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Excerpt for Tempestade de Guerra by , available in its entirety at Smashwords

Capítulo um

Mare


FICAMOS EM SILÊNCIO POR UM LONGO MOMENTO.

Corvium se estende à nossa frente, cheia de gente, mas parecendo vazia.

Dividir e conquistar.

As consequências estão claras, as linhas foram nitidamente desenhadas. Farley e Davidson me encaram com a mesma intensidade, e eu os encaro de volta.

Imagino que Cal não tenha ideia, nem uma suspeita, de que a Guarda Escarlate e Montfort não têm a menor intenção de deixar que permaneça em qualquer trono que assumir. Imagino que se importa mais com a coroa do que com o que qualquer vermelho pensa. E imagino que não devo mais chamá-lo de Cal.

Tiberias Calore. Rei Tiberias. Tiberias VII.

É o nome que recebeu ao nascer, o nome que usava quando o conheci.

Ladra, ele me chamou então. Esse era o meu nome.

Queria poder esquecer a última hora. Voltar só um pouco atrás. Vacilar. Hesitar. Desfrutar por mais um segundo da estranha paz de sentir apenas a dor dos músculos cansados e dos ossos reparados. O vazio depois da adrenalina da batalha. A certeza de seu amor e de seu apoio. Mesmo com o coração partido, não consigo odiá-lo por sua escolha. A raiva virá depois.

A preocupação passa pelo rosto de Farley. A expressão não combina com ela. Estou mais acostumada à determinação fria ou à raiva vermelha vindas de Diana Farley. Sei que nota meu olhar pelo leve retorcer de sua boca marcada por uma cicatriz.

— Vou transmitir a decisão de Cal ao resto do Comando — ela diz, quebrando o silêncio tenso. Suas palavras são baixas e calculadas. — Só o Comando. Ada vai levar a mensagem.

O primeiro-ministro de Montfort assente.

— Muito bem. Acho que os generais Batedor e Cisne já devem ter uma ideia dos acontecimentos. Estão acompanhando a rainha Lerolan desde que se tornou parte do jogo.

— Anabel Lerolan ficou na corte de Maven por algumas semanas, o que é bastante — digo. De alguma forma, minha voz não vacila. As palavras saem uniformes e cheias de determinação. Preciso parecer forte, mesmo que não me sinta assim agora. É uma mentira, mas uma boa mentira. — Ela deve ter mais informações do que fui capaz de fornecer.

— Provavelmente — Davidson diz, pensativo. Ele estreita os olhos para o chão. Não à procura de algo, mas para se concentrar. Um plano se desenrola à sua frente. O caminho adiante não é fácil. Qualquer criança saberia disso. — E por isso mesmo tenho que voltar para lá — ele diz, quase pedindo desculpas. Como se eu pudesse ficar brava com ele por fazer o que é necessário. — Olhos e ouvidos atentos, está bem?

— Olhos e ouvidos atentos — Farley e eu respondemos em uníssono, surpreendendo uma à outra.

Davidson se afasta, saindo pela viela estreita. O sol reflete em seu cabelo grisalho brilhante. Ele teve o cuidado de se arrumar depois da batalha, para se livrar do suor e das cinzas, substituindo o uniforme manchado de sangue por um limpo. Tudo isso para manter a fachada calma, controlada e estranhamente comum de sempre. Uma sábia decisão. Prateados devotam muita energia à aparência, a ostentar a força e o poder. Principalmente o rei Samos e sua família, na torre acima de nós. Perto de Volo, Evangeline, Ptolemus e da sibilante rainha Viper, Davidson mal é notado. Ele poderia se camuflar nas paredes se quisesse. Não vão vê-lo chegando. Não vão ver nenhum de nós chegando.

Solto um suspiro trêmulo e engulo em seco diante do pensamento que se segue.

Cal tampouco vai.

Tiberias, tento me lembrar. Cerro o punho, enterro as unhas na pele e me satisfaço com a dor aguda. Chame-o de Tiberias.

As paredes escuras de Corvium parecem estranhamente silenciosas e nuas sem o cerco. Desvio os olhos da figura de Davidson se afastando e foco nos parapeitos da ala interna da cidade-fortaleza. A tempestade de neve congelante já passou faz tempo, a escuridão se dissipou, e tudo parece menor agora. Menos opressivo.

Soldados vermelhos costumavam ser reunidos nesta cidade, em geral para marchar para a morte inevitável nas trincheiras. Agora os vermelhos patrulham as muralhas, as ruas, os portões. Sentam-se com reis prateados para falar de guerra. Alguns soldados com cachecóis rubros passam de um lado para o outro, seus olhos incansáveis, armas desgastadas à mão. A Guarda Escarlate não vai ser pega de surpresa, ainda que não tenha muitos motivos para ficar tão alerta. Pelo menos por enquanto. Os exércitos de Maven recuaram. E nem Volo Samos é tão corajoso a ponto de arriscar um ataque de dentro de Corvium. Não quando precisa da Guarda, precisa de Montfort, precisa de nós. Ainda mais considerando Cal — Tiberias, sua tola — e todo o seu papo-furado sobre igualdade. Como nós, Volo precisa dele. Precisa de seu nome, precisa da sua coroa, precisa que case com sua maldita filha.

Meu rosto queima. Sinto vergonha da faísca de ciúme que cresce dentro de mim. Perdê-lo deveria ser a menor das minhas preocupações. Não deveria doer tanto quanto a possibilidade de morrer, de perder a guerra, de que tudo pelo que trabalhamos seja em vão. Mas dói. Tudo o que posso fazer é tentar suportar.

Por que eu não disse sim?

Recuei diante de sua oferta. Me afastei dele. Fui destroçada por outra traição — de Cal, mas também minha. Dizer “eu te amo” é uma promessa. Nós dois a fizemos e nós dois a quebramos. Deveria significar escolho você acima de todo o resto. Te quero mais que tudo. Sempre vou precisar de você. Não consigo viver sem você. Farei qualquer coisa para impedir que nossos caminhos se separem.

Mas ele não a manteve. Eu não a mantive.

Sou menos que sua coroa, e ele é menos que a minha causa.

E muito, muito menos, que meu medo de outra prisão. Consorte, ele disse, me oferecendo uma coroa impossível. Faria de mim sua rainha, se Evangeline pudesse ser deixada de lado de novo. Sei como é estar à direita do rei. Não quero voltar àquela vida. Ainda que Cal não seja Maven, o trono é o mesmo. Muda as pessoas e as corrompe.

Que estranho destino teria sido. Cal com sua coroa, sua rainha Samos e eu.

Apesar disso, uma pequena parte de mim queria ter dito sim. Seria mais fácil. Uma oportunidade de largar tudo, recuar, vencer — e desfrutar de um mundo com o qual jamais poderia ter sonhado. Dar à minha família a melhor vida possível. Manter todos nós a salvo. E ficar com ele. Ficar ao lado de Cal, a garota vermelha de braços dados com um rei prateado. Com o poder de mudar o mundo. De matar Maven. De dormir sem ter pesadelos, de viver sem medo.

Mordo o lábio com força para afastar esse desejo. É sedutor e me faz quase compreender sua escolha. Mesmo separados, somos parecidos.

Farley se movimenta, chamando minha atenção. Ela suspira e apoia as costas na parede do beco, cruzando os braços. Diferente de Davidson, não se deu ao trabalho de trocar o uniforme ensanguentado. O dela, sem poeira ou lama, não está tão nojento quanto o meu. Mas há sangue prateado nele, claro, que secou e parece preto. Faz poucos meses que Clara nasceu, e Farley ostenta a gordura extra na região do quadril com orgulho. Qualquer compaixão que sentisse desaparece, restando apenas a raiva brilhando em seus olhos azuis. Mas não é dirigida a mim.

Farley olha para o alto e para a torre acima de nós. Onde o estranho conselho de prateados e vermelhos tenta decidir nosso destino.

— Era ele lá dentro. — Farley não espera que eu pergunte quem. — Cabelo prateado, pescoço grosso, armadura ridícula. Ainda respirando, mesmo depois de enfiar uma lâmina no coração de Shade.

Minhas unhas se enterram mais ao pensar em Ptolemus Samos. Príncipe de Rift. O homem que assassinou meu irmão. Como Farley, sinto uma explosão de raiva.

Seguida pela vergonha.

— Sim.

— Porque você fez um acordo com a irmã dele. Sua liberdade em troca da vida dele.

— Para me vingar — murmuro, admitindo aquilo. — E sim, dei minha palavra a Evangeline.

Farley mostra os dentes, deixando o nojo evidente.

— Você deu sua palavra a uma prateada. Essa promessa vale menos que cinzas.

— Mas ainda é uma promessa.

Ela solta um ruído gutural no fundo da garganta, como um rosnado. Então endireita os ombros largos e vira para encarar a torre em sua totalidade. Imagino o esforço necessário para se conter e ficar ali em vez de marchar até lá e arrancar os olhos de Ptolemus. Eu não ia impedir se ela o fizesse. Na verdade, puxaria uma cadeira e ficaria assistindo.

Relaxo um pouco os dedos, para aliviar a dor. Em silêncio, dou um passo à frente, me aproximando dela. Após uma fração de segundo de hesitação, toco seu braço.

— Uma promessa que eu fiz. Não você. Ninguém mais.

Farley fica parada um instante, e sua careta se transforma num leve sorriso. Ela vira para me encarar, os olhos azuis brilhando ao refletir os raios do sol.

— Talvez você seja melhor em política do que na guerra, Mare Barrow.

Abro um sorriso dolorido.

— É a mesma coisa. — Uma dura lição que acho que finalmente aprendi. — Acha que pode fazer isso? Matar Ptolemus?

Normalmente, eu esperaria que ela zombasse e desdenhasse da mera sugestão de que talvez não pudesse. Farley é uma mulher dura com uma casca ainda mais dura. Ela é o que precisa ser. Mas alguma coisa — provavelmente Shade, com certeza Clara, o elo que agora nos une — permite que eu enxergue de relance por trás da fachada segura e determinada da general. Ela fraqueja, e seu sorriso se apaga um pouco.

— Não sei — Farley murmura. — Mas nunca mais vou poder olhar para mim mesma, olhar para Clara, se não tentar.

— Nem eu, se deixar você morrer tentando. — Meu aperto em seu braço fica mais forte. — Não faça nenhuma idiotice.

Como se um botão tivesse sido apertado, o sorriso volta com força total. Ela dá até uma piscadinha.

— Desde quando faço idiotices, Mare Barrow?

Olhar para cima para encará-la faz um arrepio percorrer as cicatrizes no meu pescoço, as quais tinha quase esquecido. A dor provocada por elas parece pequena em comparação a todo o resto.

— Só me pergunto onde isso vai acabar — murmuro, esperando que me entenda.

Farley balança a cabeça.

— Essa é uma pergunta com respostas demais.

— Estou falando de Shade e Ptolemus. Se você o matar, o que vem depois? Evangeline mata você? Mata Clara? Eu mato Evangeline? E assim vai, sem fim?

A morte não me é desconhecida, mas isso parece bem diferente. Mortes calculadas. Como algo que Maven faria, não nós. Ainda que Farley tenha marcado Ptolemus para morrer muito antes, quando eu ainda me passava por Mareena Titanos. Mas aquilo era para a Guarda. Por uma causa, por outro motivo que não uma vingança cega e sangrenta.

Os olhos dela se arregalam, vibrantes e quase irreais.

— Você quer que eu o deixe viver?

— É claro que não. — Quase perco a paciência. — Não sei o que eu quero. Não sei do que estou falando. — As palavras se atropelam. — Mas fico imaginando o que pode acontecer, Farley. Sei o que o desejo de vingança e a fúria podem fazer com alguém, e com as pessoas ao redor. E é claro que não quero que Clara cresça sem mãe.

Ela vira de repente, escondendo o rosto, não rápido o bastante para esconder as lágrimas. Mas elas não caem. Farley puxa o braço, se soltando de mim.

Insisto. Tenho que insistir. Ela precisa me ouvir.

— Clara já perdeu Shade. Se tivesse que escolher entre vingança pelo pai e sua mãe viva, acho que sei o que escolheria.

— Falando em escolhas — ela diz entredentes, ainda sem me encarar. — Estou orgulhosa da que você fez.

— Farley, não mude de assunto…

— Você me ouviu, garota elétrica? — Ela funga e força um sorriso, virando de novo para revelar o rosto agora vermelho. — Eu disse que estou orgulhosa de você. É melhor anotar. Guardar na memória. Provavelmente não vai me ouvir falar isso de novo.

Contra vontade, solto uma risada sombria.

— Certo. Orgulhosa do quê, exatamente?

— Bom, além do seu grande talento para se vestir… — Ela passa a mão no meu ombro, espanando a poeira ensanguentada. — E da sua personalidade calma e bondosa… — Rio de novo. — Estou orgulhosa de você porque sei como é perder alguém que se ama.

Ela me pega pelo braço, provavelmente para que eu não fuja de uma conversa que não acho que esteja preparada para ter.

Mare, me escolha. As palavras foram ditas há apenas uma hora. Voltam para me assombrar com facilidade.

— Foi como uma traição — sussurro.

Foco no queixo de Farley para não ter que olhar em seus olhos. A cicatriz no canto esquerdo de sua boca é profunda, repuxando o lábio de leve. Um rasgo regular, feito por uma faca. Ela não tinha essa cicatriz quando nos conhecemos, à luz de uma vela, no velho trailer de Will Whistle.

— Da parte dele? Claro…

— Não. Não dele. — Uma nuvem cruza o céu, lançando sombras sobre nós duas. A brisa de verão sopra estranhamente fria. Tremo. Como se por instinto, penso em Cal e em seu calor. Ele nunca me deixava com frio. Meu estômago se contorce, cansado de recordar o que deixamos para trás. — Ele me fez promessas — continuo —, mas eu também fiz. E quebrei. E ele tem outras promessas para cumprir. A si mesmo, ao pai morto. Ele se apaixonou pela coroa antes de se apaixonar por mim, perceba isso ou não. E, no fim das contas, acha que está fazendo o que é certo por nós, por todo mundo. Como posso culpá-lo por isso?

Meus olhos buscam os de Farley, à procura de uma resposta. Ela não tem uma, ou pelo menos não uma de que eu vá gostar. Ela morde o lábio, como se segurasse o que quer me dizer. Não funciona.

Ela zomba, tentando ser o mais gentil que consegue. Mordaz como sempre.

— Não dê desculpas para justificar o que ele fez e quem ele é.

— Não estou fazendo isso.

— É o que parece. — Ela suspira, exasperada. — Um rei diferente ainda é um rei. Ele pode ser um tonto, mas disso pelo menos sabe.

— Talvez fosse a coisa certa para mim também. Para os vermelhos. Quem sabe o que uma rainha vermelha poderia fazer?

— Muito pouco, Mare. Talvez nada — Farley diz, com uma certeza fria. — Qualquer mudança que pudesse vir de botar uma coroa na sua cabeça seria lenta demais, pequena demais. — Sua voz se abranda. — E seria desfeita com facilidade. Não duraria. O que quer que conquistássemos morreria com você. Não me leve a mal, mas o mundo que queremos construir deve durar mais do que nós.

Para aqueles que virão depois.

Os olhos de Farley se fixam em mim, intensos e com seu foco quase inumano. Clara tem os olhos de Shade, não dela. Cor de mel, não do oceano. Imagino de qual dos dois ela vai puxar cada característica.

A brisa bate no cabelo recém-cortado de Farley, que ganha um tom dourado-escuro à sombra das nuvens. Por baixo das cicatrizes, ela ainda é nova, só mais uma filha da guerra e da ruína. Já viu coisas piores que eu, fez mais do que já fiz. Sacrificou e sofreu mais também. A mãe, a irmã, meu irmão e o amor dele. Quem quer que tivesse sonhado em ser quando pequena. Tudo desapareceu. Se consegue seguir em frente, ainda acreditando na nossa luta, eu também posso. Por mais que a gente tenha nossos conflitos, confio nela. Suas palavras são um conforto pouco familiar, mas necessário. Já cansei de passar tanto tempo na minha própria cabeça, discutindo comigo mesma.

— Você está certa.

Algo dentro de mim se desprende, permitindo que o estranho sonho da proposta de Cal espirale na escuridão. Para nunca mais voltar.

Não serei uma rainha vermelha.

Farley aperta meu ombro e dói. Apesar dos curandeiros, meu corpo ainda está sensível, e o aperto é anormalmente forte.

— Além disso — Farley acrescenta —, não seria você no trono. A rainha Lerolan e o rei de Rift deixaram isso bem claro. Seria ela, a garota Samos.

Debocho da ideia. Evangeline Samos deixou suas intenções bem claras na câmara do conselho. Fico surpresa que Farley não tenha notado.

— Não se ela puder evitar.

— Hã?

Seu olhar se afia, eu dou de ombros.

— Você viu o que ela fez, como te provocou. — A lembrança recente vem em um lampejo. Evangeline chamando uma criada vermelha na frente de todo mundo, esmagando uma taça, forçando a pobre garota a limpar tudo, só para se divertir. Para irritar cada pessoa de sangue vermelho na sala. Não é difícil entender por que fez aquilo, ou o que esperava alcançar. — Ela não quer participar dessa aliança, não quando significa casar com… Tiberias.

Farley parece ter sido pega de surpresa, o que não é comum. Ela pisca, perplexa e intrigada.

— Mas ela voltou à posição que ocupava lá no início. Achei… Quer dizer, não ouso entender o comportamento dos prateados, mas ainda assim…

— Evangeline é uma princesa por si só agora, com tudo o que sempre quis. Não acho que queira voltar a depender de alguém. Era só isso que o noivado dos dois significava para ela. E para ele — acrescento, com uma pontada no coração. — Um acordo por poder. Poder que agora ela já tem, ou — minhas palavras vacilam um pouco — poder que não quer mais.

Penso em Evangeline, no tempo que passei com ela em Whitefire. Ficou aliviada quando Maven casou com Iris Cygnet em vez dela. E não só porque ele era um monstro. Acho que foi porque… havia outra pessoa com quem se importava mais. Mais do que consigo mesma ou com a coroa de Maven.

Elane Haven. Lembro de Maven dizer que ela era a putinha da Evangeline quando sua Casa se rebelou contra ele. Não notei se ela estava no conselho, mas a maior parte da Casa Haven apoia a Casa Samos, sua aliada. Todos sombrios, prontos para desaparecer quando quiserem. Imagino que Elane poderia ter estado lá o tempo todo sem que eu jamais notasse.

— Acha que ela iria contra o acordo do pai? Se pudesse? — Farley parece um gato que acabou de apanhar um rato especialmente gordo para o jantar. — Se alguém… ajudasse?

Cal não recusou a coroa por amor. Seria Evangeline capaz de fazer isso?

Algo me diz que sim. Todas as suas manobras, a resistência silenciosa, a caminhada no fio da navalha.

— É possível. — As palavras adquirem um significado diferente para nós duas. Um novo peso. — Ela tem suas próprias motivações. E acho que isso nos dá certa vantagem.

Os lábios de Farley se curvam, chegando perto de um sorriso sincero. Apesar de tudo, sinto uma onda repentina de esperança. Ela dá tapinhas no meu braço, o sorriso se alargando.

— Então anote de novo, Barrow. Estou muito orgulhosa de você.

— Posso ser útil de vez em quando.

Farley solta uma risada e se afasta, gesticulando para que eu a siga. A avenida além do beco nos chama, com as pedras do calçamento brilhando conforme o resto de neve derrete sob o sol de verão. Hesito, relutante em deixar a segurança daquele recanto escuro. O mundo além deste espaço limitado ainda parece grande demais. A ala interna de Corvium se agiganta, com a torre principal no centro de tudo. Com a respiração trêmula, me obrigo a andar. O primeiro passo dói. O segundo também.

— Você não precisa voltar lá — Farley murmura, indo devagar para me acompanhar. Ela olha para a torre. — Eu conto como foi depois. Davidson e eu podemos lidar com tudo.

A ideia de voltar à câmara do conselho e ficar sentada em silêncio enquanto Tiberias joga tudo o que já fizemos na minha cara — não sei se consigo suportar.

Mas preciso. Noto coisas que os outros não notam. Sei coisas que os outros não sabem. Tenho que voltar. Pela causa.

E por ele.

Não posso negar o quanto quero voltar por ele.

— Quero saber tudo o que você sabe — sussurro para Farley. — Tudo o que Davidson planejou. Não quero entrar em nada às cegas.

Ela concorda depressa. Quase depressa demais.

— Claro.

— Estou à sua disposição. Pode me usar como quiser. Com uma condição.

— É só dizer.

Meus passos desaceleram, e ela me acompanha.

— Ele tem que continuar vivo. Quando tudo isso acabar.

Ela inclina a cabeça, como um cão confuso.

— Pode acabar com a coroa, com o trono, com a monarquia. — Eu a encaro com tanta força quanto consigo reunir. O trovão no meu sangue responde com fervor, implorando para ser liberado. — Mas não com Tiberias.

Farley respira fundo, endireitando-se com toda a sua formidável altura. Sinto que consegue enxergar minhas intenções. Meu coração imperfeito. Sustento minha posição. Ganhei esse direito.

A voz dela vacila.

— Não posso prometer isso. Mas vou tentar. Vou tentar de verdade, Mare.

Pelo menos ela não mente para mim.

Me sinto partida ao meio, rasgada em direções diferentes. Tenho uma pergunta óbvia na cabeça. Outra escolha que posso ter que fazer. A vida dele ou nossa vitória?

Não sei que lado vou escolher, se precisar. Que lado posso trair. A consciência disso corta fundo, e eu sangro onde ninguém mais pode ver.

Imagino que era disso que o vidente estava falando. Jon falou bem pouco, mas tudo o que me disse foi muito calculado. Por mais que não queira, tenho que aceitar o destino que ele previu.

Me levantar.

E me levantar sozinha.

Avanço pelo chão de pedra. A brisa volta a bater, vinda do oeste agora. Carrega consigo o cheiro inconfundível de sangue. Luto contra o impulso de vomitar quando tudo volta depressa. O cerco. Os corpos. O sangue de ambas as cores. O aperto de um pétreo fraturando meu pulso. Pescoços quebrados, peitos com a carne dilacerada, órgãos reluzentes, ossos afiados. Na batalha, era fácil ignorar o horror. Até necessário. O medo só me levaria à morte. Agora não mais. A velocidade do meu coração triplica e um suor frio escorre pelo meu corpo.

Mesmo que tenhamos sobrevivido e vencido, o terror da perda abriu buracos enormes dentro de mim.

Ainda posso senti-los. Os nervos, o caminho elétrico que meus raios traçaram em cada pessoa que matei. Como ramos finos e brilhantes, cada um diferente do outro mas ao mesmo tempo iguais. Numerosos demais para contar. Em uniformes vermelhos e azuis, de Norta e Lakeland. Todos prateados.

Espero.

A ideia me atinge como um soco no estômago. Maven vinha usando os vermelhos como bola de canhão, escudos humanos. Nunca nem pensei na possibilidade. Nenhum de nós pensou — ou talvez os outros não se importassem. Davidson, Cal, talvez até Farley, se achasse que os fins justificavam os meios.

— Ei — ela murmura, pegando meu pulso. O toque de sua pele, com seus dedos parecendo algemas, me faz dar um pulo. Eu me solto à força, me debatendo com um som que mais parece um rosnado. Fico vermelha, envergonhada por ainda reagir desse jeito.

Farley recua e ergue as mãos, com os olhos arregalados. Mas sem medo, sem julgamento. Nem mesmo pena. É compreensão que vejo nela?

— Sinto muito — diz depressa. — Esqueci do seu pulso.

Mal assinto, enfiando as mãos nos bolsos para esconder as faíscas roxas na ponta dos dedos.

— Tudo bem. Não é bem isso…

— Eu sei, Mare. Acontece quando diminuímos o ritmo. O corpo volta a processar as coisas. Às vezes é demais para suportar, não há vergonha nisso. — Farley inclina a cabeça, gesticulando para longe da torre. — E não há vergonha em tirar um descanso também. O acampamento…

— Tinha vermelhos lá? — Gesticulo na direção do campo de batalha e dos muros agora derrubados de Corvium. — Maven e Lakeland mandaram soldados vermelhos com o resto?

Farley pisca, claramente abalada.

— Não que eu saiba — ela finalmente responde, e ouço a tensão em sua voz. Tampouco sabe. Não quer saber, e nem eu. Não poderia suportar.

Viro, forçando-a a acompanhar meu ritmo, para variar um pouco. O silêncio retorna, agora carregado da mesma dose de raiva e vergonha. Me afundo nele, torturando a mim mesma. Para me lembrar da aversão e da dor. Mais batalhas virão. Mais pessoas vão morrer, independente da cor do sangue. A guerra é assim. A revolução é assim. Outros vão ser pegos no fogo cruzado. Esquecer disso é condená-los de novo, e condenar os que virão a seguir.

Mantenho as mãos bem enfiadas nos bolsos conforme subimos os degraus da torre. A haste de um brinco alfineta minha pele, a pedra vermelha quente na minha mão. Devia jogá-lo pela janela. Se há algo que tenho que esquecer, é ele.

Mas o brinco continua onde está.

Lado a lado, voltamos à câmara do conselho. Os limites do meu campo de visão saem de foco, e eu tento me situar ali. Observar. Decorar. Procurar por falhas nas palavras ditas, encontrar segredos e mentiras no que deixam no ar. É um objetivo e uma distração. Então percebo por que estava tão disposta a voltar aqui, quando tinha todo o direito de fugir.

Não porque isso seja importante. Não porque posso ser útil.

Mas porque sou egoísta, fraca e medrosa. Não posso ficar sozinha, não agora, não ainda.

Então eu sento, ouço e observo.

E, o tempo todo, sinto seu olhar.









Capítulo dois

Evangeline


SERIA FÁCIL MATÁ-LA.

Há um cordão de ouro rosé entre as joias vermelhas, pretas e laranja no pescoço de Anabel Lerolan. Uma torcidinha e eu romperia a jugular. Destruiria a oblívia e seus planos. Acabaria com sua vida e esse noivado na frente de todo mundo aqui.

Minha mãe, meu pai, Cal — sem mencionar os criminosos vermelhos e as aberrações estrangeiras a quem estamos amarrados. Mas não Barrow. Ela ainda não voltou. Provavelmente ainda está chorando a perda de seu príncipe.

Levaria a outra guerra, claro, estilhaçar uma aliança já cheia de rachaduras. Eu seria capaz de fazer algo assim? Trocar minha lealdade pela minha felicidade? Sinto vergonha só de cogitar isso, mesmo na segurança dos meus pensamentos.

A velha deve sentir meu olhar. Seus olhos encontram os meus por um segundo, o sorriso em seus lábios é inegável enquanto volta a se acomodar na cadeira, resplandecente em vermelho, preto e laranja.

São as cores dos Calore, não só dos Lerolan. Suas alianças são claras como o fogo.

Com um arrepio, volto a atenção para minhas mãos. Uma unha está arruinada. Quebrou na batalha. Tomo fôlego e transformo um dos meus anéis de titânio em uma garra e a encaixo no dedo. Arranho o braço do meu trono, só para irritar minha mãe. Ela me olha de soslaio, a única evidência de seu desdém.

Fico fantasiando a morte de Anabel por tempo demais e esqueço o conselho detestável conspirando à minha volta. Nossos números se reduziram, e restam apenas alguns poucos líderes das facções unidas às pressas. Generais, lordes, capitães e a realeza. O líder de Montfort fala, então meu pai, então Anabel, então de volta ao início. Todos em tom controlado, forçando sorrisos e fazendo promessas vazias.

Queria que Elane estivesse aqui. Deveria tê-la trazido. Ela pediu para vir. Na verdade, implorou. Sempre quer ficar por perto, mesmo diante do perigo letal.

Tento não pensar em nossos últimos momentos juntas, em seu corpo nos meus braços. Ela é mais magra que eu, e mais macia. Ptolemus ficou do lado de fora da porta, para garantir que não fôssemos perturbadas.

— Me deixe ir com você — Elane sussurrou no meu ouvido uma dezena de vezes, centenas de vezes. Mas o pai dela e o meu proibiram. Já chega, Evangeline.

Amaldiçoo a mim mesma. Eles não teriam como saber, em meio ao caos. Elane é uma sombria, afinal de contas. É fácil contrabandear uma garota invisível. Tolly teria ajudado. Ele não impediria sua esposa de vir junto, não se eu pedisse ajuda.

Mas eu não podia. Tinha uma batalha a vencer primeiro, uma batalha que não sabia se podíamos de fato vencer. E não ia correr aquele risco com ela. Elane Haven pode ser talentosa, mas não é uma guerreira. No fim das contas, seria apenas uma distração e uma preocupação. Não podia me dar ao luxo de nenhuma das duas coisas. Mas agora…

Chega.

Meus dedos agarram os braços do trono, lutando para não transformar o ferro em pedacinhos. As muitas galerias de metal da mansão Ridge eram uma terapia acessível. Eu podia destruir tudo em paz. Canalizar qualquer raiva recente nas estátuas que sempre mudavam, sem ter que me preocupar com o que os outros iam pensar. Me pergunto se vou encontrar a mesma privacidade aqui em Corvium para fazer esse tipo de coisa. A promessa de tal válvula de escape me mantém sã. Passo o anel em forma de garra no trono, metal no metal. Leve o bastante para que apenas minha mãe ouça. Ela não pode me olhar feio por isso, não na frente do resto desse estranho conselho. Se tenho que ficar numa vitrine, vou pelo menos aproveitar as vantagens.

Finalmente, afasto os pensamentos do pescoço vulnerável de Anabel e da ausência de Elane. Se vou dar um jeito de escapar do plano de meu pai, preciso pelo menos prestar atenção no que está acontecendo.

— O exército dele está em retirada. Não podemos dar tempo para que as forças do rei Maven se reagrupem — meu pai diz, tranquilo. Atrás dele, a janela alta da torre mostra o sol começando sua descida rumo às nuvens que se demoram a oeste no horizonte. A paisagem destruída ainda solta fumaça. — Ele está lambendo as feridas.

— O garoto já está no Gargalo — a rainha Anabel responde rápido. O garoto. Ela se refere a Maven como se não fosse seu neto. Imagino que já não o considere mais mesmo. Não depois que ajudou a matar seu filho, o rei Tiberias. Maven não tem seu sangue, só o de Elara.

Anabel se inclina para a frente, apoiada nos cotovelos, e cruza as mãos enrugadas. Sua antiga aliança de casamento, surrada mas ainda inteira, cintila no dedo.

Quando ela surpreendeu a todos na mansão Ridge anunciando sua intenção de apoiar o neto, não usava nenhum tipo de metal. Para se esconder de nossos instintos de magnetrons. Agora utiliza abertamente, desafiando-nos a usar sua coroa ou suas próprias joias contra ela. Cada parte dessa mulher é uma escolha calculada. E não lhe faltam armas. Anabel foi uma guerreira antes de se tornar rainha, uma oficial no front de Lakeland. É uma oblívia de toque mortal, capaz de explodir qualquer coisa — ou qualquer pessoa.

Se eu não odiasse o que está me forçando a fazer, respeitaria pelo menos sua dedicação.

— A essa hora, a maior parte de suas forças vai estar além das cataratas de Maiden e da fronteira — ela acrescenta. — Devem estar em Lakeland agora.

— O exército de Lakeland também está ferido e vulnerável. Devemos atacar enquanto podemos, nem que seja só para pegar os retardatários. — Meu pai desvia o olhar de Anabel para um dos lordes prateados. — A frota Laris ficaria pronta em uma hora, não?

O general Laris se endireita sob o olhar do meu pai. Seu cantil está vazio agora, enquanto desfruta da névoa bêbada da vitória. Ele tosse, limpando a garganta.

Sinto o cheiro de álcool em seu hálito do outro lado da sala.

— Sim, majestade. É só dar as ordens.

Uma voz grave o interrompe.

— Sou contra.

As primeiras palavras de Cal desde seu retorno da discussão com Mare Barrow certamente não são à toa. Como sua avó, ele usa preto decorado com vermelho, tendo há muito trocado o uniforme emprestado que usou em combate. Ele se ajeita no assento ao lado de Anabel, assumindo sua posição como sua causa a defender, seu rei. Seu tio, Julian da Casa Jacos, está à sua esquerda. No meio dos dois, prateados nobres de sangue poderoso, Cal representa uma frente unida. Um rei merecedor de nosso apoio.

E eu o odeio por isso.

Cal poderia ter acabado com meu sofrimento rompendo nosso noivado, recusando quando meu pai ofereceu minha mão. Mas, pela coroa, ele desistiu de Mare. Pela coroa, me deixou encurralada.

— Como é? — é tudo o que meu pai diz. Ele é um homem de poucas palavras e de ainda menos perguntas. Só ouvi-lo fazer uma já é perturbador, e fico tensa involuntariamente.

Cal afasta os ombros para trás, alongando o corpo calmamente. Ele apoia o queixo nos nós dos dedos. Suas sobrancelhas estão unidas em reflexão. Parece maior, mais velho, mais esperto. No mesmo nível do rei de Rift.

— Eu disse que vou me opor às ordens de despachar a frota aérea ou qualquer destacamento da nossa coalizão para iniciar uma busca em território hostil — Cal explica de imediato. Devo admitir que, mesmo sem coroa, ele tem um ar majestoso. Que exige atenção, se não respeito. O que não é de surpreender, já que foi preparado para isso, e Cal não é nada além de um aluno muito obediente. Sua avó aperta os lábios em um sorriso discreto mas genuíno. Está orgulhosa dele. — O Gargalo ainda é literalmente um campo minado, e não temos informações suficientes para nos guiar do outro lado das cataratas. Pode ser uma armadilha. Não vou colocar a vida de soldados em risco.

— Tudo nessa guerra é um risco — ouço Ptolemus dizer do outro lado do meu pai. Ele se alonga como Cal, revelando toda a sua altura em seu trono. O pôr do sol dá um tom avermelhado ao cabelo de Tolly, fazendo as mechas prateadas oleosas brilharem sob a coroa de príncipe. A mesma luz banha Cal com as cores de sua antiga Casa, deixando seus olhos vermelhos enquanto sombras escuras se estendem atrás de si. Os dois ficam se encarando da maneira estranha que os homens fazem. Tudo é uma competição, penso.

— Bem apontado, príncipe Ptolemus — Anabel diz, seca. — Mas sua majestade, o rei de Norta, está muito ciente da natureza da guerra. E eu concordo com sua avaliação.

Ela já o chama de rei. Não sou a única a notar sua escolha de palavras.

Cal abaixa os olhos, atordoado. Ele se recupera depressa, com o maxilar apertado em resolução. Sua escolha foi tomada. Não há como voltar atrás agora, Calore.

O primeiro-ministro de Montfort, Davidson, assente de seu lugar à mesa. Sem a comandante da Guarda Escarlate e Mare Barrow, é fácil ignorá-lo. Quase o tinha esquecido.

— Concordo — ele diz. Até sua voz é neutra, sem inflexão ou sotaque. — Nossos exércitos também precisam de tempo para se recuperar, e essa coalizão precisa de tempo para encontrar… — Davidson para e pensa. Não consigo ler sua expressão, o que me irrita profundamente. Imagino se um murmurador conseguiria penetrar seu escudo mental. — Equilíbrio.

Minha mãe não é tão estoica quanto meu pai, e concentra seu olhar sinistro e ardente no líder dos sanguenovos. Sua cobra imita seus movimentos, encarando o primeiro-ministro.

— Então não temos agentes de inteligência do outro lado da fronteira? Me desculpe, mas estava com a impressão de que a Guarda Escarlate — ela quase cospe o nome — tinha uma rede intrincada de espiões tanto em Norta quanto em Lakeland. Certamente poderiam ser úteis, a menos que os vermelhos tenham nos enganado quanto ao seu alcance e força.

A aversão escorre de suas palavras como veneno de presas.

— Nossos agentes estão em ordem, majestade.

A general vermelha, uma loira com um sorriso de escárnio permanente no rosto, entra na sala, com Mare em seu encalço. As duas cruzam o recinto para sentar com Davidson. Movem-se depressa e em silêncio, como se assim pudessem evitar os olhares de todos os presentes.

Mare se acomoda na cadeira e mantém os olhos à frente, focados em mim, por incrível que pareça. Para minha surpresa, percebo uma emoção estranha neles. Poderia ser vergonha? Não, impossível. Mas um calor sobe para minhas bochechas.

Espero não estar corada, seja de raiva ou constrangimento. As duas coisas se agitam dentro de mim, por uma boa razão. Desvio o olhar, virando para Cal, nem que seja apenas para me distrair com a única pessoa mais infeliz do que eu.

Ele tenta não parecer afetado pela presença dela, mas não é como o irmão. Diferente de Maven, é pouco habilidoso quando se trata de mascarar as emoções. Um tom prateado floresce sob sua pele, colorindo suas bochechas, seu pescoço e até o topo de suas orelhas. A temperatura na sala aumenta um pouco, afetada por qualquer que seja a emoção contra a qual ele luta. Que idiota, zombo mentalmente. Você fez sua escolha, Calore. Condenou nós dois. Deveria pelo menos fingir que tem tudo sob controle. Se alguém vai perder a cabeça por um coração partido, que seja eu.

Quase espero que comece a miar como um gatinho perdido. Ele pisca furiosamente, desviando os olhos da garota elétrica. A mão se fecha no braço da cadeira, e o bracelete de chamas em seu pulso brilha vermelho ao sol se pondo. Ele o mantém sob controle. Assim como a si próprio.

Mare é uma pedra comparada a Cal. Rígida, obstinada, impassível. Não solta nem mesmo uma fagulha de sentimento. Só fica me encarando. É irritante, mas ela não o faz em desafio. Seus olhos estão estranhamente esvaziados da raiva de sempre. Não são bondosos, claro, mas tampouco brilham de aversão. Acho que a garota elétrica deve ter poucos motivos para me odiar agora. Meu peito se aperta — ela sabe que não foi escolha minha? Só pode ser.

— Que bom que voltou, srta. Barrow — eu digo, com sinceridade. Sempre podemos contar com ela para distrair os príncipes Calore.

A garota não responde, só cruza os braços.

Sua acompanhante, a general da Guarda Escarlate, não está tão inclinada ao silêncio. Infelizmente. Ela franze o cenho para minha mãe, brincando com o destino.

— Nossos agentes estão a postos, acompanhando a retirada do exército do rei Maven. Recebemos notícias de que as tropas marcham depressa para Detraon. O próprio Maven e alguns generais estão a bordo de navios no lago Eris. Supostamente também em direção a Detraon. Estão falando em um funeral para o rei de Lakeland. Eles têm muito mais curandeiros do que nós. Quem sobreviveu à batalha vai estar pronto para outra muito antes de nós.

Anabel faz uma careta e lança um olhar cortante para meu pai.

— Sim, a Casa Skonos continua dividida, e a maioria de seus membros permanece leal ao usurpador. — Como se fosse culpa nossa. Fizemos o que podíamos, convencemos quem podíamos. — Sem falar que Lakeland tem suas próprias Casas de curandeiros de pele.

Com um aceno de mão e um sorriso apertado, Davidson inclina a cabeça. Rugas se formam no canto de seus olhos, marcando sua idade. Suspeito que tenha por volta de quarenta, mas é difícil ter certeza.

Ele leva os dedos à sobrancelha em uma estranha forma de cumprimento ou promessa.

— Podem contar com Montfort. Pretendo entrar com uma petição por mais curandeiros, tanto prateados quanto rubros.

— Petição? — meu pai ladra. Os outros prateados ficam igualmente confusos, e me pego olhando mais adiante na nossa fileira, procurando os olhos de Tolly. Ele franze a sobrancelha. Não entende o que Davidson quer dizer. Meu estômago se revira, e mordo o lábio para conter a sensação. Quando um de nós não compreende o que se passa, o outro costuma entender. Mas, neste caso, estamos ambos à deriva. Assim como meu pai. Por mais que esteja brava com ele, isso me assusta mais que qualquer outra coisa. Meu pai não pode nos proteger do que não entende.

Mare tampouco compreende, franzindo o nariz em confusão. Essas pessoas, resmungo para mim mesma. Me pergunto se nem a mulher com a cicatriz e a cara amarrada sabe do que Davidson está falando.

O primeiro-ministro solta uma risadinha. O velhote está gostando. Ele abaixa os olhos, batendo os cílios escuros. Se quisesse, poderia ser bonito. Mas suponho que isso não sirva de nada a quaisquer que sejam seus propósitos.

— Não sou rei, como todos sabem. — Ele levanta o olhar para meu pai, depois Cal e Anabel. — Sirvo à vontade do meu povo, que tem outros políticos eleitos para representar seus interesses. Precisamos estar todos de acordo. Quando eu voltar a Montfort para pedir mais tropas…

— Voltar? — Cal ecoa, interrompendo Davidson. — Quando pretendia nos pôr a par disso?

Davidson dá de ombros depois de um instante.

— Agora.

Os lábios de Mare se contorcem. Não sei se lutando contra uma careta ou um sorriso. Provavelmente a segunda opção.

Não sou a única a notar. Os olhos de Cal brilham, passando dela para o primeiro-ministro com cada vez mais desconfiança.

— E o que faremos em sua ausência, primeiro-ministro? — ele exige saber. — Esperamos? Ou lutamos com uma mão amarrada atrás das costas?

— Fico lisonjeado que considere Montfort tão vital à sua causa, majestade — Davidson diz, sorrindo. — Peço desculpas, mas as leis do meu país não podem ser quebradas, nem mesmo na guerra. Não vou trair os princípios de Montfort, e defendo os direitos do meu povo. Afinal, entre eles estão pessoas que vão ajudá-lo a reaver seu próprio país. — O aviso em suas palavras é tão claro quanto o sorriso fácil que continua em seu rosto.

Meu pai é melhor que Cal nisso. Ele também abre um sorriso vazio.

— Nunca pediríamos a um governante que desse as costas para sua própria nação.

— Claro que não — a vermelha com a cicatriz acrescenta, seca. Meu pai ignora a falta de respeito, mas apenas pelo bem da coalizão. Se não fosse por nossa aliança, poderia matá-la só para ensinar uma lição de etiqueta a todo o resto.

Cal se acalma um pouco, fazendo seu melhor para manter a cabeça no lugar.

— Por quanto tempo vai ficar fora, primeiro-ministro?

— Depende do meu governo, mas não acho que haverá um longo debate — Davidson diz.

A rainha Anabel bate as mãos com entusiasmo. Ela ri, aprofundando as linhas de expressão de seu rosto.

— Que interessante! E o que seu governo considera um longo debate?

Sinto que estou assistindo a uma peça com atores medíocres. Nenhum deles — meu pai, Anabel, Davidson — confia um pouco que seja nos outros.

— Ah, anos. — Davidson suspira diante do humor forçado de Anabel. — A democracia é bem curiosa. Não que qualquer um de vocês saiba disso.

O último comentário foi feito para doer, e atinge o alvo. O sorriso de Anabel se transforma em gelo. Ela bate a mão na mesa, em outro aviso. Sua habilidade pode causar destruição com muita facilidade. Como a de todos nós. Somos todos letais, e todos temos nossas próprias intenções em jogo. Não sei por quanto tempo mais posso suportar.

— Eu adoraria ver com meus próprios olhos.

Mal as palavras saem da boca de Mare, a temperatura da sala aumenta. Ela é a única que não olha para Cal. Ele a encara, os olhos queimando, mordendo o lábio para segurar a língua. Mas Mare permanece resoluta, com a expressão agradavelmente neutra. Deve estar aprendendo com Davidson.

Levo a mão à boca depressa para reprimir uma risadinha surpresa. Mare Barrow tem um talento especial quando se trata de perturbar os Calore. Fico me perguntando se faz de propósito. Se fica acordada à noite pensando nas melhores maneiras de confundir Maven ou distrair Cal.

Será possível? Ela faria algo do tipo?

Por instinto, tento apagar a fagulha de esperança que surge no meu peito. Então deixo que floresça.

Ela fez isso com Maven. Manteve o rei ocupado. Inseguro. Distante de você. Por que não pode fazer o mesmo com Cal?

— Então você será a emissária perfeita de Norta. — Tento parecer entediada, desinteressada. Não ávida. Não quero que ninguém perceba que estou jogando o osso bem longe, sabendo que o cachorrinho vai atrás. Os olhos de Mare me encontram, as sobrancelhas se erguendo um centímetro. Vamos, Mare. Fico contente que ninguém aqui possa ler minha mente.

— Não, ela não será, Evangeline — Cal diz depressa, forçando as palavras por entre os dentes cerrados. — Não quero desrespeitar o primeiro-ministro, mas não conhecemos o bastante sobre essa nação…

Pisco para meu noivo, inclinando a cabeça. Meu cabelo prateado desliza pela armadura na altura da clavícula. O poder que tenho neste momento, por menor que seja, perpassa todo meu corpo.

— E não haverá melhor oportunidade para conhecer. Ela vai ser recebida como uma heroína. Montfort é um país de sanguenovos. Sua presença só vai ajudar nossa causa. Não acha, primeiro-ministro?

Davidson fixa seus olhos vazios em mim. Sinto seu olhar me perscrutar. Pode olhar o quanto quiser, vermelho.

— Sem dúvida.

— E confia no relato dela do que encontrar lá? Sem exageros ou omissões? — Anabel zomba, descrente. — Não se engane, princesa Evangeline. A garota não é leal a ninguém de sangue prateado.

Cal e Mare abaixam os olhos ao mesmo tempo, como se evitassem se encarar.

Dou de ombros.

— Então mandem um prateado com ela. Que tal Lord Jacos? — O velho magro de vestes amarelas parece se assustar com a menção ao próprio nome. Ele tem um aspecto frágil, como um pedaço de tecido desgastado. — Se não estou enganada você é um estudioso, não?

— Sou — ele murmura.

Mare levanta a cabeça num gesto brusco. Suas bochechas estão vermelhas, mas o resto dela parece composto.

— Mandem quem quiserem conosco. Vou a Montfort, e nenhum rei tem o direito de impedir. Fiquem à vontade para tentar.

Excelente. Calore fica tenso na cadeira. A avó se aproxima dele, parecendo pequena em comparação. Mas a semelhança ainda é clara. Os mesmos olhos de bronze, ombros largos, nariz reto. O mesmo coração de soldado. E, sobretudo, a mesma ambição. Ela o observa enquanto fala, cautelosa quanto a sua resposta.

— Então Lord Jacos e Mare Barrow vão representar o verdadeiro rei de Norta na…

O bracelete de Cal faísca, originando uma pequena chama vermelha. Ela caminha pelos nós de seus dedos devagar.

— O verdadeiro rei representará a si mesmo — ele diz, observando a chama.

Do outro lado da sala, Mare cerra os dentes. Preciso de todas as minhas forças para ficar quieta no lugar, mas, por dentro, estou dançando em comemoração. Tão fácil.

— Tiberias — Anabel sibila. Ele não se dá ao trabalho de responder. E ela não pode pressioná-lo. Foi você que fez isso, velha idiota. Você o tornou rei. Agora obedeça.

— Admito que tenho um pouco da curiosidade de meu tio Julian — Cal diz. — E da minha mãe. — Ele se acalma com a lembrança dela. Confesso que não sei muito sobre Coriane Jacos. Ela não era um assunto que a rainha Elara gostava de discutir. — Quero visitar essa república livre e descobrir se todas as histórias são verdadeiras. — Ele baixa a voz e encara Mare com intensidade, como se assim pudesse obrigá-la a retribuir. O que ela não faz. — Gosto de ver as coisas com meus próprios olhos.

Davidson assente com um brilho nos olhos, a máscara de neutralidade se desfazendo por apenas um segundo.

— Será muito bem-vindo, majestade.

— Ótimo. — Cal extingue o fogo antes de bater o punho na mesa. — Então está resolvido.

Sua avó aperta os lábios, como se tivesse comido algo azedo.

— Resolvido? — ela escarnece. — Não tem nada resolvido. Você precisa hastear sua bandeira em Delphie, proclamá-la sua capital; precisa conquistar territórios, recursos, o povo, trazer mais Grandes Casas para o seu lado…

Cal não se deixa abalar.

— Preciso mesmo de recursos: soldados. Montfort tem muitos.

— É verdade — meu pai diz, sua voz um estrondo profundo que traz um velho medo de volta ao meu coração.

Ele está bravo comigo por ter forçado isso? Ou satisfeito? Quando criança, aprendi o que acontecia quando alguém contrariava Volo Samos. Se tornava um fantasma. Ignorado. Malquisto. Até que voltasse às suas graças através de conquistas e inteligência.

De canto de olho, observo o meu pai. O rei de Rift está sentado ereto em seu trono, pálido e perfeito. Por baixo da barba meticulosamente aparada, entrevejo um sorriso. Também identifico um suspiro silencioso e sutil de alívio.

— Um pedido direto do legítimo rei de Norta vai influenciar o governo do primeiro-ministro — meu pai continua. — E só pode fortalecer essa nossa aliança. Por isso, devo mandar um emissário próprio, para representar o reino de Rift também.

Não o Tolly!, minha mente grita. Mare Barrow prometeu poupá-lo, mas não confio em sua palavra, muito menos em circunstâncias tão oportunas. Já posso até ver. Diriam que ele sofreu algum “acidente”. E Elane teria que ir também, a esposa dedicada ao lado do marido. Se meu pai mandar Tolly, ele vai voltar morto.

— Evangeline vai acompanhá-los.

A náusea ofusca o alívio em um segundo.

Fico dividida entre pedir outra taça de vinho e vomitar o que já bebi nos meus pés. Vozes gritam na minha cabeça, todas dizendo a mesma coisa.

A culpa é toda sua, menina idiota.



Capítulo três

Mare


MINHA RISADA ECOA PELAS PAREDES da muralha a leste e pelos campos escuros. Eu me inclino, com as mãos apoiadas no parapeito, tentando recuperar o fôlego. Não consigo controlar. Uma risada sincera, que vem lá do fundo, toma conta de mim. Sai com um barulho oco, duro, empoeirado pela falta de uso. Minhas cicatrizes doem, despertando pontadas ao longo do pescoço e das costas, mas não posso segurar. Rio até minhas costelas doerem, então tenho que sentar para me apoiar na pedra fria. Isso não me faz parar, e mesmo mordendo os lábios para mantê-los fechados, risadinhas escapam de vez em quando.

Ninguém além dos guardas pode me ouvir, e duvido que se importem com uma garota rindo sozinha na escuridão. Adquiri o direito de rir, chorar ou gritar quando acho apropriado. Parte de mim quer fazer os três ao mesmo tempo. Mas a risada vence.

Pareço louca, e talvez esteja. Certamente tenho uma desculpa para isso, depois de hoje. Do outro lado de Corvium, as pessoas ainda estão limpando cadáveres. Cal preferiu sua coroa a tudo por que eu achava que estávamos lutando. As duas feridas sangram, e nenhum curandeiro seria capaz de curá-las. Feridas que preciso ignorar agora, pela minha própria sanidade. A única coisa que posso fazer é levar as mãos ao rosto, cerrar os dentes e lutar contra essa crise de riso idiota e infernal.

Isso é completamente insano.

Evangeline, Cal e eu vamos para Montfort. Só pode ser piada. Digo isso em minha mensagem para Kilorn, que ainda está a salvo em Piedmont. Ele ia querer saber de tudo, ou tudo o que posso contar. Depois que o convenci a ficar para trás, é mais do que justo que pelo menos o mantenha atualizado. E, é claro, quero que ele saiba. Quero que alguém dê risada comigo e amaldiçoe o que está por vir.

Solto outra risada sombria, recostando a cabeça na parede de pedra. As estrelas acima são como picadas de agulha, ofuscadas pelas luzes de Corvium e pela lua que nasce. Parecem assistir a tudo que se passa na cidade-fortaleza abaixo. Eu me pergunto se os deuses de Iris Cygnet riem comigo. Se é que existem.

E me pergunto se Jon está rindo também.

Pensar nele faz um arrepio percorrer meu corpo, matando qualquer risada maníaca que tivesse restado. O maldito profeta sanguenovo está em algum lugar lá fora, depois de ter escapado de nós. Mas para quê? Ficar sentado numa colina assistindo? Seus olhos vermelhos indo de um lado para o outro enquanto nos matamos? Seria ele algum tipo de manipulador, que se satisfaz em posicionar suas marionetes e então botar em ação qualquer futuro que escolha para nós? Se fosse remotamente possível, eu tentaria encontrá-lo. Para forçá-lo a nos proteger do destino letal. Mas é um absurdo. Ele vai me ver chegando. Só se pode achar Jon se ele quiser ser achado.

Frustrada, passo as mãos pelo rosto e pelo couro cabeludo, deixando as unhas rasparem a pele. A sensação de ardor me traz de volta à realidade, pouco a pouco. Assim como o frio. A pedra sob meu corpo perde seu calor conforme a noite avança. O tecido frio do uniforme faz pouco para me impedir de tremer, e os cantos duros e pontudos das paredes são muito desconfortáveis. Ainda assim, não me movo.

Eu poderia ir dormir, mas isso significaria voltar lá para baixo. Para os outros, para o acampamento. Mesmo se eu fizer minha pior careta e correr, vou ter que encarar os vermelhos, os sanguenovos e os prateados também. Julian, com toda a certeza. Consigo imaginá-lo esperando na minha cama, pronto para outro sermão. Mas não sei o que poderia dizer.

Vai ficar do lado de Cal, imagino. No fim de tudo isso. Quando ficar claro que não vamos deixá-lo manter o trono. Acima de tudo, os prateados são leais ao seu sangue. E Julian é, acima de tudo, leal à irmã morta. Cal é o último pedaço dela que restou. Julian não vai dar as costas para isso, independente de tudo o que diz sobre revolução e história. Ele não vai deixar Cal sozinho.

Tiberias. Cal. Ele. Tiberias.

Só pensar no nome já dói. Seu nome real. Seu futuro. Tiberias VII, rei de Norta, a Chama do Norte. Eu o visualizo no trono do irmão, seguro em sua prisão de Pedra Silenciosa. Ou ele traria de volta o trono de cristais de diamante em que seu pai sentava? Destruiria todos os rastros de Maven, apagando-o da história? Vai reconstruir o palácio do pai. O reino de Norta retornará ao que era. A não ser pelo rei Samos em Rift, tudo voltará a ser como antes do dia em que eu caí naquela arena.

Tornará tudo o que aconteceu desde então inútil.

Eu me recuso a deixar isso acontecer.

E, por sorte, não estou sozinha nessa empreitada.

A lua brilha na pedra negra, fazendo os detalhes dourados de todas as torres e parapeitos parecerem prateados. Patrulhas passam abaixo de mim, vigiando tudo em seus uniformes vermelhos e verdes. Da Guarda e de Montfort. Seus equivalentes de sangue prateado, vestindo as cores de cada Casa, são muito menos frequentes e não se misturam. O amarelo dos Laris, o preto dos Haven, o vermelho e azul dos Iral, o vermelho e laranja dos Lerolan. Não se veem as cores dos Samos. Eles são da realeza agora, graças à ambição e ao senso de oportunidade de Volo. Não há necessidade de desperdiçar seu tempo com algo tão ordinário quanto patrulhas noturnas.

Imagino o que Maven pensa disso. Ele se concentrou tanto no irmão que só posso conjecturar o peso de ter outro rei rival como Volo. Tudo girava em torno de Tiberias, ainda que Maven parecesse ter tudo o que poderia querer. A coroa, o trono, eu. Ele ainda sentia aquela sombra. Trabalho de Elara. Ela o moldou como queria, tirando e acrescentando na mesma medida. A obsessão dele ajudou a alimentar sua necessidade de poder, e tornou a dela realidade. Isso vai se estender ao rei Volo? Ou os desejos mais sombrios e perigosos de Maven se restringem a nós? Matar o irmão, me ter de volta?

Só o tempo dirá. Quando ele ressurgir — e ressurgirá —, vou saber.

Só espero estar pronta.

As tropas de Davidson, a Guarda Escarlate e a infiltração que se espalha — somos o bastante. Temos que ser.

Mas isso não quer dizer que não posso tomar algumas precauções.



— Quando vamos partir?

Precisei pedir ajuda de outras pessoas, mas consegui encontrar Davidson. Seu quartel-general fica em alguns escritórios maiores no setor administrativo, e os aposentos estão tomados pelo alto escalão de Montfort. E da Guarda Escarlate, embora Farley não esteja aqui. Os oficiais me recebem com tranquilidade, abrindo passagem para a pessoa que ainda chamam de garota elétrica. A maior parte deles está ocupada com as malas. Embalam documentos, pastas e mapas. Nada que de fato pertença a alguém aqui. Informações que pessoas mais inteligentes que eu vão devorar. Provavelmente sobras dos oficiais prateados que usavam este lugar antes.

Ada, uma das sanguenovas que recrutei, está no centro da atividade. Seus olhos passam por cada pedacinho de papel antes de alguém levá-lo embora. Está decorando tudo, com ajuda de sua memória infalível. Nossos olhos se encontram quando passo, e assentimos uma para a outra. Quando formos para Montfort, Farley vai despachar Ada para o Comando. Provavelmente não nos veremos por um longo tempo.

Davidson levanta o olhar da escrivaninha vazia. Os cantos de seus olhos se enrugam, o único indício de um sorriso. Apesar da luz forte e imperdoável do escritório, está bonito como sempre. Distinto. Intimidador. Um rei em termos de poder, se não em título. Quando faz sinal para que me aproxime, engulo em seco, lembrando como ele estava no cerco. Ensanguentado, exausto, com medo. E determinado. Como o restante de nós. Isso me acalma um pouco.

— Você se saiu bem lá em cima, Barrow — ele diz. Com um movimento da cabeça, ele aponta vagamente na direção da torre principal.

— Você quer dizer que mantive a boca fechada — ironizo.

Alguém ri perto da janela. Viro e me deparo com Tyton apoiado contra o vidro, de braços cruzados, o cabelo branco caindo no olho. Ele também usa um uniforme verde-floresta limpo, um pouco curto nos braços e nas pernas. Não há nenhuma insígnia de raio que indique o que ele é: um eletricon, como eu. Porque esse uniforme não é seu. Da última vez que o vi, estava banhado dos pés à cabeça em sangue prateado. Ele tamborila no próprio braço, brandindo os dedos como as armas que são.

— Isso é possível? — ele pergunta com a voz profunda, sem olhar para mim.

Davidson me avalia, balançando a cabeça de leve.

— Na verdade, estou satisfeito com o que disse aos outros, Mare. Sobre me acompanhar na viagem.

— Como comentei, estou curiosa com…

O primeiro-ministro levanta a mão para me interromper.

— Não há necessidade disso. Acho que Lord Jacos é a única pessoa que faz qualquer coisa movido apenas pela curiosidade. — Bom, ele não está errado. — O que você realmente quer em Montfort?

Os olhos de Tyton brilham quando ele finalmente se digna a me olhar da janela.

Ergo o queixo.


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