ferro, em um modelo antigo, preenchiam o gigantesco espaço.

Dezenas de pessoas que moravam por ali tomavam seus cafés e conversavam, animados, e de maneira relaxada. As paredes tinham uma cor creme bem clara, o que dava uma leveza inabitual àquele lugar e o cheiro de rosas sempre frescas preenchiam o ambiente. Do lado esquerdo mais para o canto ficavam os balcões que se estendiam até a porta de vidro com cortinas brancas se agitavam com a brisa matutina que soprava no dia nublado, mas que rapidamente começou despontar alguns raios de sol fracos.

Laurel usava um vestido parecido com o da noite passada, porém de cor pêssego, que ressaltava ainda mais aquele tom pálido de sua pele. Seus cabelos loiros, bastante claros, caíam pelas costas, jogados sobre um dos ombros.

Segurei sua mão mais firme e atravessamos o salão até o lado de fora. Era consideravelmente menor em tamanho, mas o melhor lugar para se tomar um bom café com croissants frescos. No terraço agrupavam-se mesas iguais as do lado de dentro, mas em número menor e o garçom que sempre me atendia nos cumprimentou.

Senhor Cohen — ele acenou, gentilmente e, em seguida beijou a mão de Laurel.

Senti-me entorpecido por um ciúme que nunca tinha sentido antes com relação a nada ou a ninguém, mas tratei de colocar na cabeça que ele estava apenas sendo gentil, embora muita gente estivesse olhando para ela. Linda e sem milhares de dólares em maquiagem no rosto; vestida de maneira tão casual e simples que não dava vontade de olhar os lados nem para fazer o pedido.

Ben nos conduziu até minha mesa, a última no canto com uma linda vista para a praia. Naquela manhã, em especial, estava repleta de banhistas, mas não tanto quanto no verão. Puxei a cadeira para Laurel e me sentei a sua frente na mesa redonda do lado da beirada com grades de proteção. Laurel pousou as mãos em seu colo e sorri ao perceber seu nervosismo.

Relaxa, eu não mordo — Ben trouxe meu café, como sempre sem nem precisar pedir. Ele já estava acostumado e sabia exatamente o que eu pedia.

Eu tenho alguma experiência que me diz para não relaxar demais com você.

Olha, eu sei que fui meio arrogante, babaca e… Egoísta no começo e até agora, de certa maneira. E fiz coisas desprezíveis, mas estou tentando mudar e você é o principal motivo — comecei e não consegui mais parar de dizer as coisas que estavam entaladas na minha garganta — Eu sei também que não a tratei como deveria, como você merecia. E em algumas destas ocasiões eu estava bêbado, não que isso seja justificativa, mas quero me desculpar. Posso me desculpar de joelhos, se você quiser.

Não, não precisa — sua cabeça estava levemente baixa.

Olhe para mim. Jesus! Olhe para mim enquanto falo com você — ela levantou o rosto, seus olhos assustados.

Deus, ela se parecia mesmo uma criança assustada, principalmente quando eu falava diretamente com ela. Queria tirar dela aquela reação de se encolher e afastar quando estava comigo, quis dizer a ela que jamais a trataria daquela maneira novamente, mas não disse.

Tomei um gole do café antes que esfriasse e Laurel tomou o dela observando a praia. Ela esteve sempre sozinha em casa, na maioria das vezes trabalhando no anexo ou fazendo alguma decoração que inundasse a casa com aquela placidez e luz que ela possuía; era muito sozinha. Acabei perdendo-me por um momento observando-a, sentada diante de mim um anjo; seus cabelos balançando com suavidade pela brisa fria, assim como seu vestido de tecido fino e forro branco colado ao seu corpo. Tive vontade de tirá-lo e imaginei a sensação dos meus dedos tocando sua pele macia mais uma vez. Havia uma tensão entre nós por conta da noite anterior e perguntei-me se ela só me permitiu beijá-la porque estava bêbada e o pensamento me corroeu. Queria perguntar aquilo a ela, mas não tive coragem, sentindo-me como uma criança boba; tolo e infantil.

Queria falar sobre a noite passada, cada detalhe, sobre como ela fez com que eu me sentisse de uma maneira como nunca tinha me sentido antes. Como eu a tinha amado de um jeito como jamais amaria outra mulher e como ainda a amava agora, entretanto, as palavras me fugiam a todo instante e apenas tomamos o café em silêncio por minutos longos; ela olhando para a praia com o olhar melancólico, nostálgico e eu fitando-a. Não apenas seu corpo, mas tudo que ela era. E tudo o que representava para mim naquele pouco tempo em que pude conhecê-la.

Laurel — ela demorou dois segundos para se virar e pousou a xícara na mesa.

Pois não?

Podemos conversar sobre ontem?

Sim.

Você estava bêbada ontem à noite? — ela levantou a cabeça de repente, quase como se a ideia jamais pudesse lhe ocorrer.

O quê? Claro que não! — ele mexeu nos dedos — Eu tinha bebido um pouco…

Olhe para mim, Laurel — ela levantou a cabeça e fixou os olhos nos meus, de maneira intima, mas também incisiva. Esperava que ela sentisse o mesmo, mas não tinha certeza até aquele momento — Você estava bêbada quando eu a beijei? — perguntei com mais convicção.

Não, não estava — ela empunhou na voz a mesma convicção que eu e finalmente respirei. Se ela não estava bêbada devia ter algum outro motivo.

Quando nos conhecemos?

Essa pergunta não faz sentido.

Responda-a. Quando nos vimos pela primeira vez? E sei que não foi na empresa.

Foi aqui, nessa praia, só que mais para lá — ela pareceu relutante ao falar sobre aquilo, mas esperei calmamente que continuasse. Ela apontou para duas casas bem distantes. Tudo que pude distinguir foram seus contornos — Você tinha uns dezoito anos, pelas minhas contas.

Eu não me lembro disso. O que aconteceu?

Ela sorriu com desgosto; parecia triste.

Não aconteceu nada. Passamos uma noite de verão juntos… Ou melhor, algumas horas. Quero dizer, não juntos como você deve passar com todas as outras mulheres com quem se relaciona, afinal, eu só tinha doze anos, mas nos tornamos amigos, embora tenha durado muito pouco … Você me mostrou seu projeto e eu me apaixonei por tudo que me apresentou, mas, no fim, minha paixão por você era somente aquele mundo que eu não conhecia — sua voz se tornou fraca e emotiva, tive a fraca impressão que se sustentasse seu olhar por tempo o suficiente ela começaria a chorar — E eu passei os últimos dez anos vivendo assombrada por uma lembrança e tudo que ela representava para mim.

Espere — a confusão estava se desfazendo, o suficiente para que eu começasse a ligar os pontos.

Era isso. Laurel era aquele anjo que todo mundo ficou falando que não existia; que meus pais falaram que era uma alucinação. Que não tinha nenhuma menininha loira com a pele brilhante na praia à noite. E embora tenha parecido bem real para mim, tentei me forçar a esquecê-la, mas não pude. Ainda tinha pesadelos e lembranças descontínuas sobre aquela noite muitas vezes. Mas nunca consegui me lembrar completamente do que aconteceu quando a conheci.

Meus pais… — balbuciei olhando para a mesa, sem conseguir olhar em seus olhos naquele momento, enquanto pronunciava aquelas palavras lentamente — Eles me disseram que você não existia; que eu estava vendo coisas que não existiam porque estava chapado demais…

Chapado?! — ela repetiu a palavra, como se ela não existisse, tentando atribuir-lhe um significado.

Eu tinha cheirado cocaína todos os dias na primeira semana de férias. Precisava terminar um projeto para a faculdade e fui para a praia, fiquei na varanda de uma casa abandonada. Acendi um e fiquei com o notebook, terminei o baseado e pensei em dar um mergulho. Você foi a coisa mais bonita que já tinha visto naquele verão inteiro e não vi nada mais belo desde então. Não foi desejo o que senti, mas foi… Uma adoração. Você era uma criança, não vá pensando que eu sou um pedófilo… Mas eu te amei de uma maneira profunda naquele momento. Não sei se entenderia — balancei a cabeça. Levei-a até aquele café em busca de uma resposta aos meus sentimentos perturbados por ela, mas as que ela me deu foram muito maiores do que eu poderia imaginar.

Laurel ficou quieta, absorvendo aquelas palavras e o que estava acontecendo. Ela piscou algumas vezes, para afastar as lágrimas de seus olhos e olhou para a praia; as lágrimas inundando seus olhos, embargando sua voz e fazendo-a hesitar.

Eu saí da água quando estava escurecendo e meus pais não estavam na casa, eles tinham ido jantar, mas pedi para ficar. Vi você… Sentado na varanda de uma casa velha e depois veio até mim, não sei se você se lembra — ela fez uma pausa, esperando que eu confirmasse. Não me lembrava de nada depois de deixar o notebook na varanda da casa velha — Mas eu estava sentada na areia e minha primeira reação foi medo, quando se sentou ao meu lado e se apresentou. Você era um estranho e veio conversar comigo, sem mais nem menos, mas então, as coisas foram acontecendo.

“Você começou a falar sobre a faculdade e seu projeto. Quando eu vi já estava me ensinando sobre criação de softwares. Eu me apaixonei por você naquele momento… Mas então, no dia seguinte você tinha desaparecido. Eu não sabia o que pensar então fiquei no quarto até acabar o verão. Formei-me na faculdade com honras, trabalhando desde sempre. Não sabe como fiquei quando consegui um emprego na sua empresa. Mas você não é quem eu pensei que era. É arrogante, egoísta, e um canalha presunçoso. Na verdade… Você não é nada do que pensei que fosse.

Eu sei. Desculpe-me. Pelo modo como te tratei. Eu sei que não aceitaria o dinheiro, e eu a invejo pelo seu altruísmo. Mesmo sabendo como eu era, aceitou para ajudar a mim e a sua irmã. Eu não seria capaz de uma coisa dessas, mas, Laurel, na noite passada, eu senti. Uma conexão entre nós e sempre esteve aqui, mas eu fui um canalha para não ver. Posso passar a vida inteira me desculpando, sei que você merece minhas desculpas.


LAUREL


Queria mandá-lo calar a boca. Quem ele pensava que era para me dizer todas aquelas coisas depois de tanto tempo? Não estive iludida sobre a noite passada e nem o deixaria me enganar com aquele papinho arrependido, que tinha mudado. Eu o amava, mas não era idiota. Se estava chapado no dia em que nos conhecemos, azar o dele. Foi isso que estava pensando no começo, mas ele foi me amolecendo aos poucos com aquele olhar e quando dei por mim, estava sentada ao seu lado, com o rosto em seu ombro. Não queria ficar chorando na frente dele, muito menos na frente de todas aquelas pessoas, mas uma lágrima escorreu pelo meu rosto e pousou em seu peito, molhando sua camisa.

Eu devo passar o resto da minha vida tentando me redimir com você por todas as vezes que fui grosseiro. E espero que me dê esse tempo. Posso ser carinhoso quando quero e você precisa ver esse lado meu antes que decida ir embora.

Você ainda tem sessenta e sete dias — murmurei contra sua camisa. Ele pareceu ter ficado gelado de uma hora para outra.

Você está contando? — Tony suspirou — Claro que está… — levantei a cabeça, seu braço ainda envolvia meus ombros, mantendo-me perto.

Pensei que tivéssemos concordado que você foi um canalha todo esse tempo — ele sorriu e me puxou de volta para seu ombro, beijando minha testa. Ele era mesmo carinhoso quando queria, ao menos por ora.

Certo, eu fui. Ainda sou um pouco, mas vou tentar — ele riu e terminamos nosso café.


Você sente atração por outras mulheres? — virei devagar quando Tony perguntou aquilo. Mordi o lábio, puxando-o de um lado para outro sob os dentes e dei uma garfada no bolo de chocolate quente com cobertura gelada. Uma delicia que Anthony tinha insistido que eu não poderia morrer antes de provar, embora eu tenha dito que não pretendia morrer de imediato.

Já beijei uma mulher na época do… Por que ta perguntando isso? — meus olhos se voltaram para ele, que ergueu os ombros e tomou um gole de sua terceira xícara de café naquela manhã.

Você praticamente não tirou os olhos daquela loira sentada a duas mesas desde que chegamos aqui.

Achou ela atraente? — larguei o garfo para encará-lo e Ton ergueu os ombros, outra vez, bem sutil.

É bonita. Você não respondeu minha pergunta.

Ela vai vir aqui quando terminar de dispensar aquele cara — ele pegou o garfo e enfiou no meu bolo, levando até a minha boca, que mantive fechada.

Abre a boca, quero te dar de comer.

Eu não sou um passarinho — tentei pegar o garfo. O terraço estava cada vez mais vazio, mas mesmo assim…

Abra a boca — ele falou mais dócil e com os lábios mais perto dos meus; seus dedos em minha cintura e sua outra mão ainda com o garfo, tentando me convencer. Eu estava de costas para as outras mesas e ele de frente. Fechei os olhos devagar e abri a boca, deixando-o me alimentar.

A comida pareceu ainda mais deliciosa quando Anthony a pôs em minha boca. Ele tirou o garfo com cuidado e demorei um tempo com os olhos fechados, absorvendo a sensação daquele quente gelado e do toque de seus dedos na minha cintura. Abri os olhos devagar para ver o quão próximo ele estava. Quando tomei coragem e segurei seu rosto para beijá-lo, a garota loira apareceu atrás de mim e fui obrigada a largá-lo.

Laurel — levantei para abraçá-la. Já tinha uns meses que não nos víamos.

Oi, querida. Você está bem?

Estou bem — ela me soltou relutante — Não vai me apresentar seu amigo?

Essa é a Taylor. Taylor, esse é o Anthony, meu… Marido.

Marido? — minha irmã arqueou a sobrancelha — Pensei que fosse um fazendeiro milionário de oitenta anos.

Tony riu e a cumprimentou rápido.

Não quer se juntar a nós? — ele gesticulou em direção à cadeira vazia a frente. Tinha rezado para ele não fazer aquela pergunta, não que eu não quisesse minha irmã por perto, mas queria terminar o que íamos começar se ela não tivesse aparecido.

Claro, mas não tenho muito tempo — Taylor sentou com a gente e o garçom levou um café — Estou com saudade, você não foi mais em casa e eu não tenho seu endereço. Te liguei um milhão de vezes ontem a noite e hoje de manhã.

Como explicar para ela que deixei meu celular numa parte, a minha parte, da casa e estava na parte de Tony? Meu celular esteve no anexo e nem verifiquei nada. Pretendia trabalhar no meu projeto o dia inteiro, aí olharia as chamadas.

Tenho estado ocupada — Taylor sabia do contrato, assim como minha mãe, e também sabia que era mais do que sigiloso. Ela sabia também que ele era o dono da empresa que eu trabalhava e que foi lá que o conheci.

Aposto que ele tem te enchido de trabalho — ela sorriu e revirei os olhos. Tony também sorriu com suavidade.

A gente tava de saída, Tay.

Não, espera. Quero conversar com você mais tarde. Se dê uma folga, hoje é sábado. Te ligo mais tarde — ela se levantou e se despediu, saindo pelas escadas que conduziam a praia e sumindo por detrás dela. Fiquei preocupada, mas Taylor era madura e sabia o que fazia, apesar de tudo.

Podemos caminhar um pouco? — perguntei tirando as sandálias.

Claro — ele chamou o garçom, pagou a conta e tirou os sapatos italianos caros. Descemos pelas escadas e passamos um tempo andando pela praia; Anthony fez questão de entrelaçar os dedos aos meus e não soltar de jeito nenhum, mesmo que não me sentisse tão confortável.

Tenho algumas perguntas a fazer sobre o dia em que nos conhecemos, se estiver tudo bem por você.

Não se lembra mesmo de nada? — ele balançou a cabeça.

Eu gostaria mesmo de lembrar, mas não.


QUARENTA E DOIS DIAS DEPOIS — ANTHONY


A senhorita Aldaine entrou na minha sala com um vestido de verão que parecia se movimentar em torno dela enquanto caminhava em seus saltos altos cor de pele; não da dela que ela um branco pálido e impecável. Ela sempre me deixaria boquiaberto todas as vezes que a observasse. Uma ereção começou surgir debaixo da calça cinza. Remexi na cadeira giratória, atrás da mesa e ela fechou a porta com cuidado, caminhando até mim, nas mãos o notebook cinza claro com adesivos infantis. Minha primeira impressão sobre a senhorita Aldaine foi que ela era a primeira mulher com adesivos de ursinhos felpudos no computador que me deixava duro apenas com sua presença.

Respirei devagar, tentando voltar ao normal logo.

Bom dia, Sr. Cohen — ela se sentou, colocou o notebook em cima da mesa e o abriu para terminarmos nosso projeto. Na verdade, o dela. O que eu precisava fazer era dar uma última revisada antes de comprar para a empresa, o que me daria algumas horas ao lado daquela mulher.

Bom dia, Srta. Aldaine — eu tinha que levantar e sentar na cadeira do lado dela, mas se eu levantasse, ela veria minha ereção bem disfarçada pela mesa que nos separava. Seria, no mínimo, embaraçoso. Fiquei parado, olhando-a enquanto digitava alguma coisa.

Bati os dedos sob minha mesa, distraindo-me quando ela começou a falar e acabei não entendendo merda nenhuma.

… Com isso, temos as mesmas funções, aprimoradas, e mais facilidade para os leigos em programação, assim como as funções especificas para… — ela levantou os olhos e mordeu o lábio, aplicando certa força e deslizando os dentes brancos e certinhos pelo lábio inferior; ela fechou o notebook, colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha — Está conseguindo me acompanhar, senhor Cohen? Sinto que estou em uma reunião comigo mesma.

Desculpe — ajeitei-me na cadeira e tirei os óculos de leitura, esfregando os olhos — Não me sinto muito… Concentrado esta manhã — olhei rapidamente seu decote. Seus seios esculpidos perfeitamente sob o tecido.

Acho melhor voltar outra hora — ela pegou o notebook com adesivos de ursinhos e me deu às costas.

Espere — ela se virou, já na porta.

Pois não?

Eu… Você pode… Me mandar por e-mail, por favor? E desculpe pela falta de atenção no que deveria ter sido a reunião final — ela balançou a cabeça antes de ir, aliviando o volume em minha calça.

No fim do dia, decidi que não poderia trabalhar com ela, e deleguei a função a outro. Laurel entrou na minha sala no fim da tarde, possessa, com um envelope na mão.

Senhor Cohen, quem deu ao senhor o direito de usar meu projeto?

Projeto da empresa — disse sem levantar os olhos. Meu pau já estava duro enquanto ela me fuzilava com o olhar, mas não ficou muito a ponto de dar pra perceber. Tirei os óculos e joguei em cima da mesa, levantando para encará-la, curioso sobre o que seria aquele envelope.

Eu não vendi os direitos para a empresa. Espero que o senhor — ela cuspiu com escárnio aquela palavra — saiba que meus projetos pessoais, desenvolvidos sem vinculo ou com o dinheiro dessa sua empresa de merda, tem minha criptografia desde que os iniciei. Isso que o senhor fez é roubo, senhor Cohen — ela devia me odiar mesmo, só pelo jeito como ficou vermelha. Certo, foi um erro pegar o projeto de Laurel.

Estava de cabeça quente e não pensei direito sobre como eram importantes para ela, além disso, ela estava certa. Os projetos eram dela e eu não poderia ter usado sem falar antes. Teria que pedir desculpas. Ela estava muito vermelha, a ponto de explodir.

Sente-se, Laurel.

Eu não quero me sentar — ela explodiu — Quero que pare de achar que é o centro do mundo. Desde que entrei nessa empresa você acha que pode me tratar do jeito que quer e passar por cima da minha autoridade. Pois saiba que você não é o centro do universo, Sr. Cohen — ela respirou fundo — Minha carta de demissão.

Ela jogou o envelope em meu peito e me deu às costas, abrindo violentamente a porta e nem se dando ao trabalho de fechar. Fiquei aturdido por dois segundos, antes de apertar o envelope entre os dedos e ir atrás dela. Laurel já estava no meio do corredor; os funcionários estavam todos olhando, alternando olhares entre nós.

Andei rápido atrás dela, tentando evitar aquela atenção desnecessária por parte dos meus empregados; apertando o envelope com raiva. Laurel entrou na sala dela, pegou o notebook e enfiou na bolsa junto com papéis, enfurecida.

Senhorita Aldaine, para minha sala. Agora! — estava fervendo de raiva quando apertei a maçaneta de sua porta. Laurel está fazendo com que eu me humilhe por causa dela, mas ela vai me pagar por isso.

Todo mundo estava pronto para ir antes de começarmos a ceninha de casal. Ela não podia ter simplesmente pedido o projeto de volta?

Respirei, tentando me controlar. Ela me ignorou e impedi-a de passar.

Me deixe passar, Sr. Cohen.

Para a minha sala, Srta. Aldaine — estava a ponto de perder a cabeça.

Ela respirou devagar, apertando a alça de sua bolsa tanto quanto eu apertava o papel em minha mão direita. Acalmei-me quando seus olhos encontraram os meus.

A calma dela refletia em mim, não que eu quisesse permitir seu domínio sobre mim, mas aquela era uma das coisas que eu não podia controlar ou impedir.

Não sou sua empregada, então não venha gritar comigo — ela não estava gritando, mas seu tom era firme e convicto, me fazendo obedecer sem hesitar.

Você não pode se demitir assim.

Claro que posso — ela passou por debaixo do meu braço, que impedia sua passagem e seguiu em direção aos elevadores.

Não me dê às costas enquanto falo com você — Laurel apertou o botão do elevador repetidas vezes, com raiva. A mesma raiva que subia em meu peito, sufocando meus sentidos e fervendo meu sangue.

Puxei-a pelo cotovelo com raiva, possesso, com certa violência até, mas soltei-a quando percebi que meus dedos deixariam marcas em sua pele branca. Um déjà vu passou pelos meus olhos num lampejo. Mas, não. Eu me recusava a associar Laurel ao meu anjo, era apenas uma fantasia distante; uma iluminação. Anjos não existiam de verdade, surgiam apenas da necessidade de acreditar em algo e foi assim comigo naquela noite tão distante.

A voz doce de Laurel me tirou se meus devaneios, mas Deus, quando me fez olhar em seus olhos parecia-se muito com um anjo.

Não toque em mim, eu não sou uma das suas putas, Anthony — ela finalmente falou meu nome e respirou fundo antes de continuar: — Não há nada que o senhor possa fazer quanto a minha demissão. Eu lamento, porque passei as últimas semanas desenvolvendo um software bom o bastante para agradá-lo — as portas do elevador se abriram — Mas lamento se o desapontei na nossa reunião mais cedo. Lamento porque me dediquei muito a isso. Adeus, senhor Cohen.

Ela entrou no elevador vazio e num impulso, lancei meu corpo naquela caixa metálica. Laurel se assustou e seus olhos escuros e brilhantes se arregalaram um pouco. Apertei o botão da garagem e as portas se fecharam, mas quando o elevador iniciou sua descida, apertei outro, fazendo-o parar.

Você falou e agora vai me escutar. Desculpe-me pelo modo como a tratei nas reuniões ou se questionei sua autoridade, mas você questionou a minha na frente dos meus empregados e quero garantir que não volte a acontecer, está me entendendo, senhorita Aldaine? Não é por que é a minha esposa que deixarei que isso interfira no trabalho. Se quiser se demitir não vou obrigá-la a ficar ou a cumprir aviso prévio, mas lamentarei, porque não achei que você fosse do tipo que desiste fácil e é a melhor pessoa com quem já tive a honra de trabalhar. Sobre seu projeto, eu não o roubei da senhorita, simplesmente pedi a outra pessoa que o revisasse ao invés de mim, porque sou incapaz de trabalhar com você. Se decidir deixar a empresa, ele é seu, com todo o seu direito — eu estava muito perto dela; eu a assustei e soube disso imediatamente. Laurel não se moveu, vermelha de um jeito que me fez querer agarrá-la.

Para o inferno com aqueles olhos tristes e enormes que me faziam relaxar por dentro muito mais do que qualquer outra coisa, e nem parecia ser sua intenção.

Por… Por que está dizendo que não pode trabalhar comigo?

Esqueça que eu disse isso, seria conduta profissional inadequada.

O quê? Somos casados, senhor Cohen.

Está vendo? Somos casados e está me chamando de senhor.

Ela se encolheu e me afastei, respirando fundo. Não ia falar aquelas coisa na frente de Laurel, ainda mais por que nunca tínhamos nem transado. Respirei com calma e voltei-me outra vez para ela.

Sinto uma coisa chamada tesão pela senhorita, não sei se me entende — ela ficou surpreendentemente vermelha. Muito mais do que já estava.

Por que fica me chamando de senhorita? — ela gaguejou e balançou a cabeça, perturbada e ainda trêmula — Não podemos trabalhar juntos, isso já ficou claro. Você pode, por favor, fazer sua mágica com os botões e me deixar sair desse elevador. Estou começando a ficar claustrofóbica.

E ela não estava mentindo; estava tremendo muito além do que podia esconder e bem vermelha. Ficava mais aparente por conta do branco pálido de sua pele.

Desculpe — apertei o botão e começamos e o elevador iniciou sua descida gradual — Só queria certa privacidade para conversar — passei a mão esquerda pelos cabelos, afastando-me mais até a parede oposta a que ela se apoiava.

Mais de vinte andares abaixo e as portas se abriram na garagem.

Venha, eu vou te levar para casa.


SESSENTA E SETE DIAS DEPOIS — LAUREL


Clarissa foi até o quarto dela, no andar de cima, quando Anthony chegou em casa bêbado e bebeu ainda mais na saleta anexa ao seu quarto. Aquela casa maldita parecia cheia de anexos e salas, assim como a vida de Anthony; uma série de portas trancadas a sete chaves. Levantei, fechando o notebook; não ia conseguir trabalhar, de qualquer maneira, então respirei fundo. Usava camisola que ia só até a metade das minhas coxas, de cor creme e alcinhas. Nem coloquei um robe por cima, éramos apenas Anthony, Clarissa e eu na casa, apenas subi as escadas, apoiando-me no corrimão, hesitando, sem calcular nenhum dos movimentos. A porta do quarto de Anthony estava aberta, mas ele estava na saleta, quase caindo, enquanto Clarissa tentava convencê-lo a ir para a cama.

Aí está ela! — ele disse alto e Clarissa se virou para mim quando parei à porta. Tudo que tinha por ali era um sofá ostensivo, uma gigantesca mesa de bebidas, algumas pinturas na parede, um aparelho de som moderno, uma lareira e um lavabo.

Senhor Cohen…

Pare com isso, meu doce — ele falou num tom meloso que me permitiu um vislumbre de alguém do passado; alguém a quem Anthony não era, nem de longe, associável e um arrepio esquisito atravessou meu corpo.

Apoiei a mão no batente das portas duplas. As cortinas se agitavam de maneira suave atrás dele; Clarissa passou o braço pelo seu tronco e fiquei parada, sem saber o que fazer; qual devia ser minha reação? Amaldiçoei-me por não ter ficado no anexo e deixado Clarissa lidar com aquilo. No dia seguinte, Anthony ia acordar com uma grande ressaca e agradecer a Clarissa por ter cuidado dele.

Suspirei. Fiquei com pena dele. Pena mesmo. Tony nem conseguia se equilibrar direito. Ele caiu no sofá e Clarissa suspirou, cansada.

Pode ir. Deixe-o comigo — disse, finalmente.

Certeza? — um junco se formou entre suas sobrancelhas, então assenti e ela saiu.

Anthony ficou sentado no sofá, meio caído, e esticou os dedos para pegar uma garrafa de uísque na mesa de centro. Caminhei até ele. Não sabia o que fazer. Deveria tirar a roupa dele e enfiá-lo debaixo do chuveiro? Ou deveria encher a banheira?

Ainda sem conseguir decidir, a primeira coisa que me ocorreu, e a que pareceu mais plausível, foi não deixá-lo beber mais. Seus olhos azuis me acompanharam enquanto percorria a sala; tirei a garrafa de seu alcance e coloquei no centro da mesa.

Vamos para a cama, senhor Cohen.

Para de me chamar de Cohen, porra — ele fechou os olhos e jogou a cabeça para trás.

Coloquei a mão em seu ombro e ele agarrou meu pulso. Arregalei os olhos; não fazia ideia do que ele iria fazer; Anthony fitou-me por um longo momento, depois me puxou e caí sentada no sofá entre suas pernas com as costas pressionadas contra seu peito rígido. Arfei e virei a cabeça. Sua mão ainda estava em meu pulso, mas minhas duas mãos estavam em seu colo, minha respiração irregular com sua boca entreaberta tão perto da minha.

Pare de me chamar de senhor Cohen, Laurel. Você sabe meu nome. Quero escutar meu nome sair dessa boquinha linda antes de te levar pra cama — ele segurou meus braços contra seu corpo mais apertado e mais próximo, aproximando também seus lábios dos meus; mais um pouco e estaríamos nos agarrando ali.

Respirei com dificuldade e reuni todas minhas forças para me afastar milimetricamente.

Me solta… — murmurei. Ele tirou uma das mãos da minha e segurou meu queixo, em seguida o maxilar, gentilmente como se toca uma criança.

Você se parece com um anjo, Laurel, um anjo que vai me levar para a cama — ele me soltou e eu levantei, conseguindo finalmente fazer com que ele fosse para o quarto. Anthony fechou a porta, quase perdendo o equilíbrio e se apoiou na mesinha de bebidas de seu quarto — Você se parece com um anjo que eu conheci.

Ele ergueu os dedos longos e elegantes, agora trêmulos pelo abuso com a bebida, depois riu e praguejou. Ergui as mãos, meio irritada com a cena toda.

Deixa que eu tiro para você — ele jogou a cabeça para trás, encostando-a na parede como se eu estivesse fazendo algo extremamente prazeroso ao abrir os botões de seu suéter verde escuro.

Ele ergueu o braço e tocou minha bochecha, sorrindo docemente.

Você se parece com o anjo. Mas você não é um anjo, é a Laurel. Minha mulher Laurel. Eu nunca levei um anjo para a cama — seu tom foi diminuindo gradativamente — Eu nunca fiz amor com um anjo…

Mas é só de mentirinha, lembra?! — deslizei as mãos pelos seus ombros e tirei o suéter, jogando no sofá; depois eu acharia um cesto para jogar aquilo, naquele momento tudo que eu queria era terminar logo com aquilo e poder dar o fora do quarto dele.

Ah, você é tão certinha. Tem que… Deixar acontecer — ele tirou a mão e colocou na base das minhas costas, descendo até minha bunda através do tecido fino da camisola.

Senhor Cohen — dei um tapa em sua mão, mas não foi aquilo que o enfureceu.

Para de me chamar assim. Eu tenho um nome, Laurel — ele cantou meu nome num tom bêbado.

Anthony, eu vou tirar a sua roupa e colocar você para dormir, mas eu não sou a sua mulher, está bem?

É, sim — ignorei-o e abri os botões de sua camisa, que revelou seu peito bem definido. Ele parecia mais magro com elas e me perguntei como escondia tudo aquilo. Balancei a cabeça, tentando parar de pensar naquelas coisas. Tentei inutilmente dizer a mim mesma que ele não importava mais.

Tirei sua camisa e passei o braço em torno dele, levando-o até o enorme e luxuoso banheiro. Decidi que seria melhor colocá-lo embaixo do chuveiro e mudar a temperatura da água para fria; e foi o que fiz depois de enfiá-lo no grande boxe. Ajudei-o a tirar a calça e procurei algo que controlasse a temperatura, ajustando para o mais frio. Parecia um balde de gelo e dei um sorriso. Bem feito para ele.

Puxei-o e abri a água, afastando-me e ficando perto da porta do boxe para não me molhar. A água caiu pelos seus cabelos e pelo seu corpo lindamente esculpido. Ele parecia uma visão do paraíso com aquele corpo lindo e musculoso. Deixei escapar um suspiro, com a mão espalmada na parede, observando calmamente aquelas cenas que se passavam a minha frente. Ele enfiou os dedos nos cabelos molhados e saiu de debaixo do chuveiro, fechando os olhos com força por um segundo. Aquele azul de tirar o fôlego fitava-me de maneira profunda. Deslizei os dentes pelo lábio inferior até doer, fitando-o; e ele me encarava de volta de maneira intensa.

Anthony caminhou até mim, todo molhado, e me encolhi quase imperceptivelmente entre a parede e o vidro.

Pensei que fosse tomar banho comigo, Laurel — antes que eu pudesse impedir, ele me agarrou pela cintura. Bati as mãos fechadas contra seus ombros quando me tirou do chão.

Me solta! — esmurrei seus ombros, mas a água me fez calar a boca quando Tony me enfiou debaixo do chuveiro, na água incrivelmente fria. Tentei me soltar e me debater sob seu peso e a pressão de seus dedos em minhas costas e do resto de seu corpo pressionado contra o meu, mas era impossível — Me solta, Anthony.

Aprendeu meu nome? — ele riu, completamente bêbado. Sua voz estava parcialmente embargada e a água caía em seu rosto. Consegui afastar o rosto, mas a água ainda caía em mim, gelada. Anthony ergueu a mão e conseguiu fechar a água depois de várias tentativas — Hora de dormir, Laurel.

Bati em seu peito mais uma vez e ele finalmente me soltou. Eu estava ensopada e Anthony cambaleou até o vidro do boxe e encostou a testa lá, desequilibrando-se mais uma vez.

Vem, eu vou te ajudar chegar até sua cama — passei o braço em torno dele e puxei uma toalha. Saímos e mandei-o sentar na borda da banheira. Sua cueca era branca, assim como sua pele quando ele ficava muito tempo sem tomar sol, e ele estava de pau duro. Desviei o olhar assim que vi.

Anthony estava com o olhar fixo em mim, mas era como se olhasse para o nada ou não me visse a sua frente. Respirei fundo e sequei seu cabelo; não consegui ficar brava com ele, mesmo depois de ele ter me molhado. Minha camisola, assim como o cabelo, estava grudando no meu corpo; expirei com força e ele levantou a cabeça de repente, como se tivesse se dado conta de alguma coisa de uma hora para outra.

Laurel, eu te molhei.

Está tudo bem — eu estava tremendo de frio enquanto o secava com cuidado, descendo dos cabelos até os ombros vermelhos por conta dos tapas que tinha dado nele.

Não — ele agarrou meu pulso, com cuidado, enquanto eu tremia — Eu te molhei — ele levantou e puxou outra toalha — Me deixe secá-la ou vai pegar uma pneumonia.

Eu posso fazer isso — peguei a toalha de suas mãos e Anthony apoiou-se em meu ombro.

Levei-o para o quarto e ele me mostrou onde tinha roupas. Seu closet era enorme, cheio de porta e gavetas. Tudo caro e arrumado. Achei uma camisa branca de algodão e mangas, depois uma calça de dormir, das que ele costumava usar e uma cueca boxe branca. À procura da cueca achei umas coisas curiosas, que me intrigaram, mas fechei a gaveta e as ignorei. Mordi o lábio e voltei para o quarto, fechando a porta do closet com cuidado. Anthony estava deitado na lateral da cama com as pernas penduradas para fora; deixei um suspiro escapar pelos lábios quando o vi ali, só de cueca.

Você vai deitar comigo, Laurel? — seus olhos estavam fechados e os braços ao lado do corpo.

Venha, Anthony — peguei a camisa e o fiz sentar, enfiando pela sua cabeça. Ele levantou os braços como uma criança obediente.

Agora vire-se, eu vou tirar a cueca — fiz o que ele disse e fiquei de costas, mas não sem dar uma espiada nele e em sua bunda de tirar o fôlego, finalmente soltando o suspiro que estava prendendo. Mas, de qualquer modo, aquele vislumbre bobo nem de longe satisfez minha curiosidade.


ANTHONY


Queria dizer a Laurel para sair dali porque eu estava bêbado e não queria fazer com ela coisas das quais me arrependeria no dia seguinte. Mas não conseguia. Era doce o modo como ela estava cuidando de mim e patético como eu estava sendo um babaca. Respirei fundo. Ela estava olhando quando tirei a cueca e ficou olhando até ter certeza de que eu me viraria, então se voltou para o quadro de Holiday na parede à frente dela. Aposto que Laurel não imaginava que eu conhecia qualquer livro além do Kama Sutra; ela devia pensar que eu era só um babaca que sabia ligar um computador e tinha ficado milionário com isso. Sorri antes de me virar; estava mesmo caindo de bêbado e fazendo um milhão de coisas sem pensar desde que entrei em casa. Até me jogar em cima da minha melhor amiga, algo que soou como uma brincadeira. Até me jogar em cima de Laurel.

Caí na cama com as pernas penduradas e uma cueca limpa depois de jogar a molhada num cesto, ainda sem a calça, que estava nas mãos de Laurel. Ela virou e me ajudou vestir, gostei do jeito como ela estava me tratando. Deitei direito com a cabeça no travesseiro.

Laurel — ela estava ao lado da cama e pousei o braço na testa, sonolento, observando-a se afastar — Pegue uma camisa no closet, por favor. Para você. Vai pegar… Uma pneumonia — minha voz foi desaparecendo devagar e ela fez o que eu disse.

Foi até o closet e pegou uma camisa igual a que eu estava usando. Fechei os olhos, em seguida, me esforcei para mantê-los abertos quando ela tirou a camisola pela cabeça e deixou no banheiro para secar antes de colocar no cesto, depois tirou o sutiã e fiz mais força para acompanhar aqueles movimentos eróticos e inocentes. Ela colocou uma cueca e a camisa; fechei os olhos quando se virou e apagou a luz do banheiro. Laurel se aproximou e subiu na cama alta com certo esforço, deitando ao meu lado e puxou o edredom até meu peito.

Puxei-a, fazendo com que deitasse sua cabeça em meu peito e mantive o braço em torno de seus ombros até adormecer.


SESSENTA E OITO DIAS DEPOIS — LAUREL


Por que diabos alguém faz isso? Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça quando acordei e coloquei os pés no chão frio; a cama era grande demais para uma pessoa só. Desci as escadas vinte minutos depois, ainda com a roupa de Anthony. Luce estava pondo a mesa e sorriu ao me ver.

Bom dia, senhora Cohen.

Bom dia. Onde Anthony está? — ela engoliu em seco e me serviu suco.

Estava falando ao telefone com a mãe no escritório há pouco. Agora está no jardim — ela saiu, deixando-me sozinha, olhando por aquelas janelas enormes.


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