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Sob um céu de diamantes

D. Murad

Copyright © 2017 – Todos os direitos reservados por Dandara Murad. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem a autorização por escrito da autora.

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Sob um céu de diamantes: Um conto de “Depois de tudo”


Sábado à noite, dia oficial dos encontros, e eu estou uma pilha de nervos. Convidei a menina mais bonita da escola para jantar, e ela disse sim. Bom, não foi exatamente desse jeito, todo descomplicado e sem um pingo de incerteza. A verdade é muito mais cheia de detalhes.

Foi ainda essa semana, na quarta-feira, quando nos reunimos depois da aula para discutir os filmes que recomendaríamos no portal de notícias da escola. Mas essa não foi a parte diferente, o que finalmente fez com que eu agisse e desse voz ao que estava me consumindo havia algum tempo. Naquela quarta-feira, Diana entrou na sala de informática depois do horário que combinamos, e parecia preocupada com alguma coisa. Ela se sentou na cadeira ao lado da minha, em frente a um dos computadores da sala, e deixou a mochila escorregar de seus ombros até o chão. A mochila tinha um rasgo bem grande no fundo, e Diana me contou que sua mãe a havia costurado e remendado com um retalho da mesma cor por dentro. Até me mostrou o resultado, orgulhosa do trabalho de sua mãe, como se aquilo fosse uma cirurgia de peito aberto, e não uma mochila rasgada. Aquela garota me intrigava e me encantava, tudo ao mesmo tempo.

Decidi não perguntar o que havia acontecido. Não nos conhecíamos há muito tempo, e eu sabia que ela me diria se fosse algo importante. Tentei usar meu humor para distraí-la, minha tática favorita para chamar sua atenção. Eu sabia que ela era extremamente curiosa, então fingi que havia lido algo interessante na tela do computador, só para chamar atenção. E para se vingar da peça que eu preguei, Diana me surpreendeu com seu lado mais audacioso, enchendo a gola do meu uniforme com bolinhas de papel. Meus ouvidos ainda se lembram das risadas, mesmo que o monitor da sala de informática tenha nos levado para a diretoria por conta de toda a bagunça.

Nenhuma bronca valeria tanto a pena.

Depois que limpamos a sujeira deixada na sala, fomos andando até o ponto de ônibus. Era um fim de tarde frio demais para outubro, e Diana tremia enquanto esfregava os braços para tentar gerar um pouco de calor. Apesar da jaqueta do uniforme, dava para ver que as pontas de seus dedos estavam ficando meio roxas.

Eu me sentei ao lado dela no banco comprido do ponto de ônibus e abri minha mochila. Ela ainda envolvia o corpo com os braços e se movia para frente e para trás, a cabeça virada na direção em que os carros vinham. Eu me senti um pouco desanimado ao ver sua ansiedade para que o ônibus chegasse, mas talvez aquilo tivesse mais a ver com o frio do que com estar sozinha na minha presença. Eu é que deveria estar nervoso, não ela, afinal, Diana poderia achar que eu era só um garotinho do primeiro ano acompanhando a garota mais velha até o ponto de ônibus. Eu não tinha a menor chance.

Tirei de dentro da mochila meu cachecol azul favorito, e, em um misto de coragem e inconsequência, o estendi diante de seu rosto corado pelo vento frio. Diana abriu um sorriso tão grande, que desejei ter feito isso muito antes. Ela pegou o cachecol das minhas mãos e o segurou entre seus dedos como se a lã fosse preciosa, e então o enrolou com cuidado ao redor do pescoço. Fiz menção de ajudá-la a tirar os cabelos castanhos de dentro do cachecol, mas ela balançou a cabeça e disse que assim ficaria mais quentinho.

Um ônibus virou a rua e eu me levantei para dar o sinal. Era o ônibus de Diana, e eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mesmo que o meu aparecesse primeiro, ainda assim eu ficaria ali esperando, pois logo escureceria. Ela se levantou e passou a alça de sua mochila pelo ombro, e por algum motivo aquilo me pareceu incompleto. Era como se algo estivesse faltando, e chamei seu nome no último instante, antes de ela entrar no ônibus.

Diana se virou para mim, um pé no primeiro degrau, e perguntou o que era. Eu podia jurar que seu rosto estava tomado de expectativa, mas talvez isso fosse apenas o que eu gostaria de ver. Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas. Nem eu mesmo sabia o que ia dizer, mas, naquele momento, fui tomado por um impulso e gritei a primeira coisa que me veio à mente:

“Quer jantar comigo no sábado?”

As sobrancelhas de Diana subiram quase até encontrarem o couro cabeludo, e algumas risadinhas vindas do ônibus me fizeram perceber que eu havia feito o convite alto demais. Senti minhas bochechas esquentando e levei uma das mãos à nuca em um gesto ansioso. Talvez aquilo tivesse sido muito precipitado, ou talvez Diana nem me visse daquela forma. Eu estava quase me arrependendo de ter perguntado, quando ela afastou o cachecol azul da boca e disse que adoraria jantar comigo no sábado. Em um volume bem mais baixo, é claro.

O alívio tomou conta de mim, e sorri acenando enquanto ela entrava no ônibus. Nem liguei para as pessoas que se amontoavam nas janelas para me ver, pois tudo o que me importava era aquele sim. Bom, isso e como ela ficou linda usando o meu cachecol.

Voltando para o presente, percebo que não tenho a menor ideia do que fazer. Devo levá-la a algum lugar interessante ou preparar eu mesmo o jantar? Monetariamente falando, talvez seja melhor fazer algo aqui em casa mesmo. O único problema é que eu não sei cozinhar. Não acerto nem ferver água, imagine preparar uma refeição inteira digna de primeiro encontro?! Até mesmo essas palavras fazem meu estômago se contorcer em borboletas, e engulo em seco na esperança de controlá-las.

Entro na cozinha e começo a abrir e fechar as portas dos armários em busca de inspiração, mas a coisa mais interessante que encontro é pipoca de micro-ondas. E não tem como fingir que pipoca é algo mais do que último caso, no máximo um lanchinho, se por acaso decidíssemos assistir a um filme. Mas filmes são opções para próximos encontros, e eu preciso de algo para um primeiro.

— Está procurando alguma coisa? — Minha mãe aparece atrás de mim, e eu quase salto para fora do corpo com o susto. Fecho rapidamente a porta do armário que eu estava vasculhando e me viro para fitá-la.

Minha voz sai mais derrotada do que planejei.

— Opções. Eu convidei uma garota para jantar, mas não tenho a menor ideia do que fazer. — Sinto meus ombros caírem em um gesto patético.

Minha mãe cruza os braços diante do peito e sorri, o que faz com que minhas bochechas esquentem de vergonha. A maioria das pessoas não conta as coisas para os pais, mas na nossa família não temos esse tipo de segredo. Minhas irmãs e eu sempre contamos as coisas uns para os outros, mesmo assim, essa não deixa de ser uma situação um pouco embaraçosa.

— E ela vai vir aqui? — minha mãe pergunta. Balanço a cabeça afirmativamente. Na verdade, não cheguei a confirmar exatamente os planos com Diana, mas ainda tenho algumas horas e posso mandar uma mensagem pedindo para que ela venha até aqui. — Que tal cozinharmos alguma coisa simples? Ninguém precisa saber que eu te ajudei...

Sorrio aliviado e minha mãe começa a tirar panelas e outros utensílios que eu desconheço de dentro dos armários, colocando-os sobre a bancada da cozinha. Já sei que a aula vai ser mais complicada do que eu imaginava...

Quando terminamos, tenho certeza de que minha mãe trabalhou muito mais do que eu, mas o resultado vale a pena. Temos uma panela repleta de macarrão cozido com manteiga e outra com molho vermelho feito com tomates de verdade. Nada de molho industrializado para ocasiões importantes, minha mãe disse enquanto descascava os tomates maduros. Eu acho que só saberei a diferença quando experimentar, mesmo.

Depois de ajudar a arrumar a cozinha, subo até o meu quarto e vejo uma mensagem de Diana no meu celular. Ela queria saber quais eram os planos, e se tínhamos planos de fato. Não consigo me conter e aperto o botão de discagem rápida. Ela atende ao primeiro toque.

— Ben? — sua voz parece incerta, e eu me lembro com uma careta que ela não gosta de falar ao telefone. Comecei bem.

— Ah, oi! — eu respondo, levando uma mão automaticamente para remexer os cabelos em minha nuca. Camila, minha irmã mais velha, sempre caçoa do comprimento do meu cabelo, ela diz que eu posso muito bem entrar para uma boy band se não decidir cortá-lo logo.

— Está tudo bem? — Diana pergunta, e eu me lembro do motivo de ter ligado.

— Tudo bem, claro! É... — começo, mas as palavras fogem. Que raios eu estou fazendo? Consigo falar com ela pessoalmente como nunca consegui com mais ninguém, e agora sinto como se eu tivesse esquecido o alfabeto inteiro. — E-eu...

Ela ri, e o som familiar acalma meus nervos. Essa é a garota que eu vejo quase todos os dias, e tenho certeza de que sei boa parte de seus pontos fracos. Sei que ela rói as unhas quando está nervosa, sei que adora ler uns livros bobos durante as aulas de que não gosta, sei que fala o tempo todo de seu poodle, e sei que tem umas amigas estranhas que a maltratam. O último fato ela provavelmente não sabe que eu sei, mas não sou cego, embora saiba que esse é um assunto proibido.

Não tenho motivos reais para estar tão nervoso, mas quem vai explicar isso para as borboletas inquietas dentro do meu estômago? E para as glândulas sudoríparas descontroladas nas palmas de minhas mãos? Nessas horas, a razão simplesmente não basta.

— Você... O quê? — ela indaga, tentando me ajudar.

Respiro fundo, cheio de determinação, e as palavras que saem passam umas por cima das outras na pressa de chegarem logo até Diana.

— Eu fiz o jantar, então você precisa vir aqui. Quer dizer, você deve vir aqui. Não, não deve, mas pode. Se quiser. — Nem eu mesmo entendo o que quero dizer, então é uma surpresa para mim quando ouço o riso de Diana mais uma vez. Ainda bem que ela acha minha falta de jeito divertida, pelo menos.

— Claro! — ela diz, e respiro aliviado. — Que horas você quer que eu chegue?

Olho para o relógio de parede pendurado sobre a porta do quarto.

— Sete horas é ruim?

Minha voz sai mais calma e não embaralho as palavras dessa vez, felizmente.

— Não, tudo bem! Só me passe o endereço por mensagem, por favor. — Ela responde. Sorrio para o telefone como se tivesse acabado de descobrir que na semana que vem tem feriado.

Nós nos despedimos rapidamente e eu mando o endereço de casa logo depois de desligar o telefone. Minhas borboletas estomacais ainda estão enlouquecidas, e parecem voar cada vez mais rápido conforme os ponteiros do relógio se aproximam das sete horas. Ainda tenho uns quarenta minutos para me arrumar e pensar no que vamos fazer. Isso me lembra de que não tenho a menor ideia de onde vai ser o jantar, e desço as escadas pulando os degraus de dois em dois até chegar à sala.

Meus pais estão assistindo televisão com Jéssica, minha irmã mais nova. Ela está com a cabeça deitada no colo de minha mãe, quase dormindo, e essa é uma visão promissora, afinal, não quero que ela fique perturbando a gente depois. Sei que não vamos realmente ter privacidade com meus pais em casa – e a Jéssica, que tem só seis anos –, mas eu gostaria de poder manter essa ilusão.

— Eu arrumei a mesa do jardim para vocês — minha mãe diz, me tirando do transe e respondendo a pergunta que eu nem havia feito ainda. — As luzes ficam bonitas lá fora, à noite.

— Boa ideia! — respondo, e espio nosso jardim pela janela. A casa não é das maiores, mas o jardim sempre foi um dos meus lugares favoritos. Eu gostava tanto de ficar lá fora à noite, observando as estrelas, que ganhei um telescópio de Natal alguns anos atrás de meu avô. O telescópio ficava no meu quarto, sobre a escrivaninha, e às vezes era possível espiar o céu mesmo de lá. Mas o legal mesmo era colocá-lo bem no meio da mesa de piquenique, sem a limitação de uma janela ao redor.

A mesa de madeira está coberta por uma toalha redonda, deixando os cantos expostos. Minha mãe colocou pratos, copos e talheres sobre a mesa, e outra toalha menor por cima, para proteger tudo. Várias luzinhas salpicam os arbustos e árvores, e a decoração iluminada faz parecer que temos nossa galáxia particular.

Termino de me arrumar em tempo recorde, mas Jéssica é muito mais rápida e chega à porta instantes depois da campainha. Eu a vejo abrir a porta de onde estou, no topo da escada, e ela fica olhando para Diana por um bom tempo antes de dizer alguma coisa. Admito que eu estaria na mesma situação se fosse ela, porque aquela definitivamente não é a mesma Diana que eu conheço da escola.

— Oi, qual é o seu nome? — Diana pergunta, e Jéssica mostra o número seis com os dedos. Aquilo é tão engraçado que não consigo conter a risada, revelando minha localização, e as duas olham para mim.

— Hã... Essa é a Jéssica — eu digo, descendo as escadas e tentando não tropeçar nos meus próprios pés. Não é uma tarefa fácil quando as malditas borboletas parecem querer ensaiar um concerto de rock dentro do meu estômago.

Jéssica dá dois passos para o lado e puxa uma das mãos de Diana para que ela entre. Minha irmãzinha, que nunca fica quieta, está absolutamente muda, e, se eu estivesse em condições, guardaria o momento para a posteridade. Ou pelo menos para a próxima ocasião em que precisasse usar chantagem contra ela.

— Oi, Jéssica! Meu nome é Diana — diz, e em seguida abaixa para ficar na mesma altura de minha irmã. Jéssica coloca um dedo na boca e fica só observando a garota diferente que está bem diante de si. Se eu não a conhecesse bem, diria que tinham trocado minha irmãzinha por outra criança parecida.

Sua expressão séria se desfaz por um momento e ela comenta:

— Ben tem um cachecol azul igual a esse.

Diana sorri e acaricia a lã em seu pescoço com a ponta dos dedos de maneira carinhosa, mas eu consigo ver que suas bochechas estão rosadas.

— Eu peguei emprestado porque estava com muito frio — Diana responde, e seus olhos se voltam para mim. Sei que é a deixa para eu interromper e chamá-la para ir lá fora, conforme o planejado, mas não consigo me mexer. A garota à minha frente não faz sentido, não consigo encaixar sua imagem com a Diana que estou acostumado a ver quase todos os dias.

Primeiro, eu nunca a tinha visto de vestido antes. Esse é de mangas longas, de um tecido cor de chumbo que parece aquecê-la, e tem botões redondos na frente. Além disso, ela está usando meia-calça preta de lã e sapatilhas, e eu nunca pensei que fosse ver Diana com qualquer outra coisa que não fossem jeans. E para piorar tudo, meu cachecol azul repousa sobre seus ombros como se ali fosse seu lugar de direito, e agora eu começo a considerar seriamente jamais pegá-lo de volta.

Acho que ela percebe que estou parado como uma estátua, porque pigarreia suavemente para me tirar do transe. Mas como sou um bom observador, não deixo de reparar que não sou o único ali que está surpreso, e um pouco nervoso. Diana leva uma das mãos aos cabelos e empurra uma mecha para trás da orelha, em um gesto que eu já conheço muito bem.

Meu pai escolhe exatamente este momento para aparecer no topo da escada, mas não reservo para ele nada além de profunda gratidão quando chama Jéssica para assistir televisão no quarto com eles. E então estamos a sós, afinal.

— Casa legal! — Diana comenta enquanto eu fecho a porta. Agora que estamos a poucos passos de distância, vejo que ela está usando batom. Não consigo perceber nenhum outro sinal de maquiagem em seu rosto, mas os lábios vermelhos como cerejas capturam meus olhos de tal forma que tenho certeza que ela percebe. Eu devo realmente parecer um maluco!

— Eu arrumei o jantar lá fora — digo, e ela me segue em direção à porta que leva ao jardim. E como estou olhando para ela durante todo o percurso, acabo esbarrando na estante da sala e derrubando alguns objetos no chão. Ainda bem que viver com uma garotinha de seis anos ensinou minha mãe a não ter nada quebrável pela casa.

Dentre os objetos que derrubei, Diana pega uma lanterna e tenta acendê-la, sem sucesso.

— Acho que está sem pilhas — comenta, e a entrega para mim. Eu coloco tudo de volta na estante, meio de qualquer jeito, e presto mais atenção no resto do caminho até o jardim.

Quando abro a porta de correr, escuto a exclamação surpresa de Diana. Aquilo faz um pouco da minha confiança voltar depois do fiasco anterior, e fico bem orgulhoso do que minha mãe e eu conseguimos arrumar ali.

— Isso é... Tão lindo... — ela sussurra, e não sei se está falando comigo ou consigo mesma. Seus olhos varrem o ambiente iluminado de um lado para o outro, como se não pudessem parar por muito tempo em um lugar só. E, para falar a verdade, até eu consigo ver que nos superamos. O jardim parece um cenário saído de um dos filmes que eu sei que Diana gosta, e ela deve estar pensando exatamente a mesma coisa.

— Está com fome? — pergunto, indicando a mesa. Faço uma pequena careta quando vejo que minha mãe deu um jeito de colocar um vasinho com algumas flores coloridas sobre a toalha, mas Diana não percebe.

— Um pouco — ela responde, espiando as panelas e utensílios. — Foi você quem fez?

— Com a ajuda de minha mãe — respondo meio sem jeito, e nos sentamos.

Diana escolhe se sentar ao meu lado, já que a mesa é comprida, o que me enche de expectativa. As borboletas ainda estão voando enlouquecidas pelo meu estômago, mas agora a sensação é quase reconfortante. Elas parecem se acalmar um pouco quando inspiro e sinto o perfume de Diana, uma combinação doce e suave, e imagino se meu cachecol está com aquele cheiro agora.

— Fizeram um belo trabalho! — Ela sorri para mim.

Decido servir o prato de Diana primeiro, então coloco um pouco de macarrão e derramo uma concha de molho por cima. O cheiro é tão bom que faz com que meu estômago ronque de fome, mas nós o ignoramos. É muito fácil passar o tempo com ela, e eu me surpreendo por ter me esquecido disso. Logo, toda a estranheza do início se esvai, e eu nem me lembro mais do motivo de estar tão nervoso. Conversamos sobre tudo, nossas vozes ecoando pelo jardim e fazendo parecer que somos as únicas pessoas no mundo. As luzes que decoram as plantas refletem em seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais, e eu me pego pensando em como Diana está linda.

Ela parece feliz, ou assim espero, e se abaixa rapidamente para pegar a mochila do chão. Aquilo me assusta um pouco, porque eu não quero que ela vá embora tão cedo. Ainda nem terminamos de comer, e sinto como se tivéssemos tanto assunto para conversar... Ela coloca a mochila surrada sobre as pernas e vasculha seu interior, procurando alguma coisa. Na pressa de tirar a caixa de sapatos de dentro, alguns objetos caem. Quando vou ajudá-la a recolhê-los, encontro o batom vermelho que roubou minha atenção para sua boca. Ela cora de um jeito adorável e o guarda novamente, colocando a caixa de sapatos no banco de madeira entre nós.

Não sei se estou quebrando o momento, mas decido perguntar mesmo assim:

— O que tem aí dentro?

— Só uma coisa que eu trouxe para você — responde com simplicidade e um dar de ombros, mas vejo seus dedos tremerem quando abre a tampa da caixa.

Dentro, encontro um montinho de lã azul-escura, mais escura do que a lã do meu cachecol emprestado. A textura é macia sob meus dedos, e ao desenrolar o amontoado de lã, encontro um novo cachecol. Os pontos estão espaçados e alguns são meio diferentes dos outros, mas ainda assim me parece perfeito.

— Você que fez? — pergunto. Ela assente com a cabeça. Suas bochechas estão cada vez mais vermelhas, e eu sorrio em sua direção.

— Como eu fiquei com o seu, pensei que... Não sei. Eu só quis fazer algo para você — ela completa meio sem jeito, mas não estou mais prestando atenção.

Na verdade, estou pensando em como eu nunca havia prestado atenção antes. Eu a vejo quase todos os dias, passamos muito tempo juntos discutindo notícias e preparando textos para o portal online da escola, mas quando a vejo ali, bem na minha frente, iluminada pelas várias luzinhas que decoram meu jardim... Eu sei.

É como um daqueles momentos nos filmes em que tudo finalmente se encaixa e faz sentido, o auge, a parte em que a música instrumental é quase ensurdecedora na trilha sonora. Nos filmes de ação, é a grande batalha. Mas olhando para as bochechas rosadas de Diana e seus lábios pintados de vermelho, eu sei que não estou vivendo em um filme de ação. Sem pensar muito, me inclino para frente e a surpreendo encostando nossos lábios em uma carícia suave.

Não fecho meus olhos, e vejo que ela também não. Seus olhos escuros e redondos que tanto me encantam se arregalam com o susto, e eu sinto que ela quase se afasta. Recuo alguns centímetros só para dar a ela a escolha, se assim quiser. Nossos narizes se tocam e Diana sorri, mas não se distancia. O pequeno contato, a proximidade, é quase tão bom quanto o beijo.

Quando nos afastamos, ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha só para ter o que fazer com as mãos, e sei que está nervosa tanto quanto sei sobre as borboletas no meu estômago. Mas agora elas estão satisfeitas e planam entre minhas costelas com a calma de um dever cumprido. Eu tenho um sorriso bobo no rosto, mas é impossível evitar. Acabo de conseguir exatamente o que nem sabia que eu queria tanto, e a sensação é incomparável.

Diana olha para mim com os olhos refletindo as luzinhas do jardim, e eu sei que vou me lembrar do seu rosto por toda a minha vida, independente do que acontecer a partir dessa noite. Pode parecer clichê, mas é a mais pura verdade. Eu não sei o que vai acontecer nas próximas semanas ou meses, e muito menos nos próximos anos, mas, nesse momento, sei que a garota que conheço há tão pouco tempo é a coisa mais importante sob o céu estrelado, e que meu coração será seu por todo o tempo que ela quiser.

Considerações finais...


Querido(a) leitor(a),


Obrigada por chegar até aqui! Esse conto é “prequel” de uma história maior, chamada “Depois de tudo”. Aconselho fortemente que você a leia para conhecer um pouco mais sobre esses dois, e o que acontece com eles depois do ensino médio.

Estou tão agradecida por você estar aqui, que disponibilizarei gratuitamente um e-book inédito. É só clicar bem aqui.


Com amor,


D. Murad

Leia “Depois de tudo”, a continuação da história de amor entre Diana e Benjamin 10 anos depois...



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