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Excerpt for Preciso te Contar Uma Coisa by , available in its entirety at Smashwords

Copyright © 2019 Bobbi Leão

Todos os direitos reservados à autora.


Imagem da capa

Pixabay


Adaptação e projeto gráfico da capa

Thaina Fernanda Batalha


São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte desta obra, através de quaisquer meios — tangíveis ou intangíveis — sem o consentimento por escrito da autora, exceto em caso de breves citações contidas em resenhas.


Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos são produtos da imaginação da autora ou são usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com eventos, lugares ou pessoas (vivas ou mortas) reais é coincidência.














Esse é para todo mundo que embarcou nessa

comigo; seja desde Diga Sim, das fanfics ou ainda antes.

É um presente.












AGOSTO DE 2018





um



Não foi Nico que atendeu a porta.

Erica tinha esperado por ele quando tocou a campainha.

Nico tinha mandado uma mensagem para ela mais cedo. Tô indo pra casa agora. Você tá livre? Eles faziam esse tipo de coisa o tempo todo.

Posso pegar comida chinesa pra gente, ele tinha mandado outra logo em seguida, antes mesmo de Erica ter lido a primeira.

Erica tinha respondido que ela podia passar pegar a comida.

Não fazia sentido Nico pegar — Erica ia passar pelo restaurante no caminho da casa dele. (Ela sempre estava propositalmente livre na hora do almoço. Era quando eles se viam.) Ela só precisava colocar um sutiã e vestir seus sapatos.

Não ia demorar.

Ela dirigiu até a casa de Nico com os vidros do carro fechados. Estava frio o suficiente para usar mais de um casaco na rua.

A vaga perto da esquina onde Erica gostava de estacionar estava livre quando ela chegou. Ela tinha dado sorte — o vizinho de Nico sempre roubava o lugar na hora do almoço. Ninguém queria manobrar o carro de estômago cheio.

Erica pegou sua bolsa junto com a sacolinha com a comida e trancou o carro. Seu celular estava na mão.

A casa de Nico era a única da rua que tinha três andares. Também era a única que era rosa. (Erica amava essa parte. Era como se ele vivesse na versão finalizada da casa dos sonhos da Jenna de De Repente 30.)

Ela guardou seu celular no bolso de trás da calça e tocou a campainha.

Não demorou muito para virem abrir a porta para ela.

— Ah, é você — Arthur disse quando a viu.

Erica sorriu para ele e colocou o cabelo atrás da orelha.

— Oi, Arthur. O seu irmão tá em casa?

Ela tinha imaginado que eles fossem estar sozinhos. Era por isso que se encontravam àquela hora. Os pais de Nico sempre almoçavam na rua e Arthur sempre estava fazendo alguma coisa fora de casa. (Ele era um daqueles adolescentes inquietos.)

— Tá sim. Vou chamar ele pra você — Arthur disse, dando um passo para trás para Erica passar. — Nico! — ele gritou enquanto Erica se espremia entre e o parapeito da porta. — A Lorde Farquaad tá aqui!

Erica ouviu Nico descendo as escadas. Não sabia como ele sempre conseguia fazer aquilo tão rápido — eram dois lances de escadas.

Ele estava descalça e com a gola da camisa desabotoada.

Nico encarou Arthur antes de dar oi para Erica.

— Eu já disse pra você parar de chamar ela assim.

Arthur enfiou as mãos nos bolsos do seu moletom preto.

— É por causa do corte de cabelo — ele explicou.

Arthur.

— Não se preocupa, Nico. — Erica sorriu, então deu de ombros. — É só uma piada. Eu não ligo. — Não era exatamente um elogio ser comparada com o Lorde Farquaad de Shrek, mas era engraçado.

— Mesmo assim — Nico disse. Então ele olhou para Arthur. — É mal educado.

Erica deixou pra lá. Eles sempre estavam arrumando algum motivo para discutir. Não sabia se isso era uma coisa de irmãos — ela era filha única.

— Tá, eu paro então. — Arthur encolheu os ombros. Ele olhou para Erica. — Mas você sabe que não quis te ofender, né, Erica? Eu gosto do seu corte de cabelo.

Erica sorriu. Ela trocou a sacolinha com a comida de mão porque estava começando a ficar pesada.

— Eu sei.

— Vem — Nico disse para ela —, vamos lá pra cima.

Ele começou a subir as escadas.

— Ah, e eu já tô indo — Arthur avisou, e Nico parou para ouvi-lo. Arthur passou a mão pelo seu cabelo crespo black power e ajeitou seu piercing no nariz. Era uma argolinha prateada. — Já avisei a mãe que vou na casa do Lucas jogar videogame. Ela vai passar me pegar lá quando sair do trabalho.

— Tá. Tranca a porta quando você sair — Nico o lembrou.

Arthur assentiu. Ele estava sorrindo agora.

— Divirtam-se.

Erica seguiu Nico pelos dois lances de escada. O quarto dele ficava no último andar junto com o escritório do pai dele e uma das salas de TV. Ele tinha se mudado para lá quando fez 16 anos e resolveu bater o pé que precisava de privacidade. Pelo que Erica sabia o quarto dele costumava ser uma espécie de depósito antes.

Não parecia em nada um depósito agora. (Só era grande como um.)

(Devia ser uma das vantagens de ter um pai arquiteto.)

Erica deixou sua bolsa junto com o celular em cima do sofá que havia perto dos pés da cama de Nico, então andou até a mesa dele para colocar a comida, tomando cuidado para manter distância do computador.

Ela ouviu Nico trancando a porta do quarto.

Erica tirou uma das caixinha de comida de dentro da sacolinha junto com os biscoitos da sorte.

— Tenho quase certeza que o seu irmão sabe que a gente tá transando — ela disse, olhando para ele um pouco por cima do ombro quando falou.

— A essa altura acho que todo mundo sabe que a gente tá transando — Nico disse, então riu da cara que Erica fez. — Não é nada de mais. O Arthur não vai falar com ninguém sobre isso.

Erica se virou e viu Nico se sentar na cama. Ele já devia estar ali quando ela chegou, a colcha azul marinho estava um pouco amassada.

— Você acha?

— Tenho certeza. Ele sabe que se falar alguma coisa eu posso deixar escapar pra nossa mãe que ele não vai na casa do Lucas para jogar videogame.

Erica o encarou.

— Nico, isso é chantagem.

— Eu nunca falaria pra nossa mãe de verdade, só preciso que ele pense que sim — Nico disse. Então cruzou as pernas em cima do colchão. — Sério, Erica, eu não falaria. Não precisa me olhar com essa cara. E aí, o que você trouxe de almoço para a gente?

Erica tirou a outra caixinha de dentro da sacolinha e pegou os hashis que tinham vindo junto.

— Tem yakisoba vegetariano e frango xadrez com arroz. Qual você prefere?

Nico deu de ombros.

— Tanto faz. A gente pode dividir.

Ele começou a desabotoar sua camisa. Nico a tirou e se inclinou para pegar a blusa cinza que estava estendida no encosto do sofá.

Ele a enfiou pela cabeça.

— Não queria sujar minha camisa branca.

Erica se sentou do lado dele na cama. Ela esperou ele terminar de se vestir para entregar o frango xadrez com um dos biscoitos da sorte para ele.

— Eu vi que você tá todo arrumado.

Nico se ajeitou do lado dela de volta.

— Acabei de chegar de uma entrevista de emprego. Tava me trocando quando ouvi a campainha.

Então era por isso que ele tava descalça.

Erica desgrudou um hashi do outro e abriu a caixinha. Saiu um pouco de fumaça.

— Hmm, ainda tá quentinho.

— Não sei como você consegue que eles te deem hashis toda vez — Nico disse, abrindo sua caixinha. Ele afastou um pouco o rosto quando saiu fumaça da comida dele.

Erica deu de ombros e pegou um brócolis com os hashis. Ela o mastigou enquanto abria o seu biscoito.

— Acho que eu só tenho sorte.

Nico também abriu o seu. Ele o quebrou ao meio e enfiou uma das duas partes na boca.

— Ou o cara do caixa tem uma quedinha por você — ele falou enquanto quebrava o biscoito entre seus dentes, então puxou o papel preso na outra metade. — Você é jovem apenas uma vez. Depois precisa inventar outra desculpa — ele leu, mastigando. — Muito propício. O que você tirou?

Erica quebrou o seu biscoito e puxou o papel.

A maior de todas as torres começa no solo.

Nico desgrudou os seus hashis e enfiou o que tinha sobrado do seu biscoito na boca.

— Gostei mais do seu.

Erica assentiu. O dela tinha mesmo sido melhor.

— É uma garota — ela disse, então.

— O quê?

Nico pegou um pouco do frango xadrez com arroz e começou a comer. Era o favorito dele — vinha amendoim.

Erica olhou para ele.

— A pessoa que fica no caixa. É uma garota.

Nico deu de ombros e pegou outro frango.

— Meu argumento continua o mesmo.

Erica comeu o seu biscoito da sorte. Para Nico todo mundo tinha uma quedinha por ela. Não ia discutir aquilo com ele outra vez.

— E como foi a entrevista hoje?

— Não sei, normal. Acho que foi bem até, na verdade, mas isso não significa que vou conseguir o emprego. — Ele sabia disso àquela altura.

Erica pegou um pedaço de cebola com macarrão com os hashis e levantou a caixinha para não correr o risco de derrubar no lençol quando se inclinou para enfiar na boca. Ela mastigou e olhou para Nico.

— Qual era a vaga dessa vez?

— Era em um cartório. — Nico franziu o nariz. — O trabalho é meio chato, mas o salário era legal. Meu pai tá ficando impaciente com a minha demora pra arrumar um emprego.

De repente ela percebeu como ele parecia cansado.

Erica endireitou a postura quando terminou de mastigar e deixou seus hashis no canto da caixinha. Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto dele. Adorava como o cabelo dele era cortado; em degradê até o topo, então comprido, caindo pela lateral do rosto dele, quase tocando o olho direito de Nico.

— É só questão de tempo — ela disse.

Era o que todo mundo dizia quando você procurava um emprego. Esperava que fosse verdade.

Nico estava frustrado.

— Meu pai disse que eu devia tirar os meus brincos, que isso ia aumentar minhas chances de um emprego.

Erica riu e pegou seus hashis de novo.

— Isso é besteira. — Eram dois brincos de argolinha em cada lóbulo, não era nada de mais. Não era como se ele tivesse as duas sobrancelhas contornadas por piercings.

Nico deu de ombros. Ele se inclinou para pegar um pouco de macarrão de Erica.

— Ah, sei lá. Eu tô pensando em tirar pra ver se ajuda. Não aguento mais ir nessas entrevistas. Os seus pais não estão te pressionando pra arrumar um emprego?

Erica balançou a cabeça.

— Não. Acho que é porque a minha mãe é escritora, então eles sabem como é isso de “ser artista” — ela fez aspas no ar com a mão que estava segurando os hashis. A outra estava segurando o yakisoba. — Sabem que demora pra engrenar. Eu tenho sorte de poder investir no que quero fazer sem precisar logo de retorno financeiro. — É claro que às vezes ela ficava preocupada sobre o que aconteceria se no fim aquilo não desse certo, se a carreira dela nunca engrenasse. Só que fazia parte.

Nico balançou a cabeça.

— É, mas sei que você também tem seus próprios problemas — ele disse. Ele estendeu o frango xadrez para Erica. Ela pegou junto com a cebola e o pimentão. — Não sei você, mas eu tô meio cansado. Só ontem eu fui em quatro entrevistas de emprego e mais uma hoje. — Ele bufou. — Eu tô tão exausto que tô quase considerando procurar algo fora da minha área porque não tô conseguindo nenhum em administração. Às vezes eu acho que só de eu arrumar um emprego, qualquer um, pelo menos já vai acalmar meus pais.

Erica tocou o joelho dele.

— Tem alguma coisa que eu posso fazer pra te ajudar?

Tinha sido a pergunta certa.

Nico começou a rir.

— Eu sei o que vai melhorar o meu humor.

Erica pôde sentir suas bochechas esquentando. Ela empurrou o ombro dele.

— Nico!

Só que ela também estava segurando para não rir.

— É brincadeira. — Ele pegou mais um pouco do yakisoba dela. — Ah, eu te contei que encontrei a Mariane esses dias no centro?

Erica fez que não. Ela mastigou mais do macarrão.

— A que estudou com a gente no ensino médio? — Era por isso que ela evitava o centro da cidade.

— É. Ela disse que a turma tá pensando em fazer um churrasco ou alguma outra coisa de reunião do ensino médio no sábado.

— Não sei como você aguenta esse pessoal.

Nico sorriu para ela.

— Acho que eu teria conseguido escapar e fingido que era outra pessoa se eu não tivesse sido o único cara negro da nossa sala.

— Ela parou pra falar só disso com você? Da reunião da nossa sala?

— É.

— Por quê? — Erica colocou o cabelo atrás da orelha, tomando cuidado para não sujar ele de shoyu. — Ela nem falava com a gente no ensino médio.

Nico deu de ombros e se esticou para alcançar o celular dele que estava em cima do criado mudo.

— Ah, sei lá. Acho que ela tá curiosa sobre o que todo mundo tá fazendo. — Ele abriu a câmera do celular e tentou achar um angulo bom pra tirar foto do almoço deles. — Ela veio me perguntar se eu já tava trabalhando.

Erica se segurou para não revirar os olhos. Ela esperou Nico bater a foto para voltar a comer.

— Claro que ela tá curiosa. É por isso que essas reuniões de ensino médio existem. As pessoas só querem mostrar como mudaram e como agora são interessantes, é só exibicionismo.

Nico apagou a tela do celular dele e o deixou em cima da cama.

— Você vai se tiver?

— Não.

— Por quê?

Erica riu.

— Você é a única pessoa que me perguntaria isso depois de eu ter passado quase três minutos falando mal desse tipo de coisa.

Nico deu de ombros. Ele mastigou um pouco do amendoim.

— Ah, não deve ser tão ruim.

Erica olhou para ele.

— Mesmo se não fosse… Eu não falava com mais de metade da nossa sala quando a gente estudava. E a essa altura não me dou bem ou perdi contato com a metade que eu falava.

Nico sorriu para ela.

— Acho que eu tenho que me considerar um cara de sorte então por você ainda falar comigo.

Erica sorriu de volta. Ela pegou o último brócolis.

— Tem mesmo.

Nico riu. Ele pegou as caixinhas vazias do almoço dele e de Erica e as jogou no lixo do seu quarto.

— Depois eu levo lá pra baixo pra não encher de formiga. — Ele desabotoou sua calça jeans e começou a tirá-la. A cueca dele era rosa pastel. — Você quer escovar os dentes antes da gente cochilar?

Era a preferida de Erica.

Erica sorriu pra ele. Ela arqueou uma de suas sobrancelhas.

— Achei que você tivesse me chamado aqui pra outra coisa.

— A gente pode transar quando acordar.





dois



— Você ronca enquanto dorme.

Erica olhou para o lado.

Nico estava deitado de lado com a cabeça em cima do travesseiro, sorrindo para ela.

Erica sorriu de volta.

A franja dela estava grudada nas têmporas por causa do suor. Ela tinha puxado a colcha azul para cima para se cobrir quando Nico foi para o banheiro jogar fora o preservativo. Os dois ainda estavam sem roupas debaixo das cobertas.

— Não ronco não — ela disse.

Alguém já teria dito para ela àquela altura se fosse verdade.

Nico riu e passou o polegar pela bochecha dela.

— Ronca.

Erica puxou a coberta mais para cima. Ainda não tinha recuperado completamente o ar.

— Então por que você nunca me contou antes?

Aquela não tinha sido a primeira vez que eles cochilavam juntos.

Nico beijou o pescoço suado dela. Erica sentiu a perna dele tocando a sua debaixo das cobertas.

— Estava distraído com outra coisa.

Erica segurou um sorriso. O pé dele tava gelado.

— Não antes hoje, antes antes.

Nico franziu o nariz.

— Não sei, acho que o assunto nunca surgiu.

Ela o encarou, arqueando uma de suas sobrancelhas.

— E você diria que o assunto surgiu agora?

Nico riu.

— Ah, talvez. Você tava com uma expressão fofinha e eu sempre te acho atraente quando você fica assim. Queria compartilhar um segredo meu com você.

Ah, Erica podia perdoá-lo se esse fosse o caso. Mas ainda assim.

— Você podia ter me contado da primeira vez que ficou chapado em uma festa de faculdade.

— Eu nunca usei drogas na minha vida — Nico disse.

Ela pensou por um segundo.

— Então podia ter me contado que curte assistir pornô de bukkake.

— Ei, isso era segredo.

Mas ele estava rindo.

Erica se aproximou e beijou a bochecha dele, perto do cantinho da boca. Ela sentiu a barba dele contra o seu rosto.

— Fico contente que você esteja melhor. Não gosto de te ver frustrado.

Nico passou o braço por trás dos ombros dela.

— Eu sei.

Erica o abraçou de volta. Eles ficaram assim por um tempinho.

Então ela passou a mão pela lateral de Nico.

— Você sabe que horas são?

— Acho que quase umas cinco.

Erica riu. (Tinha certeza que ele estava brincando.)

— A gente não pode ter dormido por duas horas.

— Ah, a gente dormiu.

Ela balançou a cabeça. Ainda não tinha acreditado nele.

— Você tá mentindo.

Nico balançou a cabeça, então pegou seu celular do criado mudo para mostrar o horário para Erica. Tinha colocado o celular ali antes deles se deitarem.

— Não tô. Olha.

Erica esfregou o rosto. Nico não estava mentindo.

— Ainda bem que deixei um bilhete na geladeira pra minha mãe avisando que ia sair.

Nico colocou o celular de volta no lugar e se virou para olhar para Erica. Ele a abraçou de novo.

— Você falou aonde ia?

— Avisei que a gente ia almoçar junto.

— Eu tava certo. Todo mundo realmente sabe que a gente tá transando.

Erica bateu de levinho nele, e sorriu.

— Não exagera.

— Você não conta pros seus pais que vai sair pra almoçar com o seu amigo super atraente e volta quatro horas mais tarde, Erica. É óbvio demais.

Erica ergueu uma sobrancelhas.

— O que eu deveria ter dito?

Nico pensou por um segundo.

— Que você foi na sua aula de boxe.

— Minha mãe sabe qual é o horário que eu faço boxe.

Ele beijou a testa dela.

— Ah, sei lá então. Você podia falar que ia comprar roupas?

— Eu só compro roupas pela internet. — Não só porque era gorda e era mais fácil achar roupas na internet. Erica não gostava de fazer compras com pessoas em volta dela.

Ela considerava aquilo um esporte individual, não de equipe.

— Você deve sair de casa pra fazer alguma coisa, né?

— Eu saio quando minha mãe me coage a fazer alguma coisa pra ela.

Nico riu.

— É, você tem razão. Foi melhor mesmo ter simplesmente dito a verdade. Se você mentisse aí que a sua mãe ia ter certeza que a gente tá transando.

— Nico!

Ele olhou para ela. Seu sorriso estava alcançando os olhos.

— Pensando por esse lado, é genial. Ninguém suspeitaria que se você saísse pra transar você iria simplesmente dizer. Eles devem estar pensando que você tá na sua aula de boxe agora.

Erica fez uma careta.

— Eu posso sair pra fazer sexo se eu quiser, não é nenhum escândalo. Eu tenho 23 anos.

— Eu sei. Mas tentar esconder que você tá fazendo sexo é praticamente metade da emoção de fazer sexo. — Ele deslizou o polegar pelo braço branco dela. — Não acredito que eu preciso te ensinar tudo.

Erica sorriu e piscou de lado para ele. Às vezes não podia acreditar que se sujeitava àquele tipo de coisa.

— Pelo menos eu aprendo rápido. — Àquele tipo de flerte.

Era o jeito que garçonetes de filmes trash chamadas Amber flertavam. Era constrangedor, mas era tão divertido.

— Ah, eu sei que aprende. — Principalmente porque Nico sempre entrava na brincadeira.

Erica riu, então o empurrou debaixo das cobertas.

— Acho melhor levantar. A preguiça só vai aumentar de ficar mais tempo na cama.

— Não — Nico disse, aumentando a pressão do braço dele que estava em volta de Erica. — Tá frio demais e você tá me esquentando.

— É, mas daqui a pouco a sua mãe chega. Preciso me vestir e ir embora.

Nico ainda estava segurando ela.

— Nico, é sério.

Nada ainda.

— Eu preciso fazer xixi.

Ele finalmente bufou baixinho.

— Tá bom. Tá bom.

Ele deu espaço para Erica passar. Ela saiu de baixo das cobertas e pulou por cima de Nico para sair da cama. Ele tinha uma suíte no quarto dele, então Erica não ia precisar sair para usar o banheiro do corredor.

Ela pegou sua calcinha que estava enrolada no meio da sua roupa no chão e fechou a porta atrás depois de entrar.

Nico estava olhando para ela quando ela voltou.

— Gostei da calcinha nova.

Erica sorriu. Não imaginou que ele fosse reparar.

Não era como se ela estivesse usando lingerie combinado. (Nem tinha sutiãs o suficiente para isso.)

Mas era verdade que Erica tinha mudado algumas coisas no seu guarda-roupa depois que começou a sair com Nico.

Não que tivesse sido intencional.

Nunca imaginou que fosse ser esse tipo de pessoa. Ela nem tinha certeza se já era esse tipo de pessoa, mas de repente começou a sair de todos os sites onde comprava roupas com o carrinho cheio de calcinhas novas, daquelas que enfiavam na bunda — as que ela nunca tinha gostado.

A parte mais embaraçosa era que Erica tinha levado esse tipo de coisa tão a sério antes. Ela tinha escrito um artigo no ensino médio contra calcinhas fio dental. Elas não eram confortáveis, não era possível que alguém usasse aquele tipo de calcinha porque realmente gostasse. Erica tinha argumentado que elas estimulavam a objetificação. (Não que fosse necessariamente verdade. Ela só tinha passado grande parte da sua adolescência na internet lendo sobre feminismo radical.)

— Obrigada.

Uma parte dela tinha gostado que ele tivesse reparado. Devia ser a mesma parte que tinha comprado as calcinhas.

Nico sorriu para ela.

— Ah, você pode mandar pra mim depois o telefone daquela menina que arrumou o seu computador? O meu voltou a entrar no modo avião sozinho.

Erica balançou a cabeça.

Ela pegou seu celular do sofá e o jogou na cama para Nico.

— Toma, olha na minha agenda. Acho que salvei o número dela como Miriam Computador.

Erica pegou sua calça no chão. Ela enfiou uma de suas pernas nela.

Nico acendeu a tela do celular dela.

— Precisa de senha.

— É zero dois zero três.

Erica abotoou seus jeans, então se inclinou para pegar seu sutiã e a blusa nos pés da cama.

— Miriam, né? — Nico confirmou.

— É.

Ela viu Nico mexer no seu celular por um segundo.

— Pronto, já mandei o número pra mim. — Então ele ficou em silêncio por um segundo antes de olhar para ela. — E aí, você anda fazendo muito sucesso no Tinder?

Erica ergueu o rosto para encará-lo. Tinha se esquecido que tinha o aplicativo instalado.

Ele não perdia nada.

— Na verdade faz tempo que eu não entro.

Nico desligou a tela do celular dela e o colocou em cima da cama.

— Você chegou a sair com alguém de lá?

Erica franziu o nariz enquanto abotoava o sutiã.

— Umas duas vezes.

— Faz tempo?

— Um pouco. Não me lembro da data específica.

Nico balançou a cabeça. Ele se sentou na cama e puxou a coberta até a altura do umbigo, dobrando sua perna para apoiar seu cotovelo sobre o joelho.

— Foi antes da gente começar a sair?

Erica riu.

— Nossa, com certeza.

— Hã, então você não saiu com mais ninguém depois que a gente ficou junto?

— Não — Erica respondeu. Mas não conseguia deixar de lado o sentimento de que estava sendo sondada.

Ela segurou sua blusa na mão e andou até Nico, sorrindo, e se sentou do lado dele na cama.

— O que foi? Tá até parecendo que você tá com ciúme.

Era uma piada.

Quer dizer, era verdade, mas também era uma piada.

Erica estava esperando que Nico fosse rir ou fazer algum comentário espirituoso sobre isso, mas ele só continuou olhando para ela.

— Não é um sentimento completamente irracional — ele disse.

Então ele tava com ciúme.

Erica mordeu o lábio inferior e assentiu.

— Eu sei. Não tô tirando sarro, eu só não imaginei que você fosse do tipo que ficasse com ciúme. — Ela passou a mão pelo braço dele.

Nico assentiu de volta. Então deu de ombros.

— Mas também não é como se a gente tivesse combinado que não iríamos sair com mais ninguém.

Erica sorriu para ele.

— Eu sei — ela disse. Então franziu o nariz, ainda sorrindo. — Mas não sinto necessidade de sair com várias pessoas. Tô bem do jeito que a gente tá.

Nico sorriu de volta. Ele parecia uma criança quando sorria daquele jeito para ela.

— Eu também.

Erica ergueu uma sobrancelha.

— Então você não saiu com mais ninguém depois que a gente ficou junto? — ela o imitou, brincando.

Era uma pergunta retórica — era outra piada.

Não achou que ele fosse responder.

Nico se inclinou na direção de Erica e passou a mão pelo pescoço dela.

— Não saí.

Ela assentiu. De repente a vontade de rir tinha passado.

Nico deslizou a mão pelas costas dela e parou no fecho do sutiã. Ele o abriu.

— Nico…

Nico riu.

— Tá bom. Desculpa, eu não resisti. Vira aqui que eu abotoo de volta pra você.

Erica se virou de costas para ele. Ela esperou Nico fechar o sutiã, então enfiou sua blusa de alcinha pela cabeça.

— Obrigada.

Seu suéter ainda estava no chão.

Nico olhou para ela.

— Alguém já se ofereceu para ser modelo nu pra você quando estava na faculdade? Vocês faziam desenhos assim, não faziam?

Erica deu de ombros e assentiu. Não sabia de onde estavam vindo todas aquelas perguntas hoje.

— Já, mas não é atraente como as pessoas imaginam. É meio desconfortável.

Nico ainda estava com a mão nas costas dela.

— Sério?

— Ah, talvez se eu estivesse saindo com a pessoa seria legal. Quando eu penso nesse contexto é atraente… mas fora isso é o meu trabalho, sabe? Não uma oportunidade pra alguém se exibir e ficar com tesão.

Nico assentiu.

Erica olhou para ele.

— Mas se você tá perguntando isso porque tá considerando posar nu é só me avisar. — Ela sorriu. — Esse seria um dos contextos em que é atraente.

Nico riu e tocou o rosto dela.

Erica se inclinou na direção da mão dele, então se levantou da cama e pegou seu suéter, depois sua bolsa e o celular.

Precisava ir. Não estava nos seus planos esbarrar na família inteira dele.

Nico começou a se levantar também.

— Espera eu me vestir, vou descer com você.

Erica assentiu enquanto vestia o suéter.

— Eu espero.

Nico colocou a cueca com a calça e enfiou de volta sua blusa cinza. Ele foi até o banheiro para terminar de se arrumar, então pegou sua carteira em cima da mesa quando voltou para o quarto.

— Quanto ficou? — ele quis saber.

Erica franziu o cenho.

— O quê?

— O almoço. Pra gente dividir.

Ela balançou a cabeça.

— Você pagou da última vez, eu pago dessa.

— Erica…

— Você pode pagar da próxima de novo.

Nico ergueu uma sobrancelha, mas acabou concordando. Ele colocou a carteira de volta em cima da mesa e começou a enfiar os sapatos que tinha usado para ir na entrevista. Eram os que estavam mais fáceis.

— Tá bom. Mas então nada de você ficar discutindo comigo pra gente dividir.

Erica sorriu. Ela fazia isso mesmo.

— Prometo.

Nico destrancou a porta do quarto dele e eles desceram pelas escadas.

A mão dele tocou a de Erica duas vezes durante o caminho. Ele sorriu para ela nas duas vezes.

Eles tinham acabado de pisar no primeiro andar quando ouviram a chave de alguém na porta. Era a mãe de Nico com Arthur.

Laura sorriu quando viu Erica.

— Ah, que bom te ver aqui, Erica! Como estão seus pais? Faz tempo que não vejo eles.

Erica se inclinou para abraçar Laura. Ela tinha dito para Nico que aquilo ia acontecer.

— Eles estão bem — Erica disse, sorrindo. Laura não tinha culpa que eles não sabiam ativar um despertador.

— Nunca mais encontrei sua mãe nas aulas de yoga.

— Ela anda meio ocupada com o livro que tá escrevendo — Erica explicou. Sua mãe tinha a tendência de abandonar toda a sua rotina quando começava alguma história nova. E quando arrumava um hobby novo. Dessa vez era jardinagem.

Laura sorriu e passou a mão pelo cabelo de Erica.

— Bom, diga para ela que eu mandei um oi.

Ela assentiu.

— Pode deixar que eu digo.

Erica teve que ajeitar sua bolsa no ombro. A alça tinha começado a escorregar pelo seu braço por causa do movimento.

A mão de Nico roçou na dela novamente quando Erica endireitou a postura.

Erica pôde ver os olhos de Laura seguindo o movimento.

Ela quis matar Nico.

Mas Laura agiu como se nada tivesse acontecido.

— Vocês comeram alguma coisa de café da tarde?

— Não — Nico disse, encostando no corrimão da escada. — A gente tava assistindo TV lá em cima.

Arthur ergueu uma sobrancelha para eles. Ele estava parado atrás de Laura, segurando a pasta de trabalho de sua mãe.

Erica fingiu que não viu.

Laura encarou Nico.

— Nicolau, filho, não me diz que você ia deixar a Erica ir embora sem oferecer nada para ela. — Ela era a única pessoa que podia chamar Nico pelo nome completo.

Nico olhou para sua mãe.

— Eu…

Ele não tinha a menor ideia do que ia dizer.

— Na verdade, Laura, eu já tava de saída — Erica se desculpou. — Minha mãe me mandou mensagem, quer que eu passe no supermercado para ela antes de ir para casa.

Laura encarou Nico por mais um segundo, então olhou para Erica.

— Me prometa que você vai voltar em breve.

Erica sorriu.

— Claro.

— A gente podia fazer um jantar — Laura disse. Ela pareceu muito animada com a ideia. — Reunir as duas famílias. Tenho certeza que seus pais também iriam adorar.

Arthur tossiu um pouco atrás da mãe dele, escondendo uma risada.

Nico tava certo. Todo mundo sabia que eles estavam transando.

Erica forçou um sorriso.

— Claro — ela repetiu. — É só combinar.

Laura assentiu.

— Vou ligar para a sua mãe então.

Erica concordou. Não via a hora de sair dali.

— Vou avisar ela.

— Bom, vou deixar você ir então. Coloque a minha pasta no meu quarto junto com minha bolsa, por favor, filho. — Laura se virou e deu sua bolsa para Arthur. — Depois desça na cozinha que a mãe vai querer sua ajuda com o jantar. — Então ela sorriu para Erica mais uma vez. — A gente se vê, querida.

Erica acenou para ela.

Nico saiu com Erica até a calçada.

Ele colocou as mãos nos bolsos e olhou para seus pés por um segundo.

— Desculpa por isso.

Erica balançou a cabeça. Ela não estava esperando por aquilo, mas…

— Tudo bem. — Sabia como mães eram.

Mas da próxima vez ia lembrá-lo do despertador.

Nico se inclinou para beijar Erica na bochecha. Ele passou a mão pelo rosto dela.

Erica estava muito consciente da porta da casa dele aberta atrás deles. Não importava que Laura tivesse ido para a cozinha.

— A gente se vê depois então — ele disse, sorrindo para ela. — Você me manda mensagem ou eu te mando mensagem… o que vier primeiro.

— Combinado.

Erica sorriu de volta. Ela pegou a chave do carro de dentro da sua bolsa e atravessou a rua.

Nico esperou ela entrar no carro.

— E não se esquece de passar no supermercado pra sua mãe no caminho! — ele riu.


***


A mãe de Erica estava no jardim quando ela chegou em casa.

— Mãe? — Erica fez quando passou pela porta. Ela trancou a fechadura. — Cheguei!

— Tô aqui fora, querida!

Erica foi até o quintal. As portas francesas que davam da sala para o jardim estavam abertas.

Então era por isso que a casa estava gelada daquele jeito.

Erica colocou a cabeça para fora. Sua mãe estava no meio das flores com um chapéu enorme e luvas junto com o seu padrasto. Ela levantou o rosto e sorriu para Erica.

— Só vim avisar que já tô em casa — Erica disse.

Analu assentiu.

— Como foi a sua tarde?

— Foi boa — Erica disse. Ela ajeitou a alça da sua bolsa, então franziu o nariz. Nunca conseguia pensar em algo melhor para falar quando vinha da casa de Nico. Ela acenou para sua mãe. — Tô indo tomar banho, quero tirar esse cheiro de rua.

De rua. Aham.

Analu assentiu.

— Lave bem os pés! — Castor disse.

Erica sorriu.

— Pode deixar, pai.

Ela foi primeiro até o seu quarto e deixou sua bolsa em cima da única poltrona que havia no cômodo. Ela era rosa e antiga — só que não parecia antiga porque Analu tinha arrumado um hobby de reformar móveis no final de 2016. Elas tinham aquela poltrona desde que Erica tinha nascido.

Erica tirou seu suéter e o deixou em cima da cama. Não podia acreditar que tinha perdido a tarde inteira dormindo.

Ela podia ter terminado uma de suas esculturas nesse meio de tempo.

Erica tirou os sapatos e foi até o banheiro. Ela abriu a gaveta do armário e pegou um elástico para prender o cabelo. Ah, tanto faz. Não ia adiantar tentar recuperar o tempo perdido agora, a luz não estava boa o suficiente. Ela prendeu as mechas que não alcançavam o elástico com tic-tacs.

Podia se preocupar com isso amanhã.

Erica vestiu seu pijama de frio depois de sair do banho. Ela tinha enfiado uma de suas calcinhas novas antes de colocá-lo e soltado o cabelo.

Seus pais estavam na cozinha fazendo o jantar.

Erica andou até eles.

Castor estava ralando cenoura e Analu estava sentada no balcão bebendo suco de laranja. O chapéu e as luvas dela estavam no canto do balcão e sua franja estava afastada para o lado.

Ela e Erica tinham o mesmo corte de cabelo. A única diferença era que o de Erica era mais curto — ele mal tocava o maxilar dela. O de Analu passava dos ombros.

Erica pegou uma maçã da geladeira e olhou para a sua mãe.

— E como foi o dia de vocês?

— Muito bom. A gente mexeu no jardim e eu revisei um capítulo novo do meu livro. Foi uma tarde produtiva. — Analu sorriu para ela. Ela deu um gole no suco. — Ah, também terminamos de assistir La Casa de las Flores.

Erica deu uma mordida na maçã e puxou o banquinho do balcão para se sentar.

— Gostaram do final?

O balcão era a única divisória que eles tinham entre a sala e a cozinha.

Analu e Castor balançaram a cabeça ao mesmo tempo, fazendo que sim. A sincronia fez Erica sorrir um pouco.

— Tô ansiosa pra segunda temporada — Analu disse.

O pai de Erica olhou para ela.

— Você ainda não terminou de ver?

Erica fez que não.

— Parei no episódio oito. Preciso terminar o resto.

Então Analu olhou para ela.

— E como o Nico está? — Ela até deu mais um gole no seu suco, como se só estivesse perguntando aquilo para jogar conversa fora ou por educação.

Erica engoliu o pedaço de maçã que tinha mordido.

— Bem.

Analu assentiu.

— Você ficou na casa dele a tarde inteira?

— Aham — Erica disse, então mordeu a maçã de novo. — A Laura perguntou de você. Disse que faz tempo que não te vê na yoga.

Analu colocou o cabelo atrás da orelha.

— Ah, eu sei. Vou tentar ir na próxima aula. O Nico falou alguma coisa?

Erica se fez de desentendida. Ela até franziu o cenho.

— Sobre a sua aula de yoga?

Analu abriu a boca para responder, mas Castor a interrompeu.

— Calma, por que vocês estão falando tanto sobre esse menino? — Ele afastou a cenoura picada para o canto da tábua de vidro com a faca e pegou o repolho roxo. — Ninguém me disse que eles estavam namorando.

— A gente não tá — Erica disse.

— Porque eu gostaria de saber se vocês estivessem — Castor continuou falando. — Você sabe que eu me importo com quem são seus amigos e com quem você namora, filha. Gosto de conhecer as pessoas que são importantes pra você.

— Eu sei. Mas a gente realmente não tá namorando. — E o pai dela já conhecia Nico.

Castor murmurou alguma coisa. Então ele disse:

— Não acho que era assim que as amizades funcionavam na minha época.

Analu riu. Ela tocou a mão de Castor.

— Acho que os jovens de hoje em dia têm rituais de cortejo diferente dos nossos, querido.

Erica balançou a cabeça.

— Vocês falam como se fossem de outra época. — Tinha decidido ignorar a parte do “rituais de cortejo”.

Analu sorriu.

— Ah, Erica, nós somos.

— Você tinha o que quando eu nasci? 45? Grande coisa.

— Quarenta e nove.

— Foi perto — Erica sorriu.

— Mas você vai me contar, não vai? — Castor perguntou, sem conseguir deixar o assunto de lado. — Se vocês começarem a namorar.

Erica se levantou do banquinho e jogou a parte não-comestível da maçã no lixo.

— Eu vou — ela cedeu. — Mas a gente não vai começar a namorar, pai.

A resposta dela foi o suficiente para deixar Castor satisfeito.

— Você acha que eu devia picar tomate também para a salada? — ele perguntou para Analu enquanto ainda picava o repolho.

A mãe de Erica fez que sim.

— Vai ficar bom.

Erica endireitou a postura.

— Vou pro meu quarto. Vocês me chamam quando o jantar estiver pronto?

— Claro, filha — Castor disse.

Erica foi para o quarto e subiu na cama. Ela ligou o computador e o colocou em cima da do colchão enquanto se ajeitava de bruços. Era a quarta vez que estava assistindo Everything Sucks.

Tinha uma mancha vermelha no lençol de ketchup do dia anterior. Parecia que tinha ficado menstruada enquanto dormia. Erica deitou em cima dela e apertou play no episódio 6.

Era o preferido dela.





três



Nico mandou mensagem para Erica de novo no dia seguinte.

A casa dele ia estar livre mais uma vez na hora do almoço e ele não tinha nenhuma entrevista de emprego marcada. Ele queria ver ela.

Erica estava sozinha na cozinha tomando café da manhã quando seu celular vibrou em cima do balcão. Ela o pegou na mão e encarou a tela por um segundo, clicando nela quando o celular ameaçou apagar.

Não sabia o que responder.

Também queria ver Nico — não era isso.

Ela só não podia ficar mais um dia sem mexer nas suas esculturas. Erica já tinha saído com sua mãe no sábado, e entre almoçar na casa da sua avó domingo e passar a tarde de ontem na casa de Nico ela tinha ficado três dias sem trabalhar.

Não queria ficar quatro. (Não dava para se enganar dizendo que dessa vez iria voltar para casa cedo. Ela e Nico nunca acabavam rápido.)

Erica tocou a tela do celular antes que apagasse de novo, então deixou sua caneca em cima do balcão e clicou na caixa de mensagens, segurando o celular com as duas mãos.

Hoje não vai dar, ela escreveu para Nico. Quero ver se consigo trabalhar nas minhas esculturas.

Ela mandou um emoji no final porque uma parte sua estava se sentindo culpada.

Se fosse no começo talvez ela tivesse ido. Eles não passavam nenhum tempo juntos extra naquela época — ela provavelmente conseguiria ir embora depois de uma hora na casa dele.

Erica não sabia dizer quando o sexo deixou de ser a prioridade dos encontros.

O celular dela vibrou de novo.

Tudo bem, Nico respondeu. A gente combina outro dia!

Ele tinha mandado um daqueles emojis com a língua de fora que Erica tinha pavor. Nico era a única pessoa que ela conhecia que usava eles.

Erica colocou seu celular do lado da caneca de café. Ela mordeu o lábio, então passou a mão pela sua testa enquanto o encarava.

Sabia que tinha tomado a decisão certa.

Precisava priorizar o seu trabalho. Não era o fim do mundo.

Pareceu o fim do mundo quando Erica se sentou para mexer nas suas esculturas depois de escovar os dentes.

Ela estava arrependida. Teria adorado evitar aquilo mais um pouco.

Tudo bem, só fazia três dias que ela não mexia nas suas peças, mas parecia três meses. Seus dedos estavam enferrujados.

Ela se sentia inteira enferrujada — até sua postura estava errada. Tinha se esquecido do quanto precisava se esforçar para ficar com as costas retas enquanto esculpia.

Erica odiava voltar a esculpir depois de uma pausa. (Não importava se tivesse sido uma pausa curta. Era sempre horrível.)

Ela limpou as mãos e pegou o celular, mas não havia nenhuma mensagem nova. Erica checou o seu e-mail. Havia dois não-lidos na caixa de entrada, mas eram propagandas. Nada importante.

Ela não tinha mais nenhuma desculpa para adiar aquilo. A luz do cômodo estava boa e a garrafa de água ao seu lado estava cheia.

Erica se levantou do chão e ligou o rádio. Música sempre ajudava.

Ela atravessou o cômodo e pegou a cadeira de madeira que tinha comprado na loja de móveis usados. Erica respirou fundo e enfiou o avental pela cabeça, então o amarrou atrás da sua cintura.

Vamos lá, disse para si mesma, só até o quadril.

Já seria progresso o suficiente para ela ficar feliz com o dia. Aí Erica iria poder tomar um banho e ver o episódio 6 de Everything Sucks de novo como recompensa pelo seu esforço.

Ela centralizou a cadeira na parte que tinha forrado com saco plástico do chão e colocou um pouco da massa que usava nas suas esculturas em cima do assento.


***


Ela estava fazendo o contorno dos joelhos quando sua água acabou.

Erica pensou em pedir para sua mãe trazer um pouco mais para ela, mas sabia que Analu devia estar ocupada. Ela sempre aproveitava a parte da manhã que Castor estava fora de casa na hidroginástica para escrever.

Erica tentou limpar as mãos na barra do seu avental, mas ele também estava sujo. Ela pegou o pano úmido que estava no chão ao seu lado para limpar elas direito. Precisava esticar as pernas, de qualquer forma.

Erica se inclinou e pegou a garrafa de vidro vazia. Não desligou o rádio antes de ir para a cozinha. Só ia pegar água e voltar, ia ser rápido.

Ela deixou a porta do escritório aberta. (Estava tocando Tori Amos.)

A sala e a cozinha estavam cheirando comida. Analu estava apoiada em cima do balcão com o seu computador aberto enquanto digitava alguma coisa. Tinha duas panelas e uma frigideira no fogão.

Ela tirou seus óculos de leitura do nariz e os colocou na cabeça, sorrindo quando viu Erica.

— Veio ver se o almoço já está pronto?

— Não — Erica disse, então sorriu. — Mas o cheiro tá bom. — Ela deixou a garrafa de vidro vazia no balcão e deu a volta para pegar uma cheia na geladeira. — Só vim pegar mais água.

— Você tá ouvindo Cornflake Girl? — Analu perguntou.

— Aham. — Erica pegou um copo limpo de dentro do armário de madeira e o encheu de água. Ela tocou a porta aberta do armário para fechá-la. A tinta verde pastel estava durando bem, nem parecia que ela e Analu tinham pintado antes dela ir para a faculdade.

Erica deu um gole na água.

Analu estava sorrindo para ela.

— Eu adoro essa música. — Ela se afastou do computador e abriu a tampa de uma das panelas. Era o arroz. O vapor que saiu deixou cheiro de cebola, alho e sal no ar. — O almoço fica pronto daqui a pouco. Fiz salada de frutas para a sobremesa.

Erica colocou o copo de volta em cima do balcão e o encheu mais um pouco.

— Com manga?

Analu desligou o fogo.

— Aham. E morango. Sabe, eu ouvia muito a Tori Amos quando estava grávida de você.

Ela sabia. Analu tinha contado que mesmo quando Erica já tinha nascido ela colocava as músicas da Tori Amos para Erica dormir. Àquela altura Erica também sabia que devia se considerar uma pessoa de sorte por se chamar Erica Regia Valença e não Tori.

Analu abaixou um pouco o fogo da boca da panela que ainda estava ligada, então olhou para Erica.

— Às vezes eu me pergunto se é por isso que você gosta tanto dela.

Erica riu.

— Você também escutava Zé Ramalho quando eu era pequena e nem por isso ouço as músicas dele hoje, mãe. — Não que isso significasse que Erica não gostava delas.

— Ah, é verdade — Analu concordou. Ela se apoiou de novo no balcão e abaixou os óculos de volta no nariz para digitar alguma coisa no computador. Só enxergava de perto com eles. — Me fala um sinônimo da palavra “importante”.

— Significativo? — Erica tentou.

— Hm, não sei, as pessoas não usam muito “significativo” quando estão conversando. Tem que soar natural.

Erica deu outro gole no seu copo d’água.

— Você procurou no Google?

— Ah, é. Vou procurar — Analu abriu uma nova guia da internet no seu computador. — Pronto. Depois eu vejo se acho alguma coisa. — Ela pegou a colher de madeira no suporte da bancada e olhou para Erica por cima dos óculos. — Ah, eu vi que o seu pijama ainda está de molho quando fui recolher a roupa no varal. Você se esqueceu dele?

Erica não tinha se esquecido. Ela tinha derribado ketchup e um pouco de tinta de caneta nele, e queria que a mancha saísse.

— Não, eu sei.

Analu subiu os óculos de novo para a cabeça.

— Você precisa enxaguar e lavar ele logo senão a cor dele vai acabar saindo — ela falou, mexendo o pimentão com o tomate e a cebola na frigideira com a colher.

— Eu sei, mãe. Vou fazer isso mais tarde.

Analu sempre dava palpite sobre tudo que ela achava que tinha mais conhecimento do que Erica, mas Erica sabia o que estava fazendo dessa vez. Ela tinha pesquisado na internet.

— Sabe, eu estava conversando com o seu pai e acho que vamos plantar um manacá-da-serra no quintal. Eu fui pesquisar e descobri que ela cresce rápido, então dentro de uns cinco anos provavelmente vai estar fazendo sombra no seu quarto. Não é legal?

Erica fez que sim com a cabeça. Ela gostava de plantas.

— É, mas espero que dentro de cinco anos eu já tenha me mudado para a minha própria casa — ela riu.

Analu olhou para ela.

— Às vezes eu me esqueço de que eventualmente você vai deixar o ninho. — Ela bateu com a colher no canto da frigideira. — Você não gosta de morar aqui?

— Eu adoro morar aqui, mãe — Erica disse, porque era a verdade. — Mas também não seria ruim ter o meu lugar. Você só não sentiu essa necessidade porque saiu da casa da sua mãe aos 17.

— Bom, ela não me deixou muita escolha na época — Analu disse.

— Eu sei — Erica falou e foi guardar a garrafa de volta na geladeira. — E também sei como sou sortuda por ter você. — Ela pegou seu copo d’água do balcão. — Você me chama quando o almoço estiver pronto?

— Chamo.

Erica deu um tchauzinho para sua mãe antes de sair da cozinha.

Ela entrou no escritório. Estava tocando Shania Twain.

Ela ouviu a campainha tocar quando se sentou no chão e começou a mexer na massa para ver se ela continuava na consistência que Erica queria, mas imaginou que fosse alguma amiga da sua mãe. Nem sempre Analu avisava quando alguém ia aparecer na casa deles. Ou talvez fosse o seu pai que tinha saído mais uma vez sem as chaves.

Mas era Nico.

Erica se assustou quando o viu parado na porta do escritório, mas acabou sorrindo. Sua mãe devia ter aberto a porta para ele. Ela se levantou do chão e atravessou o cômodo. Estava surpresa. Não esperava que ele fosse aparecer ali.

— Oi, você — ela disse, ainda sorrindo, tomando cuidado para deixar suas mãos afastadas das costas dele enquanto o abraçava. Não queria sujá-lo.

Nico a abraçou de volta.

Ele estava usando jeans e um moletom banco que cheirava a amaciante.

— Oi, linda — ele disse. Também estava sorrindo. Ele olhou para a cadeira onde Erica estava trabalhando, então se afastou e olhou de volta para ela. — Não quero atrapalhar. Só passei rapidinho porque queria te perguntar uma coisa. Vim trazer o Arthur na casa de uma amiga dele perto daqui.

Erica balançou a cabeça.

— Não tá atrapalhando, eu já ia fazer uma pausa. — Ela só estava esperando o almoço ficar pronto mesmo.

— Bom saber — Nico disse, então sorriu para ela.

— Você pode se sentar se quiser — Erica falou, indicando a cadeira de rodinhas para ele. Era o lugar que Analu costumava usar para escrever antes. Ela continuou em pé, mas apoiou o quadril contra a beirada da mesa.

— Tá parecendo parte do cenário de Ghost isso aqui — Nico falou enquanto se sentava. Ela tomou cuidado de deixar a cadeira fora da parte forrada do chão para nenhuma das rodinhas enroscar no plástico.

Erica riu. Ela pegou um pouco da plastilina que usava para praticar do rolo que estava aberto em cima da mesa e começou a brincar com ela entre os dedos. Era bom para relaxar.

— Eu tô só no começo dessa escultura ainda. Com sorte ela vai parecer mais uma pessoa e menos um vaso quando eu terminar.

Nico sorriu e a olhou.

— Me diz, como você convenceu a sua mãe a transformar o escritório dela nessa bagunça?

Erica espalhou a plastilina contra a palma da sua mão com o polegar e encolheu os ombros um pouco, sorrindo de lado.

— Ela tá sempre escrevendo na cozinha agora. E esse é o cômodo com a melhor luz natural da casa por causa do jardim de inverno — Erica apontou para o final do escritório onde ele ficava —, então ela se ofereceu para dividir comigo. Não consegui dizer não.

Erica tentava sempre manter suas coisas concentradas do lado direito do cômodo para sua mãe poder usar a parte onde ficava a mesa dela se precisasse. Não era o estúdio ideal, mas era bem melhor do que ficar com as esculturas no seu quarto como ela fazia no começo.

— E agora você vai tentar me convencer de que essa música que tá tocando foi a sua mãe que colocou?

Nico estava rindo dela. Dava para ver pelo jeito que ele tinha se esforçado para não sorrir e pela forma como suas bochechas tinham subido.

Tinha sido Analu que tinha feito aquela playlist. (Não que fosse essa a questão.)

— Não tem nada de errado gostar de country — Erica argumentou.

— Eu sei.

— Por que você tá rindo então?

— Não é engraçado gostarem de country, é engraçado você gostar de country. — Ele riu. Não estava mais tentando disfarçar. — Não combina com a sua imagem.

Erica revirou os olhos.

— Não sabia que eu tinha uma imagem a zelar.

— Todo mundo tem — ele disse.

Erica sabia que era verdade de certa forma, mas o jeito que Nico olhou para ela disse aquilo a deixou desconfortável por algum motivo.

Ela decidiu mudar de assunto.

— E então, o que você queria me perguntar?

Nico passou a mão pelo cabelo. Ele desviou os olhos apenas por um segundo.

— Eu ia te perguntar ontem, mas a gente acabou dormindo e depois nós… Hã, eu me distraí. Acabei esquecendo.

Erica sorriu. Aquele era um jeito de colocar as coisas. Ela assentiu para ele continuar e afastou seu cabelo do rosto com o pulso para não sujá-lo.

— É que a minha prima vai dar uma festa de aniversário hoje à noite e eu queria saber se você quer ir comigo. Vai ser na chácara dela em Ipeúna. Eu sei que tá meio em cima da hora, mas não estava planejando ir… Só que a minha mãe já comprou o presente da Júlia e eu não queria deixar ela chateada. — Ele fez uma pausa. Seu pé tocou o de Erica quando ela continuou em silêncio. — Diz que vai comigo, por favor.

Erica franziu o cenho. Ela começou enrolar a plastilina.

— Eu não sei… Não vai ser estranho eu aparecer lá? — Ela e Júlia não eram exatamente amigas na escola.

Nico passou a mão pelas suas coxas, esticando o jeans.

— Eu perguntei para a Júlia se podia levar alguém e ela disse que sim. Além disso, não pense nela. Você estaria me fazendo um favor.

Mas Erica ainda não estava convencida. Ele tinha feito o convite muito em cima da hora. E quem dava uma festa de aniversário na terça-feira à noite?

— Ah, Nico, eu não sei.

O pé dele tocou o dela de novo.

— Eu não vou sobreviver lá sozinho, Erica.

Erica riu, então revirou os olhos. Ela colocou a plastilina em cima da mesa e cruzou os braços, olhando para Nico.

Não podia acreditar que estava considerando aquilo.

— Que tipo de festa vai ser? Não sei nem se tenho roupa.

— Você pode ir de calça jeans e com aquele seu top mostarda. Eu adoro quando você usa ele.

Erica nunca tinha percebido que Nico prestava tanta atenção assim no que ela vestia.

— É um cropped.

— Vai ser uma festa na piscina à noite, você pode ir de biquíni se quiser que ninguém vai achar estranho. E você não vai precisar nem ir com sapato fechado porque não vamos com a minha moto, minha mãe disse que vai me emprestar o carro.

Erica coçou seu nariz com as costas da mão por reflexo, considerando.

— A Júlia chamou muita gente da nossa sala?

— Acho que não, ela brigou com quase todo mundo antes da formatura.

Erica riu. Mas ainda assim...

— Eu n...

Nico não deixou ela terminar.

— Por favor, Erica. Olha, a gente só vai, dá oi pra minha prima pra ela não reclamar com os meus pais que eu não apareci e depois vamos embora. E eu fico te devendo uma. Pode pedir o que você quiser em troca.

Ela respirou fundo. Tinha certeza que ia se arrepender da sua resposta.

— Tá.

— Mesmo? — Nem Nico tinha acreditado direito.

Erica respirou fundo e assentiu. Agora já tinha dito que ia.

— Mas você vai se arrepender por ter me prometido algo em troca.

Ela ia pensar em algo que fosse bem doloroso para ele.

Nico riu e se levantou da cadeira. Ele abraçou Erica e beijou o pescoço dela.

— Eu sou um homem desesperado. Faça o seu pior.

Erica riu quando ele respirou contra o seu pescoço. Dava cócegas.

— Erica…

Ela olhou para ele. Sempre se surpreendia em como os olhos dele eram escuros e enormes.

— Oi.

— Obrigado.

Mas parecia que ele queria dizer outra coisa, então Erica assentiu e esperou.

Ela só estava sendo educada.

Mas então eles ouviram duas batidas na porta. Nico se afastou e Erica apoiou de novo seu quadril contra a mesa.

Era Analu.

Ela estava sorrindo.

— Oi, meninos. Não queria atrapalhar. Só vim avisar que o almoço está pronto. — Então olhou para Erica como se soubesse exatamente o que estava acontecendo ali, o que ela tinha interrompido.

Erica assentiu.

— Já tô indo, mãe. Só vou terminar aqui.

Analu sorriu e assentiu de volta. Ela fechou a porta quando saiu.

Nico olhou para Erica.

— Tudo bem — ele disse quando ficaram sozinhos. — Eu já tô de saída. — Ele sorriu. — Obrigado de novo por ir comigo.

O que quer que ele quisesse dizer antes tinha passado.

Erica foi com ele até a sala.

Nico pegou o seu capacete que tinha deixado em cima do sofá e tirou as chaves da moto de dentro do bolso da calça.

Erica cruzou os braços. Ainda precisava lavar as mãos.

— Que horas você vem me buscar?

— Entre oito e meia e nove horas. Fica bom pra você?

Erica assentiu. Ela abriu a porta da casa para Nico.

— Me manda mensagem quando você estiver saindo da sua casa pra eu já ficar pronta.

— Pode deixar. — Nico beijou a bochecha dela. — Tchau, linda.

Erica sorriu para ele.

— Tchau.

— Tchau, tia! — Nico disse para Analu, acenando da porta.

— Tchau, querido! — Analu disse da cozinha.

Erica se apoiou no batente da porta quando o viu colocar o capacete e subir na moto. Nico acenou uma última vez antes de dar partida.

Analu estava a encarando quando Erica trancou a porta. Erica andou até ela e se debruçou contra o balcão da cozinha.

— O pai não vai almoçar em casa hoje?

— Não, ele ligou para avisar que é aniversário de alguém da aula de hidro dele. Eles sempre fazem uma festinha quando é assim. — Analu enxugou as mãos em um guardanapo. — Você e o Nico vão sair?

Erica assentiu.

— É, ele me chamou para ir no aniversário da prima dele. Disse que não quer ir sozinho. — Ela também não teria querido ir sozinha se a prima dela fosse a Júlia. Provavelmente era por isso que ela tinha aceitado o convite.

Analu balançou a cabeça.

Erica se levantou do banquinho e sorriu.

— Vou no banheiro lavar as mãos e já volto pra gente almoçar.

— Erica — Analu a chamou.

Erica parou.


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