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Embora inspirado em factos históricos, este livro é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real será mera coincidência.

















Texto © Antero Ribeiro 2016

Edição e revisão: Ana Margarida P. T. Fonseca

Capa e Ilustrações © Filipa Lopes

Contacto do autor: anteroflipe@gmail.com


Todos os direitos reservados a nível mundial.













Para os meus pais, que são o farol da minha existência,

que me ensinaram tudo o que de bom sei e faço,

sem eles nada disto seria possível. Obrigado pai, obrigado mãe…





Para ti, minha doce avó...


Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta

da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação”

Maupassant, Guy



Prefácio


Apesar de o autor não ter tido a delicadeza de me atribuir um nome, relegando-me para um papel meramente figurativo, peço ao estimado leitor que pense em mim como algo mais que um mero narrador.

Lembre-me, imagine-me quiçá, como a avó que embalando-o nos joelhos lhe contava histórias de encantar, ou então como aquele tio de aventuras mil, cujos desfechos, de tantas vezes repetidos, já conhecia de cor, mas que ansiava por voltar a ouvir uma e outra vez, na esperança de um novo pormenor por desvendar.

Serei o seu companheiro nesta viagem que atravessará o tempo e rasgará continentes. Este relato que lhe trago não aconteceu há muito, muito tempo atrás, nem começa com o clássico “Era uma vez...”. Não, esta história decorre nos dias de hoje, na realidade que é a de todos nós.

Junte-se então a mim e fique a conhecer a raiz que a sustenta e a partir da qual se desenvolverão estas páginas.



I


Conceição, de farta cabeleira branca, olhos meigos e corpo frágil que já não sente como seu, aguarda, serena, rodeada de tantos outros como ela, a chegada triunfante do descanso eterno. Na terceira cama daquela unidade de cuidados paliativos, sorrindo, beija carinhosamente cada um dos sobrescritos que acaba de lacrar, fazendo uso de umas últimas gotas de saliva que lhe humedeciam a boca. Embalando-os no movimento impercetível do peito, no calor, na luminosidade daquele entardecer solarengo... Suspira um último adeus.

Às primeiras horas da madrugada, um funcionário diligente encontra o corpo sem vida. Retira-lhe delicadamente as missivas das mãos geladas, para que sejam entregues aos seus incautos destinatários e cobre-lhe as feições suaves, livres do peso e das agruras dos anos, com o manto fino e frio de um lençol branco.


Amor puro e singelo

Amor sem nada pedir e tudo dar

Amor como o amor deve ser

...

Corajosa até ao fim

Venturosa na vida, serena na morte



II


Chove, chove copiosamente sobre a mui nobre e invicta cidade do Porto, epíteto que um verdadeiro “tripeiro” atribui orgulhosamente à sua cidade.

Henrique sorri subtilmente enquanto circula velozmente sobre a Ponte do Freixo, vislumbra a carismática zona da ribeira, a Torre dos Clérigos e finalmente o Estádio do Dragão, onde diminui abruptamente a velocidade para evitar os radares, permitindo-se por alguns momentos recordar os tempos de estudante no hospital de S. João, na Universidade do Porto. Empenhado e focado nos objetivos a que se propunha, obteve brilhantes resultados escolares que lhe abriram as portas do curso de medicina, terminando o tronco comum e a especialidade de cirurgia com destaque sobre os seus colegas de curso.

Vinte anos volvidos, mantém o mesmo metro e oitenta, uma estrutura larga fruto de uma vida como desportista e os mesmos olhos castanhos, um banal mas brutal castanho, que cativa e desperta a curiosidade de quem lhe sustém o olhar.

Henrique volta a concentrar-se no seu potente e novíssimo BMW M5 de um negro tão negro como a mais escura das noites, tomando a A3 rumo a Braga, com destino à sua casa, à sua família, à sua vida de sonho...

Pensando nisto, suspira inadvertidamente e de modo inconsciente vai libertando o sensível acelerador, adiando a sua chegada...











III


Um fiapo, somente um fiapo de luz teima em quebrar o céu encoberto que obscurece ao longe a magnífica cidade das sete colinas.

Salvador aperta o casaco já gasto de encontro ao corpo magro e caminha sem tempo nem destino no passeio marítimo de Oeiras, deixando lentamente para trás a Piscina Oceânica. Fustigado pelo vento, percorre o molhe da marina detendo-se na ténue fronteira entre o mar de cimento e o mar quebrado que se espraia diante dos seus olhos.

Hoje não haverá faina, o senhor dos mares assim decidiu. Vontade expressa no mar revolto, nas vagas enormes que, diligentemente, uma após outra se esvaem com estrépito de encontro ao pontão, salpicando o pescador. Resta-lhe apenas esperar pela clemência de Poseidon, uma boa maré que lhe permita levar o seu pequeno barco de pouco mais de três metros em busca de pobre e difícil sustento.

De tez morena, pele curtida, gasta pelo sol, sal e chuva, mãos calejadas de tantas linhas lançadas e de tantas piteiras1 puxadas, Salvador mantém um sorriso alvo e juvenil que ilude a sua idade e uma vida de tormentas. Apenas as pequenas rugas que lhe envolvem o olhar e os cabelos brancos que florescem teimam com a verdade.

Voltando costas ao mar do seu sustento e do seu tormento, enceta o caminho de regresso à garagem onde, num espaço exíguo e partilhado com as artes de pesca, mantém a sua casa. Perante esta vida de privação e de frivolidade, na perspetiva do leito quente e uma sopa aguada, sorri e estuga o passo, a boa nova surgirá, como sempre, em breve no horizonte.





IV


Suor acumula-se sobre a fronte, gotículas escorrem-lhe pelas têmporas qual orvalho às primeiras horas da manhã. Afonso conduz lentamente pela avenida Mao Tse Tung, evitando um ou outro buraco no alcatrão, enquanto observa os vendedores de ananás nos seus tchovas2 e as crianças fardadas regressando da escola. As janelas abertas da velha Unimog pouco ou nenhum alívio produzem. Maputo agoniza, prostrada a um sol inclemente e a uma temperatura de quarenta e dois graus centígrados. Contemplando pela janela, dá-se conta de como sente falta do ritmo tão próprio de África e do calor das suas gentes enquanto viaja pelo mundo.

Afonso acaba de chegar de uma viagem marcante pela Índia, onde ficou assoberbado pelo caos de gente, cheiros, sabores e cores de Mumbai, mas também pela magnificência dos palácios de Jaipur, do imperdível Taj Mahal e da sagrada Varanasi, com o seu Ganges de um cinzento leitoso, em que ablações, cinzas e cadáveres convivem num estertor de vida e de morte. A beleza e a miséria, levados ao extremo no segundo país mais populoso do mundo, proporcionaram-lhe um misto de emoções e recordações inesquecíveis.

Já próximo do seu destino, deixando para trás a Wine Lovers, a Flor Real e o Consulado Português, curva à direita para a Avenida Mártires da Machava, onde acaba por imobilizar a viatura entre a Escola Internacional e a FEIMA3, defronte de uma das duas casas que a cooperação militar portuguesa dispõe na cidade capital da pérola do Índico.

Por garbo, ou vaidade talvez, Afonso mira-se longamente no espelho retrovisor. A farda em tons de camuflado assenta-lhe na perfeição, aprumada com os galões de capitão sobre os ombros e a insígnia dos rangers manufaturada em bronze e constituída por dois gládios passados em aspa, acompanhados à dextra e à sinistra por uma folha de louro e uma de carvalho, ambas frutadas, do lado direito do peito. O verde seco da boina das operações especiais contrasta com o verde expressivo dos seus olhos.

Camilo franqueia-lhe as portas de casa, dando-lhe as boas vindas. Septuagenário, da cor do ébano, ex-combatente na guerra do ultramar pela bandeira que continua a chamar sua, esquecido por vencidos e vencedores, divide hoje o seu tempo entre os cinco filhos ainda vivos dos dez que trouxe a este mundo e o serviço que pode, dedicado a uma pátria que diz sua, mas na qual nunca pousou um pé ou sequer a vista.

Cumprimentam-se calorosamente com um sentido abraço e o típico aperto de mão moçambicano a três tempos.

Hoyo4, senhor. Já eram muitas as saudades!

– Muitas, pai, demasiadas até, de cá, de lá, de onde venho, para onde vou...

A expressão ausente e a resposta enigmática não deixam dúvidas a Camilo... Algo perturba o capitão.









 V


O relógio marca para lá das vinte e três horas quando Henrique finalmente chega a casa. A vivenda de três pisos recentemente remodelada ainda emana um enjoativo cheiro a tinta, cola e diluente. Rangendo ligeiramente sob o seu peso, o chão de cerejeira vai assinalando a passagem do médico. Na cozinha, uma refeição frugal e gelada é ignorada. Dos quartos emana luz que ilumina parcamente o corredor, sinal de vida, mas ninguém se ergue do leito para o receber.

Servido do seu paliativo, uma dose dupla de Cardhu e três pedras de gelo, retira duma pequena caixa de madeira, uma folha de papel amarelecido e gasto de tantas vezes lido e relido, dobrado e desdobrado e deixa-se cair pesadamente na poltrona diante da lareira, lendo e refletindo enquanto fita as chamas bruxuleantes e degusta o seu veneno.

Conheceu Beatriz no primeiro ano de internato. Mentiria se dissesse que foi amor à primeira vista. Foi um amor aprendido, a fé dela fê-lo acreditar. Partilhavam a mesma idade, a mesma beleza escultural, os mesmos objetivos profissionais, a mesma ambição social... Tinham tudo para dar certo.

Tiago, hoje adolescente, foi a materialização dessa esperança, sonho e desejo.

Longe vão os tempos em que os três subiam pela escadaria monumental do Bom Jesus ou pelo funicular e, saboreando um gelado, apreciavam os jardins, viam Braga por um canudo, deixavam-se embalar no lago pelo balanço do barco a remos ou ficavam a ver os carros contrariar a lógica na célebre descida que não o é de todo.

Extinguiu-se há muito a fé, a chama no olhar de Beatriz. Tiago, unha e carne com a mãe, sempre ligado a todo o mundo, menos ao que o rodeia... Perdido no Facebook, Instragram ou Whatsapp, é uma muralha que Henrique não consegue penetrar, uma ilha remota à distância do olhar, mas até à qual é impossível chegar. As ausências e as discussões constantes pesam-lhe. Sente, sabe, que o filho o olha como uma figura a quem deve mais temor que amor...

Henrique tem tudo o que sempre desejou, não poderia contudo ser mais infeliz. É mendigo em pele de rei.









VI


O sol ergue-se preguiçoso, dividindo lentamente céu e mar. Na quietude absoluta de um mar chão, apenas se escutam os murmúrios de dois homens que em gestos mecânicos se preparam para fisgar polvos.

Salvador fuma já o seu terceiro cigarro quando a estrela do dia finalmente forma um círculo perfeito para lá das águas morrentes. Hoje acompanha-o Filipe, piloto da marinha mercante, chegado na véspera de uma atribulada viagem durante a qual conduziu o iate de um novo-rico, do Funchal para Lisboa. Primos direitos, companheiros de folia, os homens tratam-se e sentem-se como irmãos.

De temperamento volátil e facilmente influenciável, equilíbrio foi tudo o que faltou a grande parte da já madura existência de Salvador. As más companhias de adolescência arrastaram-no para uma vida de vício e adicção, um mundo do qual provavelmente nunca sairá totalmente. Começou como todos os outros, pelo álcool e o tabaco em catadupa, célebres lubrificantes sociais. Depois, a curiosidade, a pressão de amigos mal escolhidos e a busca incessante por emoções cada vez mais intensas levaram-no naturalmente à branca5, à castanha6 e aos speeds. O álcool corria, as drogas eram fáceis de encontrar e de obter, as mulheres, de nomes quase sempre desconhecidos e de rostos quase esquecidos, franqueavam-lhe sem demora mares de temperatura amena, nos quais invariavelmente naufragava até um amanhecer consternado. Lentamente, foi perdendo o controlo e acumulando um longo historial de desespero, consubstanciado em infrutíferas tentativas de suicídio, mas também num rasto de roubo, violência e logro. Foi asfixiando, queimando e envenenando cada um dos elos que o tempo e o sangue haviam formado...

Os dois pescadores costumam falar sobre esses tempos de perdição e sobre as atitudes, que mais do que as palavras ou o tempo, devem remediar os erros do passado. Hoje não será diferente, a voz arrastada de Pedro Abrunhosa que sai do velho rádio a pilhas cantando “Não posso mais” dá o mote.

– Andaste controlado enquanto estive fora?

– Ya, primo, bebi as minhas jolas e fumei os meus cigarros, sabes que disso não abdico... Mas andei tranquilo, não fiz merda.

– Ajudaste aquele gajo a acabar de pintar a casa?

– Sim.

– Pagou-te?

– Ya, uma merda, mas pagou. O mar esteve de borrasca, não fossem esses trocos não me tinha safado.

– Puseste algum de lado pá aquilo?

– Népia, primo! Não deu, a fome apertou.

– Bem sei... A fome por cigarros e cerveja!

Sonoras gargalhadas ecoam do barco, afugentando uma ou outra gaivota mais atrevida. Sorrindo um para o outro, sem nada dizer, os primos-irmãos voltam aos seus afazeres.



VII


São cinco e trinta da manhã, os primeiros matizes da aurora mal se fazem notar mas Afonso já cumpre, correndo, a terceira de cinco voltas ao Caracol7. A atividade física regular, a preparação do corpo e da mente para qualquer adversidade, são alguns dos muitos hábitos aprendidos na Academia Militar por este oficial de carreira e dos quais não abdica. Nem ele, nem a metade de Maputo que parece hoje, ainda mais do que habitual, lotar aquele espaço de referência para exercício matinal.

Integrado como consultor, instrutor ou operacional em várias missões da NATO8, já correu todos os continentes, alimentando de sangue, suor e lágrimas os superiores interesses da pátria. Congo, Somália, Kosovo, Colômbia e Afeganistão foram apenas alguns dos teatros de guerra onde a sua voz de comando ou a sua precisão de tiro se fizeram ouvir, deixando um rasto de inimigos e camaradas tombados, condenados ao esquecimento inerente ao secretismo das operações especiais.

Moçambique é a sua casa há já quatro anos. Veio cumprindo um desejo, um pedido que não podia ignorar, mas cujo propósito o tempo não ajudou ainda a esclarecer.

De regresso à sede da cooperação militar, Afonso apressa-se a escanhoar impecavelmente a face e trajar o uniforme cinzento de oficial do exército português. Camilo espera-o na cozinha com o mata-bicho9 pronto, Five Roses, com duas colheres (bem servidas) de açúcar mascavado, um pão de água com doce, que o capitão irá invariavelmente demolhar no chá antes de cada dentada e finalmente, uma sumarenta e doce manga, já arranjada.

– Bom dia, Camilo!

– Bom dia, senhor!

– Pai... Já te pedi, já nos conhecemos há quatro anos... Trata-me apenas por Afonso.

– Nem pensar, senhor! Um subalterno deve respeito a um oficial no trato.

– Mas, Camilo... Já não és militar. Eu é que devo deferência ao manto branco que te cobre a cabeça.

Condoído, o ancião limita-se a olhar o chão. Percebendo rapidamente o erro cometido, carinhosamente, Afonso coloca um braço sobre os ombros frágeis do caseiro.

– Vá, meu amigo, não fiques sentido comigo, só quero o teu bem e a sabedoria da tua amizade. Não me queres acompanhar até ao consulado? Vou prestar honras militares na despedida do cônsul.

– Claro que sim, senhor! – Responde Camilo de imediato, empertigando-se, com um sorriso provocador a aflorar-lhe os lábios...

– Ah, Camilo, os anos trouxeram-te sabedoria, mas não levaram nem um pouco dessa teimosia! – Contrapõe alegremente o capitão, enquanto saem para mais uma manhã tórrida na cidade das acácias.





VIII


Seis, seis horas consecutivas a operar para perder o paciente quando já nada o fazia prever. Uma frustração com a qual Henrique, como todos os médicos, teve de aprender a conviver ao longo da carreira. De rosto cansado e corpo dorido, beberica um café quente enquanto tenta colocar alguma ordem na sua agenda e, sobretudo, nos seus pensamentos. Os dias, as semanas e os meses escapam-se-lhe por entre os dedos, numa sucessão de aulas, consultas, palestras e cirurgias, de chegadas tardias e fins de semana perdidos. Este, contudo, foi cuidadosamente pensado para ser uma exceção à nefasta regra, uma tentativa desesperada de recuperar tempo perdido.

Henrique, Beatriz e Tiago terminam um repasto de frutos do mar no famoso restaurante Pedra Alta, na vila piscatória de Castelo do Neiva. Camarão, mexilhão, percebes, sapateira e lagosta foram alguns dos acepipes que degustaram.

Dali, seguiriam até à praia de eleição de Henrique desde a sua mocidade e terminariam o passeio comendo uma das famigeradas bolas de Berlim da Pastelaria Natário em Viana do Castelo. Este fora o plano que o cirurgião urdira para se aproximar da sua família, cada vez mais distante. Porém, nada corria conforme Henrique imaginara.

Beatriz não gostou da surpresa, tinha reservado algumas horas deste sábado primaveril para os seus afazeres e a perspetiva de os trocar por um passeio com o marido não a deixara propriamente radiante. O olhar carrancudo e o tom agastado não deixam margem para equívocos. Tiago, típico adolescente da era digital, está sentado com eles à mesa, mas totalmente alheado do que o rodeia, preferindo as redes sociais e uma linguagem repleta de truncagens, abreviaturas e caretas que o pai há muito desistiu de tentar perceber. A mesa de almoço desta família, espaço que deveria ser ideal para pôr a conversa em dia e estreitar laços, parece um velório. O silêncio e a indiferença entre os seus irrita e frustra Henrique.

De regresso ao carro, teimando no plano, a família dirige-se para o destino seguinte, a praia da Amorosa.

Sentado nas dunas de areia branca e fina, sobranceiras ao mar, o casal observa a imensidão azul, entrecortada por laivos de espuma branca. A brisa de nordeste traz uma fragrância a sargaço e eucalipto. Num gesto de carinho que lhe é cada vez mais raro, Henrique envolve a esposa nos seus braços, enquanto ela repousa a cabeça no seu peito.

– Beatriz...

– Não digas nada, Henrique, sei perfeitamente o que te vai há meses no pensamento.

– Sabes??

– És um tolo... Inteligente, bonito, brilhante até... Mas um tolo. – Sorri tristemente Beatriz, enquanto se ergue e lhe passa suavemente uma mão pelo rosto.

– Lamento...

– Não peças desculpa, não te atrevas! Lamentas o quê? As ausências? O toque, o beijo vazio de sentimento? Deixaste esmorecer, agonizar, a paixão que sentia por ti.

– Ainda não é tarde, Beatriz.

– Falhámos, Henrique. Todas as juras de amor eterno foram devaneios levados pelo vento, consumidos pelo tempo, é inútil escondê-lo.

– Não desisto de ti e do Tiago! Não posso!

– Podes... Não estás é habituado a falhar e a perder. – Responde friamente Beatriz.

– Isto não é um maldito jogo! São as nossas vidas!

– Sei isso muito bem, Henrique!

Libertando-se dos braços do marido, olha-o longamente nos olhos enquanto lhe deposita uma brochura já gasta nas mãos abandonadas.

– Lê.

– O que é isto?

– Lê...

– Um ano de voluntariado em Moçambique?

– Sim. Tens a oportunidade de realizar o teu desejo e estaremos doze meses separados. Doze meses que serão o fim ou o reinício do nosso casamento.

Levantando-se e indo de encontro a Tiago que caminha à beira-mar, Beatriz coloca um ponto final na discussão, deixando Henrique de olhar vazio, entregue à solidão do seu pensamento.



IX


Pedalando a favor do vento, Salvador rola rapidamente pela marginal a caminho de Lisboa e do paquete Funchal, onde Filipe o aguarda. Ancorado em frente à estação de Santa Apolónia, o carismático navio irá partir no dia seguinte para um cruzeiro de seis meses, apartando os primos.

Filipe recebe-o na ponte de comando, envergando o branco imaculado da farda de oficial.

– Pronto para mais uma viagem, primo?

– Sabes bem que não! Dou em doido seis meses no mar.

– Foda-se, ganhas uma fortuna, rodeado de mulheres, a conhecer o mundo todo e ainda te queixas... És maluco!

– Só vês a parte boa, como toda a gente. A partida obrigatória, independentemente da vontade ou do contexto emocional, familiar e afetivo, as escalas de serviço, a responsabilidade monstruosa, o navio que se torna uma prisão... Nada disso interessa, né?!

– Ok, ok, não te chateies comigo antes de partires!

Filipe suspira...

– Não ligues, primo, é a frustração a falar.

– Quando deres conta, já estás de regresso, pá!

– É isso, é isso...


Arrancando na sua bicicleta, Salvador grita uma última despedida a Filipe que o observa da proa da embarcação.

– Bons ventos e boas marés, comandante!!!

Às portas da cidade menina, decide continuar o seu passeio domingueiro. Os ícones da capital sucedem-se em catadupa, a Praça do Comércio, o majestoso Arco da Rua Augusta, a Ponte 25 de Abril, o fabuloso Mosteiro dos Jerónimos, o Centro Cultural de Belém e o icónico Padrão dos Descobrimentos. Contornando, evitando, os milhares de turistas que parecem ter tomado Lisboa de assalto vai desembocar na fila monstruosa para os pastéis de Belém... Suspira enfastiado, mas toma o seu lugar no martírio – o pastel único vale o sacrifício.

Uma hora depois, finalmente servido, senta-se no molhe, ladeado do símbolo máximo do período áureo de Portugal, a Torre de Belém. O monumento de estilo manuelino, o Tejo fluindo serenamente para o mar, as gaivotas que, grasnando, pairam sobre as águas e o sol próximo do seu ocaso criam um ambiente idílico. Palavras em turbilhão surgem e ganham forma na mente de Salvador.


Portugal...

É mar infinito a perder de vista, riqueza incalculável

É encosta sulcada, verdejante repleta de vinhedo

É campo doirado de trigo e de milho

É oliveira, sobreiro e chaparro

É fado, saudade e pranto

É cor, sabor, visão resplandecente

É Grândola, cravo e liberdade

É sonhar, desejar e alcançar!

É facilitar e desenrascar

É desperdiçar e desbaratar

É crer e reerguer!

É praia, montanha e prado

É primavera de andorinhas, verão de dias sem fim, outono de folha caduca, inverno, por fim

É sorriso, é festa, cultura e paixão!

É fonte de novos mundos, ancião do velho continente que a Europa viu nascer e verá perecer

É Henriques, Pessoa, Da Gama e Cabral

São as mãos vazias e o peito repleto!

É o sangue dos heróis, a esfera armilar de tempos áureos, os castelos conquistados com vontade e valor, o verde da esperança...

Esperança que move o seu povo intrépido, honrado e destemido...hoje e sempre!

É esperança reinventada a cada século, a cada dia

É sonho por cumprir

É obra inacabada

Portugal é eterno!

É História e estória por contar...

Portugal? Portugal...

És tu, sou eu, somos nós!

Que, com nobreza, ostentamos a singularidade de sermos portugueses

Que, com orgulho, lembramos o passado e com fragor enfrentamos o futuro

Que, de peito feito, com clamor cantamos a Portuguesa!

Que, perto ou longe, sofremos pelo solo pátrio...

E ao ver a bandeira que nos une enfunada a esvoaçar ao vento, sentimos esta certeza...

O orgulho em o sermos...

PORTUGUESES


Grava-as apressadamente no verso de uma folha de papel amarelecido e gasto de tantas vezes lido e relido, dobrado e desdobrado, que traz sempre consigo.

Findo o dia, o pescador que por instantes foi poeta, retoma a Oeiras. A maré estará de feição à terceira hora da madrugada.





X


De regresso do consulado e das obrigações protocolares, Afonso e Camilo estão agora sentados na esplanada da Lanchonete do Atleta, em pleno Parque dos Continuadores.

Enquanto saboreia uma Laurentina10 gelada, o capitão fixa o olhar no outro lado da rua.

Um mural, um monumento discreto assinala o local do desaparecimento do malogrado Carlos Cardoso. O jornalista-pintor nascido em 1951 na Beira foi raivosamente assassinado a rajadas de AK-47 naquele exato local, na viragem do século. Socialista convicto, Cardoso trabalhou para o governo pós-independência, chegando até a conselheiro do então Presidente da República, Samora Machel. Com a morte de Samora, guardião e expoente máximo dos valores independentistas, e a queda da União Soviética, que financiava e garantia a sustentabilidade de Moçambique, a política, o partido e o país mudaram... Cardoso não! Não se identificando com a nova ideologia seguida pelo seu partido de sempre, a FRELIMO, decidiu afastar-se e fundar o seu próprio jornal, “O Metical”, que difundia por fax aos assinantes. Através desta plataforma, o jornalista sem medo, comprometido com a verdade e a justiça, denunciou casos de corrupção, fraude, tráfico de droga e lavagem de dinheiro, nos quais estariam envolvidas altas figuras da sociedade e do partido. Numa mudança estrondosa de paradigma, aqueles que antes defendiam que o capitalismo era “a exploração do homem, pelo homem” exerciam agora um capitalismo selvagem. O coração independente e íntegro de Carlos Cardoso custou-lhe a vida às mãos dos todo-poderosos, beliscados pelas suas palavras. O mártir colocou a verdade e a justiça acima de todos para o bem de Moçambique. Mas Moçambique não apurou toda a verdade, nem lhe fez toda a justiça, enredando-se num processo de investigação repleto de falhas e incongruências que culminou no único julgamento televisionado da história do país.

– Em que pensa?

Sorvendo um último gole da bebida dourada, Afonso volta a sua atenção para Camilo.

– Penso nas palavras de Cardoso, ali gravadas na pedra, “No ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras”, e em como a sua morte alertou para a falta de liberdade de imprensa e a debilidade dos tribunais perante os poderes políticos e económicos do país à época.

– À época? Não mudou nada e já passaram quase vinte anos!

– Cuidado, Camilo, pode não ser prudente ter esse género de afirmação num local como este...

Olhando-o ternamente, o ancião afirma:

– Não me interessa, capitão. Já não tenho nem tempo, nem idade para temer a dor da verdade. O país está em queda livre! O aparelho do estado confunde-se com o partido que desde setenta e cinco lidera os desígnios desta terra; a justiça é esmagada, destratada, por aqueles a quem a constituição dá o direito e o dever de supervisionar e de julgar quando incumprem; o crime organizado cresce exponencialmente, de ano para ano, em total impunidade e, como se não bastasse, vivemos uma segunda guerra civil encapotada.

– Meu bom amigo, como oficial e representante do exército português, sabes que estou proibido de participar em qualquer conversa de teor político, mas como apaixonado por esta terra e suas gentes desejo sinceramente que o povo moçambicano saiba encontrar a solução para as questões que levantas de forma tão assertiva.

– Um dia... Um dia quando eles perceberem que somos todos UM, um único e indivisível TODO, um frémito alucinante, uma vontade arrebatadora, então os cambacos11 deixarão de lutar! Até lá... Até lá o capim será pisado e revolteado sob os pés da elite toda-poderosa e dos senhores da guerra, raças malditas!

Impressionado, Afonso decora o ancião... A voz vibrante, as veias salientes e latejantes do pescoço, o olhar firme e brilhante infundem admiração. As célebres palavras de Edmund Burke12 bailam-lhe na ponta da língua:


“Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem nada façam.”





XI


Passaram dois meses, durante os quais Henrique tratou de todos os procedimentos e autorizações necessárias para se libertar das suas obrigações profissionais, de modo a poder ser integrado na equipa médica que durante um ano trabalhará em regime de voluntariado no Instituto do Coração (ICOR), em Maputo. De malas prontas, vai fazendo zapping enquanto aguarda pelo táxi que o levará ao aeroporto e a uma nova vida. Beatriz não pôde, ou muito provavelmente não quis acompanhá-lo, um beijo seco e fugidio marcou a despedida. Henrique não pediu mais.

O professor Marcelo Rebelo de Sousa, com a bandeira verde-rubra ao fundo, chama-lhe a atenção, detendo a sua marcha pela centena de canais. Henrique, como a generalidade dos portugueses está cansado e descrente de toda a classe política. Os portugueses estão fartos de lobbies e corrupção, da conversa da crise económica e de políticos mais à direita ou à esquerda, que sobrepõem os seus interesses particulares ao interesse e proveito nacionais. Estão fartos de um futuro eternamente adiado! Porém, o discurso eloquente e, sobretudo, apaixonado do novo Presidente da República, cativa o médico. É conhecida a capacidade de retórica do professor, mas, inteligentemente, num discurso simples e assertivo, o professor apela ao que os portugueses têm de melhor... O coração. Sem esquecer os dois milhões de pobres, nem as chocantes assimetrias sociais que parecem eternizar-se no tempo, Marcelo apela ao orgulho deste povo com quase nove séculos de história, incentiva-o a cicatrizar feridas, afirmando o seu amor-próprio e a secular capacidade de superar crises. Pede que os portugueses em solo pátrio e os milhões que espalhados pelo mundo vivam e criem Portugal onde se encontrem, sejam tolerantes, sem complexos de injustificada superioridade ou incompreensível inferioridade, que este pequeno povo, que se fez gigante dando novos mundos ao mundo, que é invulgar na forma como interioriza e se integra em novas realidades e culturas, deixe de amesquinhar aquilo que vale!


“Valemos muito mais do que pensamos e dizemos

...

Grandes no passado!

Grandes no futuro!”13


Enquanto os aplausos sobem de tom até se tornarem ensurdecedores, Henrique dá por si meneando positivamente a cabeça à mensagem de esperança e valorização da identidade nacional proferida pelo recém-eleito chefe de estado. Portugal e os portugueses têm defeitos, incontáveis defeitos, mas também tamanha virtude e sobejas qualidades únicas que não devem nunca ser esquecidas ou desvalorizadas.

É com este banho de autoestima, mas de peito apertado, com uma família em suspenso, uma mala na mão e na algibeira uma folha de papel amarrotada, vincada e amarelada, de tantas vezes lida, que embarca na nova aventura que o espera por terras africanas.



XII


Salvador foi o primeiro a chegar e a lançar as piteiras ao mar salgado. Os companheiros de faina chegaram, arrancaram à força de braços o seu sustento das águas escuras e partiram. Todos sem exceção partiram, retornando à segurança e ao conforto de terra firme. Paciente, Salvador viu chegar e partir os inúmeros barcos, recolheu as suas artes e aguarda agora o raiar do dia sentado na amurada do barco, fumando um cigarro. Embalado pela ondulação em crescendo da maré em mudança, deixa-se dormitar em sono leve...

BBBAAAUUUMMMMM...

Um navio larga amarras e despede-se ruidosamente da calorosa Lisboa, acordando em sobressalto o pescador. O sol ainda baixo definindo-lhe a silhueta, permite que Salvador identifique o propósito da sua espera, o paquete Funchal. Levantando âncora e dando vida ao motor, dá início a uma perigosa corrida no mar já encrespado. As ondas e o vento fustigam a pequena embarcação, enquanto, gritando, o motor se esforça por manter o pequeno David na esteira do poderoso Golias. Num último esforço, voando sobre as ondas, Salvador coloca-se lado a lado com o paquete, esbracejando e gritando para a ponte, onde o atento piloto, de binóculos o observa.

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMM

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMMMMMMM

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

Filipe despede-se do intrépido primo com gestos lentos, procurando gravar para sempre aquela imagem na memória. De voz embargada e olhos marejados de lágrimas, faz soar os três toques mais longos e sentidos que aquele porto milenar alguma vez ouviu...

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMM

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMMMMMMM

BBBBBAAAAAAAAUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

Chegados às imediações do Farol do Bugio, Salvador desliga o motor e fica por ali, sacudido qual casca de noz pela ondulação, a ver o Funchal fundir-se lentamente com o horizonte.

Vendeu os quinze quilogramas de polvo apanhados nessa noite e regressou à garagem que lhe serve de casa, onde agora grelha um pequeno sargo, que, acompanhado de uma cerveja, lhe restituirá as forças. Salvador não tem quase nada que diga seu, vive da boa vontade de familiares e do sustento incerto da pesca e de um ou outro biscate. Não vive segundo as regras e expectativas da sociedade para um homem que já completou quarenta primaveras, mas sorri... Sorri como apenas os livres sorriem... É feliz na existência simples que leva.

Já saciado, é com o mesmo sorriso no rosto que devolve a uma tosca caixa, os seus dois tesouros... Um retrato e um sonho por concretizar.





XIII


Afonso terminou uma visita de cortesia ao comando das FIR, a Força de Intervenção Rápida da polícia militarizada. Enquanto atravessa a parada dirigindo-se à porta de armas, não pode deixar de observar consternado os mancebos perfilados sob o sol inclemente. A pérola do Índico é um país de indiscutível potencial, com praias de areia branca e água cristalina a perder de vista, um mar pungente de vida, terra fértil, recursos hídricos e fósseis imensos e, sobretudo, milhões de moçambicanos por realizar na sua plenitude. Os jovens e inconscientes soldados que agora deixa e em breve partirão para mais uma batalha entre FRELIMO e RENAMO são o melhor exemplo do mal que lentamente vai corroendo e consumindo o futuro do país... A educação, ou melhor, a falta dela! Com governantes sem sentido patriótico mas sedentos de poder, que sem um plano ou propósito nacional investem milhões numa guerra entre irmãos, Moçambique não dá uma real oportunidade aos seus jovens. O povo é mantido no obscurantismo, cego. Sem educação, formação ou informação adequadas, as pobres gentes não reclamam, não exigem, não se revoltam perante a injustiça, não pensam no amanhã, limitam-se a lutar dia após dia por uma côdea de pão ou uma mão sensaborona de chima14. Enquanto isso, pais, irmãos e filhos representados em cada um daqueles soldados ingénuos, matam e morrem, manchando de sangue a honra de Moçambique.

De volta às ruas, parado num semáforo ao vermelho sangue, Afonso ouve, vinda de um chapa sobrelotado, a voz de um inconveniente rapper apelando à sua geração, “A geração dos competentes, não dos obedientes, dos intervenientes, não dos convenientes”... Olhando, sentindo a dor daqueles que, de corpo seminu, vasculham o lixo e suplicam de mão estendida junto ao carro, ao oficial português só resta desejar que muitos mais pensem como Azagaia15 e libertem o grito de revolta que lhes cresce na garganta. Recordando as palavras de Pedro para o Messias que carregava a própria cruz pela via Ápia, Afonso deixa-as fluir pelos lábios... Quo vadis16, Moçambique?





XIV


O Airbus 330 da Transportadora Aérea Portuguesa (TAP) trepida levemente, enquanto sobrevoa, noite dentro, o inóspito Saara. Na cabine a quietude é total, a maioria dos passageiros dorme embalada pela vibração dos motores. O voo direto de Lisboa a Maputo demora cerca de dez horas, durante as quais Henrique não pregará olho devido à ansiedade da chegada e a um infundado receio de voar. Enquanto desliza um dedo pelo ecrã tátil à sua frente, fazendo correr um programa de entretenimento, apercebe-se de um crescente burburinho proveniente das cortinas, por trás das quais se refugiam as hospedeiras. Um rosto emerge, observando rapidamente os passageiros que dormitam, um rosto de uma simetria perfeita que desperta a curiosidade do médico. Fita-a intensamente esperando atrair a atenção da bela jovem. Quando finalmente cruzam olhares, a expressão nervosa e o temor contido nos olhos azuis da hospedeira gelam-lhe o sangue e não deixam dúvidas... Algo aconteceu ou está prestes a acontecer!

Crispando as mãos agora suadas no banco, Henrique ergue-se e dirige-se silenciosamente para o cubículo, onde a discussão vai crescendo de intensidade. Alarmadas pelo som da cortina a correr, as hospedeiras interrompem de imediato a conversa, mirando-o com olhar reprovador.

– Que deseja, senhor? – Diz-lhe o belo rosto que há pouco admirava, assumindo um tom e ar profissional.

– Desculpem se as assustei, mas gostaria de saber o que se passa, sou médico, talvez possa ajudar.

– Obrigada, cavalheiro, mas, como pode ver, o voo decorre dentro da normalidade.

– O problema não está então neste voo... Houve mais algum atentado? – Questiona Henrique, recordando os mais recentes atentados em Bruxelas17.

Nervosa, Luísa (conseguiu finalmente ler-lhe o nome no crachá ao peito) cerra-lhe bruscamente a cortina nas costas.

– Como se chama?

– Henrique.

– Bem, Dr. Henrique, peço-lhe a maior contenção. Temos de evitar o pânico a bordo.

– Pode contar com a minha total discrição, cara Luísa.

Insegura, indecisa, ela hesita ainda... Aqueles brutais olhos castanhos pressionando-a de modo inquisitivo são, porém, mais do que pode suportar naquele momento.

– Ocorreram atentados simultâneos nos aeroportos de Roma, Atenas e Madrid. Fala-se em centenas de mortos e no encerramento de todos os principais aeroportos europeus como medida preventiva, Lisboa e Porto incluídos.

Atónito, Henrique demora alguns segundos a processar a informação e reagir.

– Que vamos fazer?

– Nada... O senhor vai voltar calmamente ao seu lugar e o avião continuará até Maputo onde estaremos em segurança.

O silêncio sepulcral na cabine torna-se opressivo, o coração bate-lhe descompassado no peito enquanto retoma o seu lugar na coxia.

Sem poder falar com ninguém sobre o sucedido, limita-se a refletir sobre as razões do Homem, enquanto faz rodar na mão direita a bebida que Luísa discretamente lhe trouxe, acompanhada de um triste sorriso cúmplice.

Henrique é agnóstico, rejeita qualquer religião mas entende a necessidade que o Homem tem de Deus. Os homens precisam de acreditar que há algo superior a eles, que o sentido da vida não se limita à necessidade de perpetuar a espécie, que a própria vida não se esgota, não termina simplesmente, com a última sinapse. Compreende o papel que cada um dos credos desempenhou na educação e controlo das diferentes sociedades ao longo dos tempos, respeita o conjunto de regras e valores dos mandamentos de Abraão, o código de conduta que trouxe ordem social. Não esquece, contudo, os massacres perpetuados por milhares de anos até à atualidade, em nome das diferentes religiões. As fogueiras e a tortura maquiavélica da Inquisição, os milhares dizimados nas cruzadas ou a Jihad, que põe hoje o mundo a ferro e fogo. Ninguém é inocente neste jogo de fanatismo religioso!

Até quando matará o Homem em nome de Deus?

Que Deus seria este, se a morte, em seu nome, merecesse recompensa divina?

Que filhos de Deus são estes, que matam outros filhos de Deus em sua honra?

Até quando irá a humanidade pagar com sangue inocente, o preço dos erros que teima em repetir?

Sem resposta a estas e tantas outras questões que lhe vão surgindo, vencido pelo cansaço após a descarga de adrenalina, acaba por adormecer.

O silêncio dos inocentes reinará ainda por algumas horas.



XV


Domingo, mais uma semana volvida.

Salvador almoçou com os tios e primos numa típica refeição familiar em que saborearam o fruto do trabalho semanal. Arroz de polvo e sardinhas assadas com pimentos, culminando com um delicioso arroz doce coberto de canela, cada prato condimentado com os sorrisos, piadas e provocações carinhosas que só a cumplicidade dos anos permite.

O tempo corre célere quando somos felizes... Para esta família o tempo voa.

Horas depois, decidem sair de casa para saborear um delicioso acepipe, caracóis à portuguesa, na incontornável cervejaria O Velhote. As doses fumegantes de pequenos caracóis, cozidos apenas com alho, louro e sal, são-lhes servidas acompanhadas de finos bem gelados. De palito na mão, vão sugando primeiro os caracóis que ficaram com a cabeça de fora, deixando os que se encolheram e esconderam na fina casca para o fim. Em amena cavaqueira, fazem tempo para um final de dia especial.

Deixam os carros à porta da estação de Oeiras e apanham o comboio até ao Cais do Sodré. Dali, seguem de metro até ao Campo Grande, onde as portas da estação, abertas de par em par, dão diretamente para o Estádio José Alvalade. A multidão fervilha em torno do recinto. Gentes de todas as raças, credos e condição social convivem harmoniosamente, sobretudo na zona das rulotes.

A Salvador não interessa o futebol, não é apaixonado pelo jogo ou por qualquer clube, mas nem ele fica indiferente ao transpor um dos túneis que dá acesso às bancadas... O estádio está repleto! Cinquenta mil adeptos aguardam pelos seus ídolos. Na entrada das equipas, enquanto os heróis da era moderna, vestindo de verde e branco, com o leão rampante sobre o coração, caminham a passo firme para o centro da arena, cinquenta mil almas levantam-se e erguem orgulhosas os seus cachecóis aos céus. Abate-se um silêncio sepulcral, prelúdio dos primeiros acordes, “O MUUUNDO SABE QUE, PELO TEU AMOR, EUUU SOU DOEEEENTE...” milhares de gargantas entoam o cântico em uníssono, clamam com paixão a sua devoção ao clube. Salvador sente a emoção no ar, eriçam-lhe os pelos, arrepia-se-lhe a pele, o coração dispara enquanto observa conhecidos e desconhecidos, enquanto lhes lê o amor nos olhos.

A bola rola finalmente sobre o tapete de relva, fixando a atenção de todos, ou de quase todos. Ao pescador apenas interessam as pessoas a exultar, a abraçar e beijar desconhecidos a cada golo marcado, em êxtase, gritando a plenos pulmões o nome do clube, frustradas a cada falhanço, desesperadas a cada golo sofrido, com a vitória que tarda em chegar. O apito do árbitro ouve-se em três consecutivos e longos sopros, as gentes suspiram de alívio, o Sporting venceu por três bolas a duas. A família abandona então o estádio, engolida num mar de gente que continua a cantar o hino do clube.

Metro, comboio, casa. Desfeito o caminho até ao jogo, chega agora sozinho à sua simples residência. Já deitado e prestes a adormecer, recebe um SMS de Filipe. “Primo como vai isso? Temos de falar com urgência! Chamada no Facebook amanhã? Abraço”. Salvador responde afirmativamente à pretensão do primo e passa o resto da noite a tentar ingloriamente adormecer... Que terá Filipe para lhe dizer?





XVI



Aproveitando um fim de semana sem obrigações profissionais, Afonso decidiu descansar do rebuliço da capital. Ao longo dos anos em Moçambique já conheceu todas as grandes cidades e estâncias turísticas, já nadou com tubarões-baleia e mantas gigantes no Tofo, já se perdeu em ilha após ilha do paradisíaco arquipélago de Bazaruto, até já desbravou mato entre os colossos da Gorongosa e sentiu o peso histórico da Ilha que partilha o nome com a nação. Mas o local para onde agora se dirige é o seu ponto favorito no país.

O Bilene, uma pacata vila a pouco mais de cento e sessenta quilómetros de Maputo, que, à exceção de um outro fim de semana festivo e das férias escolares, oferece imensa tranquilidade e um ambiente idílico a quem a visita. A enorme lagoa de água salgada, tépida e transparente banhando docemente as praias de areia branca é um postal perfeito do paraíso. O alojamento nunca muda. O Complexo Palmeiras, o mais antigo da praia do Bilene, pertença da família Ruiz, foi inicialmente recomendado por um camarada e desde então é o poiso certo do capitão. Foi amor à primeira visita... A vista esplêndida para a lagoa, as casas e o bar virados para o mar, servindo com qualidade e distinção a meia dúzia de passos da praia, a simpatia excecional do pessoal e dos proprietários fazem com que Afonso nunca deixe de voltar. Agora, enquanto lê espraiado na sombra de pinheiros mansos que convivem lado a lado com as palmeiras que dão nome ao local, uma procissão de vendedores ambulantes vai desfilando as suas mercadorias. Deliciosa castanha de caju, pequenos brinquedos feitos de arame, pedaços de lata e caricas de uma perfeição inacreditável, caranguejo esperneando loucamente como prova de vida, camarão do tamanho de uma mão e até um pequeno vermelhão nos últimos estertores de vida. Diz que sim a tudo, exceto os brinquedos: uma pequena lata cheia de castanhas, meio quilo de camarão, dois quilos de caranguejo e o tal vermelhão, tudo isto por uma bagatela tendo em conta os preços cada vez mais proibitivos da capital. Cozinha e devora praticamente tudo ao almoço. Confecionou os frutos do mar com o mínimo de condimentos, retendo o sabor fresco das águas salgadas. Enfartado, decide apanhar boleia de um conhecido e atravessar a lagoa de barco, até ao canal de areia que a separa do oceano. Do outro lado da pequena língua de areia, o Índico quebra ruidosamente sobre uma extensão de praia a perder de vista, não se vislumbra vivalma. Caminhando sobre o areal, sulcando a fina areia molhada da rebentação, vislumbra uma tartaruga espreitando entre a ondulação, certamente a caminho da praia com o nome da espécie, mas vê também baleias enormes, que ao largo, num bailado fascinante, vão saltando da água ou exibindo as magníficas caudas no que parece ser uma saudação ou, quem sabe, um adeus.

Estas imagens são um deleite para Afonso. As águas vibrantes de vida de Moçambique, as planícies eternas do Serengeti, a magia inigualável da cratera de Ngorongoro, o poder das Vic Falls, a transcendência do Cabo da Boa Esperança, as diferentes tonalidades do deserto da Namíbia, o som único da noite no delta do Okavango, todas as paisagens, todas as culturas, toda a vida selvagem... São memórias que guardará para sempre. África é uma experiência incrível!

É hora de voltar. O sol, que se habituou a ver morrer no mar em Portugal, nasce das águas para fenecer lentamente em terras de Moçambique.

De regresso ao complexo, ainda mal havia pousado pé em terra firme, logo um dos funcionários o avisa:

– Patrão, estão fartos de ligar para cá à tua procura.

– Sabes quem é? O que me querem?

– Desconsegui, senhor...

Irritado, o capitão liga o telemóvel que havia prometido a si mesmo manter desligado até regressar à capital. A expressão vai-se alterando, o rosto retorcendo num esgar ao ler a longa mensagem que o adido militar lhe enviara, com uma clara ordem final: “Regresso imediato a Maputo!”.




XVII


Henrique acorda sobressaltado ao sentir o toque das enormes rodas do avião no alcatrão quente. Tudo decorre, porém, na maior tranquilidade. O aparelho rola pela pista sem sobressaltos, até ao seu lugar e à manga de acesso ao edifício principal do aeroporto.

Permanecendo sentado enquanto os restantes passageiros abandonam o avião, Henrique deixa-se ficar propositadamente para o fim.

– Então, doutor, não quer sair? – Diz-lhe Luísa com um sorriso encantador, debruçada sobre o banco em frente.

– Não o podia fazer sem a ver novamente.

– A sua esposa não aprovaria esta conversa, pois não? – Lança-lhe, provocadora, a hospedeira enquanto lhe mira a mão esquerda.

Instintivamente, Henrique cerra a mão enquanto tropeça nas palavras.

– Não... Não me entendeu bem...

– Se vai fingir que não é casado, tire a aliança e deixe ao menos passar alguns dias para a marca na pele desaparecer... Em nome da TAP espero que tenha apreciado o voo e que tenha uma boa estadia em Moçambique, esperamos contar com a sua preferência num futuro próximo.

– Está equivocada! Apenas pretendia saber se há alguma atualização em relação aos ataques...

– Não há qualquer dado adicional. – Responde friamente Luísa enquanto lhe entrega a bagagem de mão e o acompanha até à saída.

Ao transpor as portas da aeronave, África dá de imediato as boas vindas ao recém-chegado, saudando-o com um bafo quente e húmido que se entranha na pele e nunca se esquece. Cumpridos os trâmites fronteiriços sem delongas de maior, um táxi aguarda para o conduzir àquela que será a sua residência durante a adaptação a esta realidade, quase esquecida, agora revivida. Uma profusão de estímulos atinge-o através dos cinco sentidos, o sol quente na pele, o cheiro a terra molhada que uma forte mas curta chuvada deixou pungente no ar, o travo amargo que o cigarro oferecido pelo motorista lhe deixa na boca e ainda a loucura e cacofonia provenientes do trânsito, que lhe invadem os ouvidos e os olhos. O trânsito deixa-o atónito... Condutores, com pouco ou nenhum respeito por sinais ou prioridades, parecem participar numa corrida desenfreada, à qual se juntam machibombos18 putrefactos, tchopelas19 serpenteantes, Toyotas Hiace rebentando pelas costuras de passageiros e carrinhas de caixa aberta carregando gente como se de gado se tratasse, veículos que o taxista diz chamarem-se vulgarmente de “chapas” e de “my love”, respetivamente. Henrique conclui que os nomes são apropriadíssimos, ao ver homens e mulheres espalmados uns contra os outros, colidindo vez após outra ao sabor da condução aparentemente suicida. Se a tudo isto juntarmos os pedestres que atravessam as faixas de rodagem em qualquer lado, já que ninguém parece respeitar as passadeiras, estaria encontrada a fórmula para a desgraça... Contudo, tudo parece fluir...

A anarquia incomoda-o, mas o que o choca realmente é o lixo espalhado pelas ruas, os passeios desfeitos e tomados de assalto pelos carros, o cheiro nauseabundo a fossa que, aqui e ali, já se sobrepõe ao aprazível aroma antes deixado pela chuva, e as crianças que, ainda tão pequenas, já vagueiam sozinhas de mão estendida. Porém, interpelando o condutor, rapidamente percebe que tudo isto que o perturba é considerado normal entre os locais.

Conforme se vão aproximando da parte nobre da cidade, a realidade vai-se, contudo, alterando ou talvez suavizando... Facto facilmente comprovado pelas embaixadas, que se seguem umas às outras, e pela rotunda bem tratada em que desemboca na grande avenida repleta de palmeiras. Rotunda que, por sua vez, permite chegar a outra grande avenida: a desejada Julius Nyerere. As estradas e os passeios largos com árvores e jardins cuidados, ladeados do lado direito por enormes vivendas e do lado esquerdo por um muro branco, intercalado por guaritas, dão a sensação de se estar num outro mundo, bem diferente daquele que o médico viveu e sentiu há poucos minutos e quilómetros atrás.

O taxista informa-o que o longo muro circunda e delimita o recentemente construído palácio da presidência e que no passeio adjacente ninguém pode circular, informação corroborada por um sinal circular de contorno vermelho com uma figura masculina de chapéu ao centro, sinal ao qual se segue um outro, proibindo a captação de qualquer tipo de imagem. Uma fortaleza que se quer inexpugnável. O soberano nacional inalcançável, intocável, separado do povo que o elegeu.

Distraído com os seus pensamentos, o cirurgião apenas se apercebe que a viatura já chegou ao destino quando um prestável porteiro lhe abre a porta, facilitando-lhe a saída. Tem diante de si a “Grande dama de África”, nome pelo qual é conhecido o majestoso edifício colonial que alberga o Hotel Polana. Inaugurado nos anos vinte do século vinte, é desde então um símbolo da cidade, sendo reconhecido por décadas como um dos melhores, senão o melhor hotel do continente africano. Encantou e encanta reis, embaixadores, presidentes, celebridades e simples viajantes que ali tiveram e têm a oportunidade de ficar hospedados. Henrique é um desses felizardos, que, já de malas desfeitas e banho retemperante tomado, decide explorar o hotel e, quem sabe, tomar uma bebida junto à belíssima piscina exterior, enquanto espera que alguém da delegação médica, da qual fará parte, o contacte.


Enquanto tudo isto, Beatriz espera por um sinal de vida do seu marido, um telefonema a confirmar que chegou ao destino sem problemas...

Corridas as horas, resiste a tomar a iniciativa de ser ela a ligar-lhe.

– Palavras, leva-as o vento, Henrique, palavras, leva-as o vento... Mas nem a uma palavra tua eu tenho direito... – Conclui amargurada.





XVIII


Estremunhado, Salvador procura o telemóvel que caiu da estreita cama durante as mil e uma voltas que deu durante a noite em busca do sono ausente. Tateando avidamente o chão frio, acaba por encontrá-lo, fazendo cessar o som irritante e repetitivo do toque e trocando-o pela voz saudosa de Filipe.

– Então, primo, ainda a dormir?

Com a boca seca, de língua enrolada e voz gutural, Salvador responde arrastando as palavras.

– Sim... Fiquei toda a noite a pensar no que terias para me dizer. Quando finalmente adormeci já o dia raiara há um bom par de horas.

– Tinhas bons motivos para estar ansioso com as novidades. – Afirma Filipe, sendo percetível em cada palavra que profere o enorme sorriso que lhe ilumina o rosto.

– Desembucha lá, estás a matar-me de curiosidade!

– Hehehe, é justo, é justo. Um destes dias conheci um senhor aqui no barco, amigo de longa data do comandante e que, como tal, tem-se sentando connosco na mesa de honra na maioria das refeições. Numa das várias conversas que fomos tendo, já nem sei bem como, acabei por falar-lhe de ti e do teu percurso de vida. Infelizmente o senhor já estava demasiado familiarizado com alguns dos problemas que tiveste no passado, pois perdeu tragicamente o único irmão com uma overdose, meses depois de ter completado um programa de desintoxicação. Ontem, enquanto me dirigia à ponte para começar a minha escala de serviço, interpelou-me com uma sugestão, ou melhor, uma questão. É essa mesma questão que te coloco. Estás disposto a partilhar a tua experiência de vida e tentar orientar jovens que possam ceder à tentação, à curiosidade, à pressão de pares?

A chamada emudece então por alguns segundos, enquanto toda aquela informação é processada. Filipe aguarda pacientemente enquanto o silêncio se vai prolongando... Desfeitas as dúvidas e os receios que pesam na decisão, Salvador quebra o silêncio:

– Sim, claro que sim! Mas como?

– O senhor de que te falei gere as oficinas de S. José, da fundação dos Salesianos em Lisboa, e oferece-te um lugar na instituição como monitor. Se estás interessado, só tens de te apresentar na escola terça-feira às nove horas, estará alguém à tua espera.

– Lá estarei! Não... Não sei como te agradecer...

– Não irás ganhar muito de certeza, mas poderás sempre conciliar com a pesca.

– O dinheiro não é importante, primo, sabes bem que vivo com pouco. Obrigado, muito obrigado! Espero por algo assim há tanto tempo...

– Não me agradeças, tu mereces a oportunidade. Todos cometemos erros. Tu cometeste vários, mas tens um coração enorme e é isso que deves mostrar às pessoas.

– Vou deixar-te orgulhoso, prometo.

– Eu já tenho orgulho em ti, seu idiota! – Atira, jocoso, Filipe em jeito de despedida. – Tenho de descansar agora. Um abraço! Depois dizes-me como correu tudo.

– Bom descanso! Grande abraço, comandante!

Finda a chamada, Salvador deixa o corpo disperso pelo vale branco dos lençóis, fitando o teto enquanto a mente fervilha entre passado e futuro, entre pecado e redenção. Redenção, a oportunidade de redimir os erros do passado, garantindo, com o seu exemplo e testemunho, o presente e o futuro de jovens sujeitos às mesmas tentações que fizeram ruir tantos dos seus sonhos.

É deste modo, com o olhar brilhando de esperança, que anseia pelo passar do dia... Amanhã, por aquela hora, dará início a uma nova vida.



XIX


Reunidos todos os elementos da cooperação militar portuguesa em Moçambique, um burburinho preenche a sala enquanto aguardam pelo superior hierárquico. À entrada do adido militar, o coronel piloto aviador António Melo, todos os elementos se levantam em uníssono, saudando-o em sentido com a sua melhor continência.

– À vontade, senhores, façam o favor de se sentar. Todos têm acompanhado a evolução do conflito armado entre a RENAMO e as forças de segurança do Estado, que conduziu ao corte da circulação em várias estradas e a dezenas, senão centenas, de mortes até ao momento. Ao conflito armado, acrescenta-se agora uma emergente crise social resultante da desvalorização do metical20 e da omissão de mais de um bilião de dólares de dívida pública por parte do governo, que levou ao corte de financiamento por parte dos parceiros internacionais. Aqui, em Maputo, apenas sentimos a inflação descontrolada dos preços, mas posso assegurar-vos que no centro e norte do país já faltam bens de consumo nas prateleiras dos supermercados. Perante este cenário, ontem, em reunião com o Sr. Embaixador e o Sr. Cônsul, concluímos que devem ser tomadas ações preventivas e delineado um plano de ação em caso de levantamento popular ou de o conflito armado se generalizar às principais cidades e ao sul do país. Esta, meus senhores, é a nossa missão prioritária e será cumprida sem delongas! O capitão irá criar e articular os grupos de trabalho que entender necessários, dando-me a conhecer os resultados e conclusões no espaço de quinze dias – Afonso acena afirmativamente com a cabeça. – Até ordem em contrário, não é permitido que se ausentem de Maputo. Têm alguma questão? Não? Muito bem, estão dispensados.

Todos os militares se levantam seguindo o exemplo do coronel, prestando-lhe continência. Um burburinho volta a inundar a sala assim que o oficial superior franqueia a porta. Afonso rapidamente estipula e organiza grupos de trabalho para fazer um levantamento de pontos de reunião, rotas de extração e necessidades materiais de transporte e segurança nas cidades de Maputo, Beira e Nacala. Ele próprio será o elemento de ligação aos serviços consulares e às forças de segurança moçambicanas.

Ao sair para a rua, a cidade continua no seu bulício habitual. Nada transparece a espiral negativa que arrasta e afunda o país, dia após dia, conduzindo o povo em direção ao abismo. Os ardinas continuam nos semáforos exibindo as capas dos jornais, capas que invariavelmente retratam a guerra, que ainda não o é, oficialmente, ou as dívidas escondidas que destruíram a credibilidade do país. A polícia da república de Moçambique (vulgo “cinzentinhos”) continua a patrulhar ruas e estradas munida de AK-47, com agentes, na sua maioria corruptos, que fecham os olhos a infrações por um punhado de meticais ou pedem “refresco”21 mesmo quando os incautos condutores ou transeuntes não prevaricam. O comércio informal continua a decorrer em praticamente qualquer esquina, com a venda de milho assado, pão com badjia22, flores, óculos de sol, telemóveis, CDs, artesanato, roupa e sapatos que outros países enviam para ajudar nas calamidades... O canto melodioso de xiricos23 numa acácia próxima capta a atenção de Afonso. Indiferente aos dramas do Homem, a vida continua...





XX


Após permanecer alguns dias no Hotel Polana enquanto a restante equipa não chegava, Henrique foi transferido para uma vivenda do tempo colonial na Avenida Kenneth Kaunda que partilha agora com os especialistas ingleses e franceses que, tal como ele, irão permanecer cerca de um ano em Moçambique. Estes médicos-cirurgiões exercem no ICOR, uma instituição privada sem fins lucrativos com o apoio de quatro organizações não-governamentais europeias, na qual cerca de noventa por cento das operações realizadas tem como destinatário a população carenciada, não acarretando qualquer custo para o paciente.

Passadas algumas semanas desde a sua chegada a Maputo, Henrique começa a ambientar-se à nova realidade. Mas o choque inicial foi imenso. Ao ser confrontado com os dados estatísticos da saúde em Moçambique, teve receio que a sua presença no país fosse irrelevante. Com cerca de vinte e seis milhões de habitantes, dezoito milhões vivem em pobreza absoluta e onze por cento da população é portadora de VIH, ocorrendo cerca de trezentas e vinte novas infeções diárias. Tudo isto se materializa na terceira esperança média de vida mais baixa de África, pouco mais de cinquenta e dois anos. Se a estes dados juntarmos as condições laborais do melhor hospital público do país, o Hospital Central de Maputo, que chegou a ser considerado o melhor hospital da África Austral quando ainda se designava por Hospital Miguel Lombarda, mas que hoje não consegue dar resposta às necessidades dos utentes, com doentes internados no chão e outros tantos misturados em cima de colchões, independentemente da patologia que os afeta, com centenas à espera de serem atendidos e com um ridículo orçamento anual de quinhentos milhões de meticais que se traduz em pouco mais que cuidados paliativos... Que influência pode ter um punhado de médicos estrangeiros? Contudo, cada agradecimento, cada tratamento é um grito de esperança contra o desespero, contra a indignidade da miséria humana, um raio de luz que teima em combater o negrume da morte.


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